Pequenas considerações poéticas de uma cronista

Não sou poeta, mas dizem que minha prosa é poética
sexta-feira, 28 de março de 2025
por Elisabeth Souza Cruz
(Foto: Elizabrth Souza Cruz)
(Foto: Elizabrth Souza Cruz)

Não sou poeta, mas dizem que minha prosa é poética. Aprendi desde a infância, com meus pais, a estar entre os poemas e conservo comigo um livro onde fui apresentada a Alceo Wamosy, Vicente de Carvalho, Guimarães Passos, Belmiro Braga, Olavo Bilac, Aluizio de Azevedo, Fagundes Varella, Gonçalves Dias e tantos outros, inseridos no exemplar “Pequena Edição dos Sonetos Brasileiros”, edição de 1929. Essa obra foi  oferecida e dedicada a mamãe, por papai, em 1938, com a seguinte dedicatória: “Para Cyr pensar mais em mim”. Por certo, mamãe, a vida toda, pensou em papai, num namoro conturbado que só deu em casamento na década de 50. E creiam: as pazes de uma briga de mais de cinco anos foram promovidas por um soneto de Guilherme de Almeida, recortado de um jornal, que papai fez chegar até a sua doce Cyr.

Meu pai fazia aniversário no dia  1º de abril e, em todos os presentes que mamãe lhe ofertava,  havia sempre um cartão com os versos de Vicente de Carvalho: “Quando eu nasci raiava o claro mês das garças forasteiras: abril, sorrindo em flor pelos outeiros, nadando em luz na oscilação das ondas...”. Era, então, nesse ambiente de poesia que se desenrolava a minha infância. Era uma casa muito engraçada, diferente, com muitos livros, vitrola, discos variados, violões, pandeiro e até tamborim. A poesia vinha também nas músicas e ecoava pelas paredes, balançava louças na cristaleira e no tabuleiro da vovó, os “Quindins de Iaiá” não eram tão famosos quanto os de Ary Barroso, mas tinham o sabor especial de serem preparados enquanto mamãe lia Machado de Assis, em voz alta, não apenas para vovó, mas para quem se dispusesse a ficar acordado até mais tarde.

Lá em casa, a poesia não dormia. Era aquele “chão de estrelas” que Silvio Caldas espalhava nos ares: “nossas roupas comuns, dependuradas, na corda qual bandeiras agitadas, parecia um estranho festival...”. A “Conceição”, de Cauby Peixoto, me intrigava, pois quem seria aquela que “vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem...”. E que, para sua triste sina,  ouviu alguém dizer que “descendo à cidade, ela iria subir...” . Mas... “se subiu, ninguém sabe ninguém viu...”.

E aquele Ataulfo Alves que enaltecia a sua Amélia, porque passava fome ao seu lado e achava bonito não ter o que comer...” . E eu perguntei a papai: – É bonito não ter o que comer?  E papai não me deixava no vácuo: – É só poesia, minha garotinha curiosa. A poesia é como um instrumento que toca conforme o ritmo.  – Quer dizer que pode mentir?  (perguntei, inquieta). E papai: –  “O  poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente “. Assim, eu conheci Fernando Pessoa, e “quantas pessoas havia numa só Pessoa”.

Nesse meio tempo, eu cresci e com hábitos caseiros de beber poesia em goles exagerados, continuei atenta a tudo o que ouvia. E por meio da música, tudo me era uma incessante busca pelos achados poéticos. Entendi muito bem quando Chico Buarque chamou pra “ver a banda passar cantando coisas de amor”, porque esse é o momento em que a poesia se funde com a satisfação e acontece a chance de se parar para espiar, conforme a “moça feia” que debruçou na janela “pensando que a banda tocava pra ela...”.

E foi impactante quando, num festival da canção, Jair Rodrigues entrou em disparada: “Prepare o seu coração, pras coisas que eu vou contar, eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar...” – E eu pensei; o que será que vem por aí? E veio muita coisa boa no “que será que será, que dá dentro da gente e não devia... que desacata a  gente, que é revelia...”. –  Tudo, naquela voz transcendental de Milton Nascimento.

E eu descobri que a poesia mora no “clube da esquina”, nas “águas de março”, “no chão de giz” e por toda a parte, mesmo que alguém não a sinta. E “pra não dizer que não falei das flores”, lembro Vandré que nos deixou um mantra; “Vem, vamos embora que esperar não é saber... quem sabe faz a hora não espera acontecer...”. A poesia é tudo!

 

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