No deserto da solidão

Um caminho demorado, mas que nos ensina que estar só não significa estar abandonado
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
por Camilla Fiorito
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Na vida que nunca silencia, onde os ponteiros do relógio trabalham sem parar, a solidão caminha ao nosso lado, em passos sutis que muitas vezes passam despercebidos. Ela se esconde em casa, no tumulto do ônibus lotado, no condomínio, no clube, na calçada, no trabalho, na faculdade, no colégio, na ida e volta da caminhada, na praia lotada. Pessoas se esbarram e passam pelo mesmo caminho, mas não há encontro. O conviver sem estar fica em evidência e traz a reflexão de que não é falta de gente, mas sim de presença. 

A pressa do dia a dia, aprofunda esse vazio. Os dias passam com a sensação de que ficaram pela metade. Corremos, sempre corremos, de um lado a outro, atrás de metas, oportunidades, com grandes expectativas. Acordamos cedo ou tarde demais, ficamos exaustos e, sem perceber, mudamos a forma como sentimos, onde tudo precisa ser rápido, inclusive o afeto.

O tempo para conversas demoradas e olhares profundos se tornam escassos. A solidão se transforma em uma linguagem compartilhada que todos conhecem, mas quase ninguém fala sobre ela. Para camuflar esse sentir, um pequeno objeto disfarçado de companhia entra em cena. Os dedos deslizam a tela para cima e para baixo, passando por imagens de sorrisos, viagens e vidas que parecem perfeitas. Uma troca sem pele, onde a solidão encontra espaço fértil. Aumenta entre filtros, legendas, publicações que vão ganhando likes e enraíza nas comparações que são realizadas até sem perceber.

A solidão passa a ganhar nome e textura, mesmo em uma geração que está sempre conectada e, cada vez mais, imersiva em seus celulares, onde a linha do umbigo reflete o olhar vidrado em uma tela que rola sem parar, trazendo uma grande preocupação para a época atual.

A velocidade nos consome e ficamos presos em dois mundos: o físico e o virtual, mas, em nenhum deles, o sentimento de estar pisando em terra firme é aflorado. As conexões escorregam e derretem como gelo na tarde ensolarada.

No meio desse caminho, existe a solitude, que nasce quando ouvimos o nosso próprio âmago. É a arte de estar consigo sem se sentir pequeno, o silêncio que não pesa, mas acolhe em meio ao terremoto de informações. Nela, percebemos que estar só não precisa ser um vazio, pois pode também ser morada, onde o tempo desacelera e recuperamos o contorno de quem realmente somos.
A solitude pode morar no café da manhã, no almoço, na caminhada pelas ruas desertas ou movimentadas, no banho, no instante que o telefone toca e decidimos não atender, na percepção de que não precisamos estar sempre visível nas redes sociais. E, quando a abraçamos, entendemos que a solidão, às vezes, mostra que algo dentro de nós pede zelo, como uma história que guardamos, um sono que adiamos, uma autenticidade que sufocamos.

E, aos poucos, vamos descobrindo que não estamos sozinhos quando estamos em nossa própria companhia. Neste momento, com a compreensão da solidão, entendemos onde dói, o que incomoda e falta. Resgatamos um dos maiores desafios globais da era atual: transformar solidão em solitude. 

Um caminho demorado, mas que nos ensina que estar só não significa estar abandonado. Que se escutar sem medo, viver a vida com profundidade e presença de verdade, encontrando equilíbrio na trajetória, no uso das redes sociais, deixando de ser sombra e se transformar em protagonista da própria história, traz leveza, uma suavidade que transborda.

A solidão não some da noite para o dia e muito menos deixa de existir em todos os nossos momentos. Volta, de tempos em tempos. Faz parte dos ciclos que vivemos. 

Entender esse processo é uma conquista. Assim como descobrir que, mesmo com o barulho das cidades, o excesso das telas e a pressa que nos envolve, ainda somos capazes de criar um espaço íntimo onde cabemos inteiros. Um lugar onde a solidão não nos assusta e a solitude nos fortalece.

Lembre-se: é possível estar só sem sofrimento, ficando em paz com a sua própria companhia. 

Contato:

Site: www.camillafiorito.com.br

Instagram: @camilla.fioritoeduc

 

Apoie o jornalismo de qualidade

Há 81 anos A VOZ DA SERRA se dedica a buscar e entregar a seus leitores informações atualizadas e confiáveis, ajudando a escrever, dia após dia, a história de Nova Friburgo e região. Por sua alta credibilidade, incansável modernização e independência editorial, A VOZ DA SERRA consagrou-se como incontestável fonte de consulta para historiadores e pesquisadores do cotidiano de nossa cidade, tornando-se referência de jornalismo no interior fluminense, um dos veículos mais respeitados da Região Serrana e líder de mercado.

Assinando A VOZ DA SERRA, você não apenas tem acesso a conteúdo de qualidade, mantendo-se bem informado através de nossas páginas, site e mídias sociais, como ajuda a construir e dar continuidade a essa história.

Assine A Voz da Serra

TAGS: