Quando acaba a esperança?

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sábado, 10 de abril de 2021

A esperança só é perdida quando se morre. Para todo o mais, sempre sobrará a esperança. Mesmo nos tempos mais cruéis, a esperança, menor ou maior, estará ali, debruçada à nossa frente, entre nossos dedos, dentro do peito para nos fazer seguir. E é exatamente nos tempos mais difíceis que a esperança parece nos escapar ou não existir. Mas existe e persiste nesse aqui e agora. 

Quanto mais reclusa ou invisível é que está mais forte. Porque não é fácil ser forte diante da adversidade próxima de ser vitoriosa. Mas a esperança não padece e opera justamente na invisibilidade, manifestando-se na simplicidade de um sorriso ou na criatividade da intimidade. É a tal voz que sopra no nosso ouvido: “não desista, siga firme”. 

Ao olhar para os lados, nada vemos, mas sabemos o que escutamos em nosso íntimo. É a tal força que nos arranca da inércia de quem cansou e nos faz aguentar um pouco mais. No entanto, que se sublinhe: a esperança não é masoquista, tanto quanto não é vaidosa. É repleta de fé, mas não se jubila, nem alimenta ao crente ou ungido de si mesmo. Esse alimento é outro e não pode ser confundido com esperança. Esperança é sublime, é iluminada, tanto quanto misteriosa no seu agir.          

Se a utopia é o que nos faz caminhar – como bem disse Galeano – é a esperança que nos faz levantar e ir. A esperança, portanto, é o que nos tira da cama todos os dias para trabalhar e é a mesma esperança que nos faz estudar, cumprir tarefas, se empenhar e cuidar de nós mesmos. 

Afinal, que garantia há de que estaremos vivos amanhã? 

Se não há garantia alguma, caminhamos pela utopia de perdurar, mas na esperança de concluir. Assim, por mais que tenhamos dificuldade em achá-la perdida no meio de todo o caos, entre tantos ais, de um modo ou de outro, sentimos que a esperança está ali, ansiosa, em um cantinho qualquer do nosso ser. Pois somos seres de esperança e nos movemos por quem somos. Se assim não for, não há razão para existir. 

A esperança só morre, quando a gente morre, seja como indivíduo ou mesmo como sociedade, de tal forma que transformações não significam morte, mas evolução. E a esperança está nesse processo evolutivo, mesmo que passe despercebida.

Nesses tempos de pouca ou quase nenhuma empatia, por vezes é passível acreditar que a esperança foi aniquilada e que nós,, como coletividade, fomos derrotados. Pode até ser que enquanto conjunto social tenhamos fracassado. Mas a esperança – reforço – jamais acaba. É em um pingo de ética aqui, em um bocado de virtudes ali que a esperança resiste e nos faz resistir e até sonhar.

Enquanto houver vida, haverá esperança. E, não é tolice se apegar à essa vontade de viver - não para apenas sobreviver - mas viver em plenitude e abundância em um mundo sustentável e mais igual, em um mundo melhor da gente com a gente mesmo.      

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