Secretário de Saúde fala como Friburgo está enfrentando a pandemia

Em entrevista exclusiva, Marcelo Braune comenta sobre a previsão de mortes por Covid-19 em Friburgo e fala também sobre o Hospital de Campanha e isolamento social
sábado, 25 de abril de 2020
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
No momento dessa entrevista o número de casos confirmados em Nova Friburgo é de 36 pessoas, sendo 13 da área de saúde e duas mortes por coronavírus, segundo o último boletim divulgado pela prefeitura. Na noite da última quarta-feira, 22, a prefeitura publicou no Diário Oficial Eletrônico um decreto que torna obrigatório o uso de máscaras de proteção para funcionários da indústria, comércio que estejam liberados para funcionar, além de ser obrigatório o uso no transporte público, transporte por aplicativo e no interior dos estabelecimentos. As medidas entram em vigor nesta segunda-feira, 27. Ainda não há a obrigatoriedade para que a população circule pelas ruas com máscara, mas de acordo com o vice-prefeito e secretário de saúde, Marcelo Braune, em breve, a medida deverá ser implementada.

“Se tivermos uma flexibilização sem que haja um preparo dessa estrutura corre o risco de acontecer o que hoje acontece no Rio, em que pacientes estão sendo transferidos para Volta Redonda por falta de leitos.”

Marcelo Braune

Esta semana, membros da prefeitura participaram de uma reunião do Conselho de Secretarias Municipais da Saúde do Rio de Janeiro (Cosems-RJ). Após a reunião com membros da Opas, dentre os assuntos discutidos, foi colocado em gráficos um prognóstico do avanço da doença nas regiões do Estado. 

Segundo Marcelo Braune, o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, informou que há uma estimativa de quase duas mil mortes por Covid-19 na Região Serrana, sendo cerca de 400 somente em Nova Friburgo. Esta estimativa é quase o número oficial de mortos registrado na tragédia climática de 2011, que contabilizou 442 vítimas fatais – dados por muitos questionados.

Em isolamento social desde o dia 20 de março e prestes a completar 68 anos, Marcelo Braune concedeu entrevista exclusiva para A VOZ DA SERRA. Durante a entrevista, Braune esclareceu dúvidas a respeito da aquisição de máscaras de proteção, deu informações sobre o Hospital de Campanha que está sendo montado no Prado, reforçou a recomendação do isolamento social, confirmou a chegada de novos testes e contratação de novos profissionais de saúde, falou também sobre o prognóstico de mortes e sobre o número de profissionais da saúde infectados com a doença. Confira.

A VOZ DA SERRA: De acordo com os boletins divulgados pela prefeitura, o número de profissionais de saúde infectados tem crescido. Por que esses profissionais são os mais atingidos?

Marcelo Braune: O motivo de tantos profissionais da saúde positivarem para a doença é porque estão na linha de frente de combate ao vírus e são mais suscetíveis a contrair a doença. Também é importante ressaltar que a falta de testes suficientes para a população de um modo geral, esse número engana muito. Se proporcionalmente a gente fosse fazer esses testes em toda população, teríamos um número muito maior. Por falta de insumos esses testes não são feitos dessa forma. A maioria dos testes apresentados não são muito confiáveis e são suscetíveis a um falso negativo ou falso positivo, ao invés de ajudar pode até atrapalhar. Estamos para receber – e espero que seja até o final dessa semana – 700 testes e assim ampliar essa cobertura para a população.

O senhor falou que há uma previsão de 400 mortes em Nova Friburgo por coronavírus. De onde vem esse prognóstico?

Tivemos uma reunião com membros das secretarias de saúde de todo o estado, com o secretário de saúde do Rio de Janeiro. E nos foi informado que há uma estimativa otimista de que na Região Serrana, isso inclui Petrópolis, de que tenhamos cerca de duas mil mortes e que em Nova Friburgo esse número seja 0,2% em relação a população da cidade, ou seja, cerca de 400 óbitos. E esse prognóstico, que eles consideram otimista, é seguindo toda a recomendação de isolamento social, sem flexibilização do comércio, usando máscaras e outros equipamentos de proteção.

Então é a Secretaria de Saúde do Estado, que afirma que esse prognóstico de 400 mortos por Covid-19, em Nova Friburgo é otimista, desde que sejam seguidos os protocolos de proteção e isolamento social...

Exatamente. É um prognóstico otimista. Eu sou grupo de risco por estar acima de 60 anos e estou em isolamento social desde março. É importante que eu me preserve por ser não só o secretário de saúde, mas também vice-prefeito, porque eu preciso ter saúde para cuidar da equipe toda, que é excelente e tem se saído muito bem. É o que eu tenho procurado orientar, as pessoas acima de 60 anos tem que fazer esse isolamento. E agora, por conta do decreto que recomenda o uso de máscaras para quem estiver na rua e obrigatoriamente aos funcionários de estabelecimentos cujos serviços são essenciais, vai ajudar bastante a conter o avanço da doença na cidade.

A prefeitura vai doar para quem não puder comprar?

Vai sim. Já foi publicado um edital que faz o pedido de um milhão de máscaras. Acredito até que no final da próxima semana esses equipamentos comecem a chegar na cidade para serem distribuídos à população.

O decreto começa a valer no próximo dia 27, mas as máscaras devem chegar depois. Como conciliar a segurança do friburguense com o decreto?

Esse decreto não torna obrigatório o uso da máscara, é uma recomendação. A gente pede que comerciantes e prestadores de serviço possam disponibilizar esse equipamento para seus funcionários. Já o cidadão comum nós não podemos obrigar porque ele pode não ter os recursos para obter o equipamento. A partir do momento que a prefeitura tiver condições de distribuir as máscaras, a gente vai poder fechar mais o circuito.

Que outros assuntos foram discutidos e que decisões foram tomadas nessa reunião com a Vigilância Sanitária do Estado?

A manutenção do isolamento social, tentar ao máximo não flexibilizar, por ora, para dar tempo dos hospitais de campanha fiquem prontos, os equipamentos cheguem e possam atender àqueles que vão precisar desses atendimentos emergenciais. A preocupação é justamente essa: esticar isso aí (isolamento social). Existe a preocupação por conta da curva de infecção. Não é que isso vá resolver o problemas, mas vai atenuar.

É muito importante essa sua colocação porque há um movimento na cidade de empresários que planejam voltar às atividades normais após o próximo dia 30. Qual a sua posição como secretário de saúde e vice-prefeito?

É preciso ter muito equilíbrio, nesse momento. Na qualidade de secretário de saúde, eu me preocupo muito com a parte da saúde. No final dessa semana e na semana seguinte, temos que ter um cuidado muito grande com esse isolamento que as pessoas atendam a nossa solicitação e que fiquem em casa. Nós precisamos de tempo para que fiquem prontas as estruturas na saúde pública e particular, assim como o Hospital de Campanha. Se tivermos uma flexibilização sem que haja um preparo dessa estrutura corre o risco de acontecer o que hoje acontece no Rio de Janeiro, em que pacientes da região metropolitana do Rio sendo transferido para Volta Redonda por falta de leitos. A gente espera manter o isolamento sem flexibilizar. E quando for a hora de flexibilizar, deverá ser feita com muito cuidado.

A prefeitura, junto ao Governo do Estado, tem uma previsão de quando começa a funcionar o Hospital de Campanha?

Nós recebemos um ofício da Secretaria estadual de Saúde, e a previsão, de acordo com o secretário é a de que até o final de abril o Hospital de Campanha comece a funcionar.

Com a chegada dos 700 testes há a previsão de que o número de infectados cresça?

A tendência é essa. Ainda estamos no início dessa pandemia no país, no Estado e, em especial, em Nova Friburgo. Independente das pessoas que vierem a ser hospitalizadas e vierem a óbito, é natural e normal que o número de casos aumente. O importante, com a chegada desses testes, é que os pacientes que não estejam graves, mas com sintomas mais leves, possam ser avaliados. O município espera que o Governo Federal possa disponibilizar ainda mais testes.

Qual é o número de internados por Covid-19 atualmente na rede pública e na rede privada?

Na rede pública são dois internados e, se não me engano, na rede particular, são oito, até o momento. A maioria são sintomas leves e que estão de quarentena em casa.

Quantos profissionais de saúde a cidade dispõe?

São 1.719 pessoas que trabalham na saúde pública.

O município pensa em contratar profissionais de saúde?

Com certeza. Nós estamos com um processo seletivo em andamento, é provável que daqui a mais uma semana tenhamos mais gente contratada. Com a chegada do Hospital de Campanha teremos ainda mais profissionais de saúde na cidade.

Quantos leitos o município tem especificamente para tratar pacientes com coronavírus?

São 22 leitos, sendo dez de CTI, outros dez leitos de enfermaria e dois exclusivos para pediatria. Na rede particular não temos a informação com os números certos. Vai chegar o momento, mas a gente espera que não chegue que os usuários do plano de saúde vão acabar usando o SUS, como está acontecendo no mundo todo. Essa estrutura que estamos montando é como se fosse um seguro, a gente faz para não precisar usar.

Para finalizar, a recomendação da Secretaria de Saúde de Nova Friburgo é o isolamento social?

A nossa preocupação, por enquanto, é o isolamento social. A gente entende todo o problema econômico, porque além de ser secretário de saúde eu sou vice-prefeito, tenho meu compromisso junto ao gabinete e junto ao prefeito. Temos a vontade de flexibilizar e espero que a gente possa, em médio prazo, flexibilizar com cuidados. Quem sabe em maio a gente possa ter alguma medida nesse sentido, sempre com cautela.

 

Nota da Redação

A VOZ DA SERRA solicitou essa entrevista com o secretário de Saúde, Marcelo Braune, após ele ter declarado ao telejornal RJ-TV, na última quarta-feira, 22, que há uma previsão de 400 óbitos em Nova Friburgo por causa do coronavírus, o que causou preocupação a diversos setores, inclusive médicos.

Entrevistamos o secretário Marcelo Braune sobre essa questão e entre outras   perguntas abordamos essa previsão de mortes no município e ele voltou a confirmar esse número. O jornal, preocupado, com o impacto da possibilidade de uma grande quantidade de mortes em Nova Friburgo, enviou e-mail para a Secretaria de Saúde do Estado do Rio, solicitando mais detalhes. O esclarecimento, que não foi possível acrescentar no vídeo  e nesta entrevista, transcrevemos a seguir:

“A SES informa que adotou, desde o início do planejamento para combater o coronavírus no Estado do Rio, uma política de integração com grupos acadêmicos e especialistas, incluindo representantes da UFRJ, Uerj e Fiocruz. Nessa conduta de portas abertas para a ciência, um grupo foi formado, com composição publicada em Diário Oficial, para buscar soluções conjuntas e pautadas em pesquisas com o único objetivo de construir políticas públicas contra a pandemia. Os especialistas se reúnem de forma frequente com representantes da SES e contam com nomes como José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde; Roberto Medronho; Rivaldo Venancio;  Margareth Dálcomo, entre muitos outros.

A SES reforça que todas as projeções da secretaria são feitas com base em análises técnicas de profissionais da SES em conjuntos com universidades e especialistas e, ainda que, todas as projeções realizadas por outras instituições renomadas são analisadas por profissionais. A SES esclarece que a imagem mostrada exemplifica apenas uma projeção realizada em um estudo da OPAS para um cenário PESSIMISTA, caso nada fosse feito para conter a entrada e avanço do vírus no estado. Portanto, sem nenhuma ação de mitigação e aumento dos números de leitos, como unidades exclusivas para tratamento da Covid-19 e hospitais de campanha.”
  •  A nota esclarece que o número de óbitos citado seria uma prognóstico pessimista, caso não seja tomada alguma ação de prevenção. 

 

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