Os porquês do aumento na Selic

Gabriel Alves

Educação Financeira

CEO da empresa Delta, de consultoria, Gabriel escreve sobre economia e finanças e dá dicas de inteligência no gerenciamento de gastos e de como conquistar o equilíbrio entre desejo de aquisições e controle emocional para otimizar as despesas.

sexta-feira, 26 de março de 2021

O primeiro texto desta coluna foi publicado em novembro de 2019. Na época, o Copom (Comitê de Política Monetária) – órgão responsável pela manutenção de política monetária do Banco Central do Brasil – cortava 0,5 ponto percentual e a Selic acabara de bater a marca de 5,00% ao ano, batendo mais um recorde de menor taxa de juros até então. Mas as reduções não pararam até que, em agosto de 2020, a taxa alcançava seu maior recorde (ou menor) ao ser estabelecida em 2,0% ao ano. Foram seis anos desde o último aumento da Selic até que, em março deste 2021, o Comitê decidiu reajustar a taxa básica para 2,75% a.a., nossa taxa atual.

 Mas o que deu errado? Por que tantos cortes para agora voltar a aumentar? E no final das contas, o que é a taxa Selic? Quais são os impactos no meu cotidiano? Essas e algumas outras perguntas serão respondidas aqui. Portanto, atente-se! Pois você vai entender tudo sobre o Sistema Especial de Liquidação e Custódia, a Selic.

Bom, comecemos pelo básico. A taxa Selic é o índice de remuneração pelo financiamento da dívida pública; logo, a taxa básica da economia nacional. Teoricamente, a partir desta é que são reguladas as taxas de crédito dos bancos e financeiras e aqui cabe uma crítica: em janeiro/16 com a Selic no maior patamar desde o início do longo período de cortes (14,25%a.a.) a Taxa média mensal de juros das operações de crédito com recursos livres era de 3,37% a.m.; em janeiro/21, a Selic baixou mais de 80% (2,75%a.a.) e a taxa média mensal de juros das operações de crédito com recursos livres é de 2,10% a.m., o que representa queda de 38%. Percebe o mecanismo de desigualdade quando os bancos não repassam a proporcionalidade da Selic para seus clientes?

Contudo, não é apenas o mercado de crédito que sente os impactos da política monetária. Afinal, é para alcançar as metas de inflação que existe a Selic. Esta é uma poderosa ferramenta no ajuste inflacionário da economia geral e precisa estar condizente com os índices de inflação para fazer sentido. O ano de 2020, por sua vez, findou-se com IPCA (índice oficial de inflação) em 4,52% a.a. e Selic em 2,00% a.a., o que representava juros real negativo em 2,52% a.a. – ponto preocupante quando analisamos o amadurecimento (ainda em processo) da economia brasileira. Estava claro, então, a necessidade da revisão da Selic pelo Copom.

Outro ponto, decorrente dos juros negativos, era fortemente impactado pela política monetária: o câmbio. Com a moeda artificialmente desvalorizada (Selic abaixo do saudável), o Real perdia espaço no cenário global e perdeu muito poder de compra ao longo do ano. É claro, situações extremas (e a pandemia do novo coronavírus é) exigem medidas extremas, mas já passava da hora de uma revisão da nossa política monetária e esse aumento da Selic foi só o começo: até o final de 2021 esta taxa já estará ainda mais alta e – ao que tudo indica – próxima dos 5,00%.

Para o consumidor, os impactos diretos serão sentidos ao longo destes reajustes. Entre eles, o desestímulo ao crédito (taxas de juros vão ficar mais altas) e, teoricamente, como consequência a redução do consumo. Mas por outro lado, o câmbio mais favorável pode reduzir os preços (claro, se a curva de oferta x demanda permanecer estável ou apresentar mudança positiva) de produtos precificados em dólar – inclusive matéria-prima – e o poder de compra do indivíduo volta a ter mais relevância.

Percebem como o Copom tem uma poderosa ferramenta nas mãos e precisa usá-la com muita cautela? Além da cautela, precisa usá-la sem “orgulho”. Esse aumento já era aguardado há muito tempo pelo mercado e não foi executado antes por medo de “dar o braço a torcer”. O Banco Central do Brasil não pode se restringir a isso; precisa mesmo é implementar boas decisões de política monetária a fim de favorecer a população. Para os seus investimentos, pouco muda; mas a renda fixa volta a apresentar algumas novas oportunidades. Portanto, mantenha-se atento.

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CEO da empresa Delta, de consultoria, Gabriel escreve sobre economia e finanças e dá dicas de inteligência no gerenciamento de gastos e de como conquistar o equilíbrio entre desejo de aquisições e controle emocional para otimizar as despesas.

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