São Pedro da Serra ganha novo centro cultural

Instituto do Ator / Clínica da Arte será inaugurado nesta quinta-feira com curadoria de Fábio Porchat e exposição do artista e escultor Nelson Felix
quinta-feira, 06 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
fotos: Nai Frossard
fotos: Nai Frossard

Um novo espaço promete incrementar a arte e a cultura no distrito de São Pedro da Serra: o Instituto do Ator – Clínica da Arte, que será inaugurado nesta quinta-feira, 6, às 18h30. O evento marca a chegada da Clínica de Arte de São Pedro da Serra que terá a curadoria do ator, humorista e apresentador da Rede Globo e GNT, Fábio Porchat, junto com Dinah Cesare, Henrique Gusmão, Carla Esmeralda, Joaquim Ferreira, Douglas Rezende, Angela Blazo e Silvia Leal. O Instituto do Ator / Clínica da Arte tem a direção de Celina Sodré, Guilherme Bazana, Leo da Selva e Raisa Richter, todos moradores de Nova Friburgo. 

A programação de estreia do novo espaço será na Galeria Claráguas, no térreo do prédio de três andares. O destaque é a exposição inédita do escultor Nelson Felix, carioca radicado há mais de quatro décadas em Nova Friburgo. Além da abertura da expo do artista, o novo espaço cultural contará com apresentação especial da pianista Raisa Richter, na Sala Jerzy Grotowski. No repertório composições autorais do álbum “O Piano de Raisa Richter” (2021).

Toda a arte, o talento e a sensibilidade de Nelson Felix  

Com obras reconhecidas no Brasil e no exterior, Nelson Felix apresentará trabalhos que, após a mostra em São Pedro da Serra, seguirão para o MAC/USP e a Galeria Almeida & Dale, em São Paulo, onde serão exibidos no primeiro semestre de 2026.

Nelson Felix é um escultor do tempo. Tempo e espaço repletos de citações da história da Arte, citações místicas, poéticas e autorreferências, que formam um emaranhado, que é onde a obra do artista brota. Este mesmo tempo é conceito em diversas criações, às vezes contado em segundos, outras em décadas para a conclusão, e mesmo séculos são usados como matéria nas esculturas. 

                                                                                                   

Nesta exposição, Nelson reúne as obras “Júlia”, com dois quadros, e “Sete noites vazias e 21 dias como se fossem 21 anos”, com nove quadros. Em “Julia”, inicialmente criada em 1995, o artista fotografou um bebê com glândulas do corpo humano, fundidas em ferro. Em 2014, ele fotografou novamente Julia (com quase 20 anos) e exibe as duas obras lado a lado, na exposição de 2015 na Pinacoteca de São Paulo, com o título: Julia I e Julia II. Agora, Julia na terceira versão, 30 anos depois, as duas fotografias se transpassam e criam uma terceira, essa nova foto então é somada a Cacto.

A obra atual, e que está nesta mostra, destaca a trajetória de um trabalho e da sua conclusão. O tempo de Julia amálgama passado e presente. Revela o que passa, e, melhor, o que transpassa e transcende, e deixa a dúvida até da sua conclusão. “Aliás, é aqui, nesta dúvida, a única coisa que me parece permanecer estável”, conta o artista. 

O trabalho fará parte de uma série maior, que o artista intitulou de “Homenagem a Tiganá” e estará presente em março na sua próxima exposição da sua galeria em São Paulo.

O movimento do cosmos tem relação intrínseca com o trabalho do artista: referências cósmicas, e, até, atitudes ou disciplinas espirituais, são traduzidas em imagens e esculturas. A arte, para o também filósofo francês, Serge Raynaud de La Ferrière, é a tradução do sentido sagrado, e os artistas, para ele, podem manifestar este estado, mesmo quando ignorantes do ser tido como "ser espiritual”. 

Em “Sete noites vazias e 21 dias como fossem 21 anos” (outra série de obras exposta nesta mostra em São Pedro) é um gesto gráfico, repetitivo, que remete a obras primárias, ancestrais até, que poderia estar presente numa caverna, enfim, um gesto primal. Graficamente é uma ação vertical, com bastão a óleo, que deixa no papel um movimento enérgico, em nove obras. Versos de Homero, sobre Hermes, são acrescentados a esta ação, que traz a referência grega do nascimento da arte: neste verso Hermes sacrifica uma tartaruga e, do seu casco, cria a lira, um novo instrumento, e gera a música. Felix soma a este nascimento, um vaso em ferro e um texto escrito sobre chumbo.

As formas orgânicas, elementos de reinos diversos, em que ele evidencia uma não-autoria de configurações individuais, são imagens que depois possuem a verve do artista, com sua assinatura única. Cubos, esferas, cilindros, plantas e partes do corpo humano surgem em suas obras e trazem reflexões sobre a origem de tudo, através de pensamentos filosóficos ou de metáforas poéticas. As artes geram expressões, plenas de parábolas e símbolos, chaves de essência, não mais humana. 

Para Felix, "fazer arte é como construir talismãs, objetos mágicos, impregnados de significados, que somados a outros significados, e mais outros ainda, geram por excesso, e não por negação, a perda do significado. Assim, nasce um vazio, no olhar e na mente, e surge a possibilidade de contemplação”.

                                                                                 

Biografia

Nelson Felix tem um vasto currículo. Em 1989, recebeu bolsa do Ministério da Cultura Francês pela exposição na Galeria Charles Sablon em Paris e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pela melhor exposição do ano em desenho. Dois anos depois ganhou a Bolsa Vitae de Artes e em 1992, voltou a receber o prêmio da APCA em escultura, pela exposição no Museu de Arte de São Paulo. 

No ano seguinte foi lançado o vídeo Ooco para a série RioArte, com direção de Luís Felipe Sá. Esse trabalho, realizado a quatro mãos, foi premiado com o Sol de Prata no XXII Festival Internacional de Cinema, TV e Vídeo em Clemond-Ferrand, França. Em 1996, a TVA lhe conferiu o prêmio Bravo-Brasil na XXIII Bienal de São Paulo. Em 2002, ganhou o prêmio Universidade Estácio de Sá e em 2006, o Ministério da Cultura/Funarte o premiou pelo Conjunto da Obra – Marcoantonio Vilaça.

A editora Cosac Naify publicou, em 1998, o livro Nelson Felix, sobre sua obra, com texto de Rodrigo Naves. Em 2001, com edição da Casa da Palavra, lançou a mesma obra, com textos de Glória Ferreira, Nelson Brissac e Sonia Salzstein. Em 2005, a editora Pinakotheke publicou Trilogias - conversas entre Nelson Felix e Glória Ferreira. Em 2006, o Museu da Vale do Rio Doce editou Camiri e a Casa 11. Já em 2011, publicou Concerto para encanto e anel, com textos de Ronaldo Brito e Marisa Flórido. Ooco foi editado pela Pinacoteca em 2015 e o mais recente, Berceuse, foi publicado pela editora Martins Fontes em 2020.

 

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TAGS: Arte | exposição