Existem trajetórias que não cabem em uma linha reta. Elas se espalham como sementes, atravessam palcos, salas de aula, livros, vozes e silêncios até que, de algum ponto do caminho, começam a formar uma paisagem reconhecível. Quando reencontro Tuini agora, depois de trazê-la ao público do Caderno Z para falar do clipe Baião de Ano Novo, tenho a sensação de que não estamos diante de uma artista em apresentação. Estamos diante de uma artista em construção contínua de si mesma.
Tuini é cantora, compositora, atriz, professora, produtora e contadora de histórias. Mas nenhuma dessas palavras parece suficiente quando se observa o conjunto. O que se desenha é uma artista que trabalha com linguagens que se atravessam e se alimentam mutuamente, como se cada criação abrisse caminho para a próxima.
O percurso acadêmico ajuda a compreender parte dessa estrutura. Doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO, mestre na mesma área, formada pela CAL, com estudos em Comunicação Social e Arteterapia, Tuini construiu uma base sólida de pesquisa e reflexão sobre a cena. Mas essa base nunca se fechou em si mesma. Pelo contrário, parece ter se expandido para o mundo como prática viva, aplicada em palcos, escolas, teatros, bibliotecas e projetos sociais.
Há algo importante aqui. Não se trata apenas de formação. Trata-se de atravessamento entre teoria e experiência.
Em cena, esse atravessamento ganha forma na criação de espetáculos que carregam uma assinatura muito própria. “Histórias do Jardim do Mundo”, “A voz do Sabiá”, “Balaio de Histórias”, “Águas que voam” e “Louvado Seja” não são apenas títulos. São territórios narrativos onde música, teatro e oralidade se encontram.
Em muitos deles, a música não aparece como acompanhamento, mas como estrutura central, costurando narrativas e abrindo espaço para uma escuta mais profunda.
Em 2025, esse trabalho ganhou circulação consistente em Nova Friburgo, passando por escolas da rede municipal, teatros e espaços culturais como a Usina Cultural Energisa e o Sesc. O projeto Histórias do Jardim do Mundo chegou a centenas de crianças e a educadores, em ações que ultrapassam a apresentação artística e entram no campo da formação sensível. Há uma dimensão pedagógica que não se separa da poética.

É nesse ponto que a trajetória de Tuini começa a revelar uma das suas marcas mais fortes. A arte como encontro.
A fundação da Cia Contos Encantos, em 2018, parece ter sido um marco de virada. A partir de então, suas composições deixam de ser apenas obras isoladas e passam a sustentar um universo próprio, onde contação de histórias, teatro e música convivem como partes de uma mesma respiração. Esse universo se expande em álbuns autorais, como Encanto, lançado em 2021, que ultrapassou uma marca significativa de escutas digitais e circulou entre público e crítica com boa recepção.
Em seguida, vieram os clipes, os festivais e os reconhecimentos. O trabalho Poesia ultrapassou dezenas de milhares de visualizações. A participação no SONORA, festival internacional dedicado a compositoras, inscreve seu nome em uma rede mais ampla de criação feminina na música brasileira contemporânea. Em 2024 e 2025, a presença em editais culturais e apresentações em teatros consolida um movimento de expansão e maturidade artística.
Mas talvez o aspecto mais revelador não esteja apenas na quantidade de projetos realizados, e sim na coerência entre eles.
Há uma linha invisível que conecta tudo. O jardim, o canto, o voo, a água, a flor, o chão, o encantamento. As imagens recorrentes em seus trabalhos não parecem escolhas aleatórias. Elas formam um vocabulário poético. Um modo de olhar o mundo.
Em paralelo à produção artística, há também um trabalho de escuta e cuidado. Oficinas, ações formativas e práticas de arteterapia atravessam sua atuação. Em projetos com crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade, a arte aparece como ferramenta de expressão e reorganização do sensível. Não se trata apenas de ensinar ou apresentar. Trata-se de criar espaços onde a imaginação possa respirar.
Quando observo esse conjunto, percebo que o tempo de Tuini não é apenas cronológico. É um tempo de sedimentação. Um tempo em que cada experiência parece se acumular sem apagar a anterior.
E agora, em um novo momento de sua trajetória, ela se prepara para o show A Primeira Flor, acompanhada do violonista Lucas Gralato, do Quarteto Maogani. O espetáculo antecipa composições do seu segundo disco autoral, Flor de Mim, e revela uma artista em estado de maturidade criativa, onde ritmo, presença e poesia se encontram com uma clareza rara.
Se no início dessa caminhada o Caderno Z a apresentou em um gesto inaugural, agora o reencontro é outro. É o reencontro com uma artista que não parou no caminho. Que seguiu. Que expandiu. Que transformou cada etapa em parte de um mesmo corpo criativo.
E talvez seja isso o mais bonito de observar.
Não há um ponto de chegada definido. Há um tempo em movimento.
E no tempo de Tuini, a arte não se encerra. Ela continua acontecendo.

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