A inflação do lobo-guará

Gabriel Alves

Educação Financeira

CEO da empresa Delta, de consultoria, Gabriel escreve sobre economia e finanças e dá dicas de inteligência no gerenciamento de gastos e de como conquistar o equilíbrio entre desejo de aquisições e controle emocional para otimizar as despesas.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Os mês de julho marca o aniversário da nossa moeda, o Real; em julho de 1994 a nossa atual moeda começou a circular no país. No entanto, neste 2020 – pra variar – teremos mais mudanças: a partir do mês de agosto passam a circular no país as cédulas de R$ 200. Mas quais são os motivos que motivaram essa atitude do Banco Central do Brasil em conjunto com o Conselho Monetário Nacional (CMN)? Há muita coisa envolvida.

Em entrevista, Carolina Bastos – diretora do CMN – afirmou que a medida não tem cunho inflacionário. Segundo ela, "temos um sistema de metas. No momento, a inflação é baixa, estável, e controlada". Será?

No Brasil, passamos por grandes projetos econômicos a fim de superar a realidade hiperiflacionária da época; muitos falharam, mas um foi eficaz: o Plano Real. A partir de sua criação, em 1994, o nosso sistema monetário contava com notas de R$ 1, R$ 5, R$ 10, R$ 50 e R$ 100; mas em 2001 e 2002 foram adicionadas, respectivamente, ao sistema, as cédulas de R$ 2 e R$ 20 com o intuito de diminuir a circulação de cédulas e economizar com novas impressões. A lógica era simples: com duas notas de R$ 20 é possível possuir a mesma quantia de quatro notas de R$ 10.

Mas qual o intuito de criar uma nova cédula após 18 anos de um sistema inalterado? O Banco Central insiste em dizer que a mudança é uma estratégia adotada em meio as necessidades da crise da Covid-19 e, por isso, serão impressos R$100 bilhões em dinheiro de papel. Mais uma vez, serão esses os únicos motivos?

Veja, não há problema nenhum em termos cédulas expressivas circulando; a União Europeia, por exemplo, possui notas de € 500 (quinhentos euros). Isso representa, numa única cédula, mais de R$ 3mil e agora você vai começar a entender a origem do verdadeiro problema. Numa outra analogia cambial, a nossa maior cédula atual (R$ 100) vale menos de 20 dólares; surge aqui o problema.

Apesar das declarações do BC e do CMN, verdade seja dita: acumulamos inflação nas últimas décadas. Em 1995, o salário mínimo chegou a R$ 100; hoje, R$ 1.045. Percebe como o Real perdeu seu poder de compra? Isso acontece devido a inflação, que provoca o aumento dos preços de produtos e serviços. Segundo estudos, passados 26 anos desde o Plano Real, nossa moeda já perdeu mais de 80% do seu valor de compra.

De fato, a inflação medida pelo IPCA está cada vez mais equilibrada, voltando a patamares já observados entre 2005 e 2010. O problema é que em momento algum ela foi plenamente controlada a ponto de fortificar nosso poder de compra; por isso a necessidade de implementar novas estratégias para cumprir o objetivo de reduzir a circulação de grande volume de cédulas.

Cabe a nós compreender a boa relação com o dinheiro; não há política econômica para substituir a importância da educação financeira e é este o meu objetivo aqui: tornar-lhe crítico acerca dos assuntos financeiros. Afinal, percebe a diferença entre esta coluna e todos os outros artigos econômicos? Busco sempre visões – possivelmente – disruptivas.

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