Um amor chamado Domingo

Wanderson Nogueira

Wanderson Nogueira

Observatório

Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

sábado, 11 de agosto de 2018

Pelos próximos meses, a jornalista Laiane Tavares assina a coluna no lugar do titular Wanderson Nogueira. A Justiça Eleitoral determina que candidatos nas Eleições 2018 não podem apresentar, participar ou dar nome a programas de rádio e TV. A regra não se aplica aos órgãos impressos. Mesmo assim, o colunista e A VOZ DA SERRA, em comum acordo, optaram pela alteração neste período. Wanderson Nogueira volta a assinar o Observatório em outubro, após o período eleitoral.

 

Quando eu era criança, depois adolescente, eu odiava os domingos. Porque domingo não era um dia de folga, era o dia do fim da folga. No dia seguinte tinha aula. Não dava para amar aquele dia que anunciava o início da semana. Mais tarde, veio o trabalho. De segunda à sexta, durante um bom período, era trabalho e faculdade, então os domingos eram necessários para o descanso, mas ainda desprezados pelo que significava.

Faz uns seis anos que eu me apaixonei pelos domingos da minha vida. É o dia da semana que eu realmente me sinto feliz e tranquila. Essa transição foi sutil, como toda boa transição. Conforme mais e mais responsabilidades foram se acumulando na minha vida, o sábado virou uma extensão da semana. Quando não é por trabalho é pra acertar algumas pontas soltas na semana.

Casei, vieram três cachorros, uma casa, o jardim e a rede que eu só posso pensar em aproveitar no domingo. Mas eu não odeio o sábado como um dia, na minha imaturidade, odiei o domingo. Eu mudei a forma como enxergo as coisas e isso manteve uma boa relação entre mim e o sábado, coloquei ele no lugar de um dia que me traz o dia que eu quero. Então, quando é seis da tarde de qualquer sábado eu já estou muito feliz e agradecida pelo que está por vir.

E o domingo pode ser de qualquer jeito. Ele pode vir com sol, nublado, chuvoso, é bem-vindo. Sempre me traz uma paz. É estranho como depois de um tempo a gente não quer nem dormir até tarde no domingo. Se por alguma razão não estiver de pé logo cedo, eu fico um pouco decepcionada comigo. É como se dormir nesse dia me tirasse muitas coisas, nos outros não. Na verdade, de segunda à sexta, dormir é o sonho.

Essa relação transformada com um dia da semana também se deu em outros aspectos da minha vida. Com o tempo, acho que até o meu paladar mudou. E isso foi ótimo. Aquela recusa infantil de experimentar um novo sabor, não existe mais. E quantos sabores eu descobri por me permitir. Eu falei dos meus cachorros, mas não contei que durante toda infância eu tinha medo de todos os cães do mundo. Gostava dos gatos da minha avó, mas nossa relação não evoluía.

Faz quase três anos que meu primeiro cachorro entrou na minha vida, um pastor Canadense, ele me trouxe tanto sobre amor. Um ano depois, na noite de um sábado, deixaram na minha porta dois filhotes sem raça definida. Tão pequenos e lindos. Eu até consegui quem quisesse adotar, mas quem disse que o coração os deixou partirem. Ficaram.

Tá vendo como as coisas mudam quando a gente abre o coração para romper com o medo, ódio e rancor? Quando a gente descobre o lado bom da vida tudo melhora. Existem muitas formas de olhar o mundo e de viver nele, nossos passos, nossas sensações e reações partem sempre de algum lugar. Você não odeia algo pela essência daquela coisa em si, mas pelo que ela parece te impedir. Só que as relações com coisas, dias e pessoas não são fim, são possibilidades. Tudo pode se transformar.

Meu medo de cachorro se transformou em um amor e um respeito profundo por todos os animais, assim que eu permiti que amar o primeiro fosse uma possibilidade. O domingo se tornou meu dia preferido assim que eu entendi o quanto ele era fundamental pra minha paz, e que tudo bem ter uma semana toda pela frente, porque é domingo de novo depois. Me acalma. E se eu ainda odiasse cebola, nunca teria experimentado guacamole.

Mudar nossas percepções não nos enfraquece, na verdade, nos dá fôlego e nos devolve os dias e a gratidão. Hoje, aos 31 anos, o que não me faz bem, fica fora da minha vida, e desaparece por conta própria. Desaparece pra talvez fazer bem a outro alguém. As coisas que não nos cabem, não são inúteis, só não nos servem. E aquilo sobre o qual era necessário apenas um novo olhar, eu aceitei amar. Hoje, nem os domingos eu odeio mais.

Comecei esse texto porque ouvi essa frase encantadora “não é sobre o que o mundo reserva pra você, é sobre o que você traz para o mundo.” Talvez não se encaixe exatamente aqui, mas e daí? Se eu tenho algo que me fez bem, quero dividir com todos, e eu não tô em busca do momento certo, eu tô em busca de momentos que possam nos ajudar a fazer o que é certo, a aceitar, respeitar, agradecer, jamais se render à desesperança e amar as coisas que à primeira vista podem não apaixonar, mas se você olhar de novo...

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Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

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