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A gralha-azul

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
Na mais pura simplicidade da vida, como um ato de sobrevivência, está uma das mais gentis grandiosidades da natureza, que não busca na tecnologia, na filosofia ou na ciência meios para promover a vida e a sobrevivência de várias espécies, inclusive a nossa. A gralha-azul, ave que encontra seu habitat nas florestas de araucária no Sul do Brasil.
Trago este tema porque muito me encantei com a vida dessa ave ao viajar pelo interior do Rio Grande do Sul. Ela é, de alguma forma, a principal responsável pelo reflorestamento da região. Costumo passear pelos estados do Sul e sempre e incansavelmente admiro as araucárias, inclusive as temos em Nova Friburgo. No meu jardim fiz questão de plantar uma, onde cresce vigorosa e discreta, dando um show de força e beleza. É um orgulho que guardo no coração.
Confesso que a leitura do livro “Maneiras de Ser - Animais, plantas, máquinas: a busca por uma inteligência planetária”, escrito por James Bird, me fez mais sensível ainda com a natureza dessas árvores imponentes, um fóssil-vivo, tão antiga quanto os dinossauros, datando do período jurássico, quando os continentes americano e africano eram unidos, tendo mais de 200 milhões de anos. São árvores longevas, podendo viver, em média, de 200 a 300 anos. Até a 500 anos, como a que existe em Monte Verde, município de Minas Gerais.
O autor, James Bird, através de uma abordagem interdisciplinar, expõe sua preocupação com a sobrevivência do nosso planeta face às agressões que a natureza vem sofrendo. A obra revela seu esforço em promover a sensibilidade e o reconhecimento do potencial da Inteligência Artificial, recurso capaz de promover interconexão da ciência, das tecnologias e das necessidades humanas com a natureza, como forma de preservar as incontáveis formas de vida existentes na Terra. Inclusive a nossa!
Ah!, pensamos ser superiores... Grande ilusão. Os animais nos superam! Seres, mais antigos que nós, que nunca precisaram destruir o meio-ambiente ou fizeram muros ou cercas com arames farpados. Sim, viveram experimentando a mais desafiadora liberdade e sobreviveram sem precisar fazer lixos de pneus e poluição de monóxido de carbono, verdadeiros assassinos silenciosos.
A gralha-azul é uma das mais belas aves do Sul do Brasil, cuja plumagem brilhante em tons de azul intenso chama atenção. Ela possui um papel ecológico relevante para a manutenção das florestas de araucária, através de uma relação de mútua dependência com a árvore. Ela se alimenta da sua semente, o pinhão.
Porém, alguns, ela os guarda como precaução, ou melhor, esconde-os em buracos que faz no solo ou sob a vegetação para consumo em outra ocasião. Como se esquece de muitas sementes, provavelmente não sabendo onde as guardou, faz com que os pinhões acabem germinando. Assim, a gralha-azul é responsável pelo crescimento das florestas de araucária ou do seu reflorestamento. Ou seja, se essa divina ave deixasse de existir, as florestas seriam reduzidas, provavelmente nem mais existiriam.
Hoje, há o reflorestamento artificial, como estratégia fundamental para a conservação da espécie através do plantio de mudas em viveiros, o que substitui o trabalho da gralha-azul. Mas retira da natureza seus processos espontâneos.
A gralha-azul, guardiã das matas brasileiras, é a árvore da renovação, uma excelente trabalhadora rural, além de representar a conexão da natureza com a vida humana e animal. A araucária nos oferece o pinhão com fartura, rico alimento em energias e nutrientes, madeira de excelente qualidade, além de possibilitar a vida de diversas espécies sob sua copa.
Além do mais, é uma árvore dioica, uma espécie botânica com sexos separados; indivíduos masculinos que produzem o pólen e os femininos que produzem as sementes. Para produzirem o pinhão, elas dependem de agentes externos, como o vento e os insetos, para levar o pólen de uma árvore macho para a árvore fêmea. Apenas 5% das plantas são dioicas.
Para finalizar, deixo uma lenda que conta que a gralha-azul possuía uma plumagem escura, igual a milhares de outras aves. Deus pintou suas penas da cor do céu para que o mundo pudesse reconhecer o seu esforço e dedicação.

Tereza Cristina Malcher Campitelli
Momentos Literários
Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.
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