O café: subidor de montanhas e destruidor de florestas (Parte 3 )

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A hecatombe da Mata Atlântica

A serra fluminense foi mantida até o século 19 como uma das mais selvagens e desconhecidas regiões, ainda que próxima do litoral. Mas floresta era um obstáculo a ser superado, um entrave no caminho da civilização, ou mais precisamente do seu modelo civilizatório. Naquele momento, a ideia de civilização passa a ser confundida com a necessidade de conquista e sujeição da natureza. Remover a floresta significava uma espécie de símbolo da construção do mundo civilizado. Para o colonizador português preparar o solo para a lavoura significava derrubar toda a floresta, abrindo espaço para a implantação de culturas em campo aberto.

Depois da extração do ouro de aluvião nos afluentes dos rios Grande, Negro e Macuco seguido do plantio de alimentos, iniciaram-se as primeiras experiências com o plantio do café na serra fluminense, já na primeira década do século 19. A presença de florestas tropicais com solos cobertos de humos era considerada como um indicador de fertilidade para os terrenos, o que tornava viável a produção cafeeira. Latifúndios se estenderam pelas vargens, chapadas, socavões e montanhas. Sobre toda a imensidão da mata, picadas retalharam os latifúndios e os lavradores atiraram-se à derrubada da floresta. Foi penosa e lenta a infiltração nesse meio montanhoso e enflorestado.

Para a derrubada da mata, o colono português aprendeu com o índio o método da coivara. Tratava-se de uma técnica de cultivo dos povos ameríndios caracterizada pela queima da mata, mas em pequena escala, conhecida como agricultura de coivara. Porém, foi apropriada indevidamente pelos lavradores que queimavam grandes extensões da mata de seus latifúndios. Este método predatório estava associado à ideia da eterna existência de uma nova fronteira agrícola a ser aberta.

A queimada era uma tarefa perigosa e demandava técnica e conhecimento. Saber o momento oportuno exigia experiência, para que não fosse feita com muita ou pouca antecedência em relação às chuvas. Não poderia ser intensa demais para que não chamuscasse a camada rasa e fértil de humos, mas que não fosse tão superficial que não produzisse cinzas suficientes para neutralizar o solo ou que o deixasse ileso dos insetos. Nos meses frios de maio, junho e julho perto do fim da estação seca, camaradas eram contratados para a derrubada da mata. Com o machado em uma das mãos e o tição na outra, trabalhando de baixo para cima a partir da base da montanha, brandiam os machados sucessivamente contra cada árvore talhando até que o tronco, ainda inteiro, tremulasse com a iminência de sua queda.

Os trabalhadores iam subindo, cortando um e depois outro tronco, cada vez mais acima, até que se chegasse ao cume da montanha. O capataz experiente decidia qual a árvore mestra, a gigante, que seria cortada até o fim arrastando consigo todas as outras. Se fosse bem sucedido, o sopé inteiro desabava com uma tremenda explosão levantando uma nuvem de fragmentos, de bandos de papagaios, de tucanos e de aves canoras. Os trabalhadores festejavam, pois se o capataz errasse e apenas umas poucas árvores caíssem, teriam de descer entre as árvores cambaleantes e derrubá-las uma a uma.

Nesta tarefa de abatê-las individualmente ocorriam geralmente muitos acidentes fatais. Por isso, os escravos eram poupados desta atividade já que os proprietários temiam perder as suas “peças”. Uma faixa de floresta, um hectare mais ou menos, era cortada e deixada secar, e, por meio de machados, retirava-se o anel da casca dos troncos das árvores maiores. Um pouco antes da chegada das chuvas, todo o amontoado de floresta derrubada era incendiado. A vegetação ressecada saltava em labaredas com rugido e espocar, soando como disparos de espingarda. Subia um turbilhão de fumaça para o céu fazendo com que a enorme quantidade de nutrientes da biomassa caísse sobre a terra na forma de cinzas. O fogo ardia durante dias e depois fumegava por muitos outros.

Chegavam, por fim, as chuvas, que adicionavam ao esterco gorduroso do humos e do solo os nutrientes liberados do rico leito das cinzas. As chuvas drenavam os nutrientes para o interior do solo, neutralizando-o e ao mesmo tempo fertilizando-o. O vale do Paraíba parecia infernal ao final das estações secas, com centenas de incêndios nos latifúndios. Na metade do século, à medida que se acelerava a derrubada da Mata Atlântica para o plantio de arbustos de café, uma nuvem amarelada pairava sobre a serra fluminense durante as queimadas, obscurecendo o sol de dia e apagando as estrelas à noite.

Os viajantes ficavam surpresos diante da bruma que limitava a visibilidade dos topos das montanhas e que encurtava o fôlego, provocando uma sensação de fadiga. As mais preciosas madeiras incineravam numa hecatombe da fauna e da flora devoradas pelas chamas. Este procedimento, a que denominavam de “rotina” poderia ter sido evitado, como veremos na última parte da próxima semana.

  • Foto da galeria

    A mata foi substituída por uma única espécie, o arbusto de café (Koenig Warthausen)

  • Foto da galeria

    A queimada da mata poderia ter sido evitada (Litografia de Rugendas)

  • Foto da galeria

    Mata reduzida a carvão. Félix Taunay, década de 1830

Publicidade
TAGS:
Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.