Economia em crise e bolsas em alta: isso faz sentido?

Gabriel Alves

Educação Financeira

CEO da empresa Delta, de consultoria, Gabriel escreve sobre economia e finanças e dá dicas de inteligência no gerenciamento de gastos e de como conquistar o equilíbrio entre desejo de aquisições e controle emocional para otimizar as despesas.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Enquanto começo este texto, às 11h da manhã desta quinta-feira, 9, o Ibovespa está cotado em 99.579,27 pontos; já acumulam-se 56% de rentabilidade desde o fundo no auge das turbulências provocadas pelos impactos econômicos e sociais decorrentes do novo Covid-19. Em menos de quatro meses, o índice somou mais de 30 mil pontos de valorização. Ainda não é o suficiente para atingir patamares recordes alcançados em janeiro deste ano, pois na profunda queda – em apenas um mês – os gráficos mostravam mais de 50 mil pontos de desvalorização.

Por outro lado, as expectativas para 2020 não são as melhores; a economia real passa por momentos difíceis e a recessão já é realidade. O Boletim Focus (relatório periódico elaborado e divulgado pelo Banco Central do Brasil) na última segunda-feira, 6, projetou retração de 6,50% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Por outro lado, o mesmo relatório já estima expansão de 3,50% para 2021. Ademais, o mercado de trabalho sente diretamente esses impactos da recessão e a taxa de desocupação – ainda em alta – representava 12,4% no fechamento da segunda semana de junho.

Parece haver uma desconexão entre o mercado de ações e a economia real, não é mesmo? Pode parecer estranho, mas, de fato, o mercado de bolsa costuma ser um indicador antecedente: alcançamos o fundo de mercado e as maiores quedas da história da bolsa antes mesmo de o isolamento social se dissipar em território brasileiro e agora o mercado opera em alta mesmo durante o auge (será?) da crise na economia real, já projetando dias melhores em breve. Isso faz parte dos ciclos econômicos.

Agora, pode, sim, ser muito estranha, a velocidade com que tudo está acontecendo. Ciclos econômicos costumam levar certo tempo para absorver todos os processos de retração da economia, e o que em outras crises durou anos agora está sendo superado em semanas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Nasdaq Composite (índice de ações listadas na Bolsa de Valores da Nasdaq) já voltou a quebrar novos recordes e superou “patamares pré Covid-19”.

Então, o que motivou tanto otimismo do mercado?

Antes de mais nada, o primeiro ponto a ser questionado – e aí não há como haver uma resposta definitiva – é se tal otimismo pode ser, de fato, justificável ou deve ser considerado como exacerbado. Para isso, é importante entender como ocorreu essa recuperação das bolsas ao redor do mundo e como os próprios governos e bancos centrais atuaram para garantir o funcionamento do sistema financeiro. Basicamente, o governo precisava injetar liquidez – e, com isso, volume – nas negociações e, para isso, usaram algumas ferramentas disponíveis no mercado de negociações em bolsa; criaram suas proteções, caso a operação não desse certo, para adquirir ativos de classe especulativa (considerados como não investimento).

Com isso, compraram dividas de grandes empresas e possibilitaram sua rápida recuperação. Parece que o livre mercado também não se sustenta sem o Estado, não é mesmo? Fica o questionamento para intrigar seus pensamentos, leitor.

Por outro lado, alguns relatórios de resultado – principalmente os do setor varejista – justificam parte do otimismo pelo mercado. Contudo, vale ressaltar, mercados em alta são (sempre) aguardados por correções no caminho. Apesar de ninguém saber ao certo quando ocorrerá, vale a pena estar atento aos próximos movimentos de baixa; não serão comparáveis a grandes correções em tempos de crise, mas podem possibilitar bons momentos para a montagem de suas posições.

Finalizo esta coluna com uma dica: fique sempre atento aos mercados de alta, pois as correções fazem parte dos movimentos.

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