Os caminhos da agricultura em Nova Friburgo

De que forma o modelo de produção familiar e as práticas conservacionistas do solo contribuem para a força do setor em nossa cidade
sexta-feira, 23 de abril de 2021
por Alan Andrade (alan@avozdaserra.com.br)
A agricultura é um dos maiores eixos econômicos de Nova Friburgo, que faz parte do “Cinturão Verde” do Rio de Janeiro (ao lado de Teresópolis e Sumidouro), e é a maior produtora de morangos do estado e uma das maiores produtoras de couve-flor de todo o país. 

“A tragédia foi uma grande lição para todos nós. A partir de então, os produtores passaram a se preocupar mais em preservar o solo, tratar melhor a água, e a nossa produção voltou muito mais forte.”
Segundo Marcelo Silva, engenheiro agrônomo e secretário de agricultura do município, a principal chave para o desenvolvimento econômico é garantir a boa qualidade nas estradas: “Iremos trabalhar em torno de 200 km críticos para poder liberar não só o escoamento da produção, como também levar o desenvolvimento ao interior”. Desta forma, o secretário enaltece a importância de promover uma integração maior da área rural com o meio urbano, além de traçar uma parceria entre a agricultura e o turismo.

Fernanda Schuenck e Fernando Hottz ergueram, há quatro anos, o espaço Doçuras da Suely na rodovia que liga Friburgo à Teresópolis. A Doçuras da Sueli, que é pioneira na produção da fruta aqui na cidade, é uma das quarenta famílias que compõem a Associação dos Agricultores Familiares Produtores de Morango de Nova Friburgo – Amorango. “Há 20 anos nós resolvemos ir atrás da novidade, que são o manejo novo do morango em substrato e o manejo alto, sem uso de agrotóxico.

Além da comercialização de morangos in natura e de doces, os sócios oferecem ao turista a oportunidade de colher a fruta ainda no pé. Hoje, contudo, o espaço enfrenta os obstáculos impostos pela pandemia. “Nós tivemos que nos reinventar de várias formas, porque diminuiu muito toda a parte de visitação e venda no local. Com isso, estamos tentando passar por essa fase, crítica para todos nós, através do delivery”, conta Fernanda. Esta é uma forma que encontraram para levar até Niterói e a capital não apenas seus produtos, como também de outros produtores da região.

A agricultura familiar, uma forma de organização socioeconômica, cultural e ambiental, é um modelo com participação significativa na produção dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Adelson Raposo, presidente da Associação de Serra Velha, é outro produtor familiar, trabalhando desde criança no Sítio Nossa Senhora Aparecida, na Fazenda Rio Grande. “Prezamos muito pela natureza, herdei isso de meus avós e de meu pai. Quero continuar por aqui ajudando a alimentar quem necessita”, afirma ele. 

Segundo o secretário Marcelo Silva, entre 300 e 400 produtores atuam na produção da couve-flor – entre eles, Adelson e sua família. “A gente já planta couve-flor há mais de 50 anos, e sempre couve-flor boa. Mas a gente toma os devidos cuidados, cuida do solo, cuida da terra, pois é dali que sai o nosso alimento”, afirma Adelson.

Essa preocupação com o solo é resultado de um processo de conscientização que se intensificou após a tragédia climática de 2011, que atingiu fortemente o setor da agricultura, praticamente dizimado em uma única noite. “A tragédia foi uma grande lição para todos nós. A partir de então, os produtores passaram a se preocupar mais em preservar o solo, tratar melhor a água, e a nossa produção voltou muito mais forte”, conta Marcelo. 

Margarete Tiba Ferreira, que produz hortaliças orientais ao lado de seu marido, Lindon Johnson, no Sítio Hikari, relembra como a tragédia foi um divisor de águas em suas vidas. “Acabei saindo da minha zona de conforto em busca de conhecimento e trabalho. Entrei para o mestrado em Agricultura Orgânica no PPGAO, da UFRRJ. E, em seguida, acabei implantando um programa do Banco de Alimentos aqui no Ceasa. Também resgatamos a Associação do Rio Grande para tentar dar um suporte para as pessoas da região”, conta.

À época, Adriana Aquino e Renato Linhares, casal de pesquisadores do Núcleo de Pesquisa e Treinamento para Agricultores (NPTA) da Embrapa Agrobiologia, realizaram na região um importante trabalho de orientação quanto à adoção correta de práticas de manejo do solo para recuperá-lo e reduzir os impactos da atividade agrícola no meio ambiente e, consequentemente, tornar a agricultura mais sustentável. “Eles nos mostraram várias maneiras de fazer a recuperação [do solo] através da adubação verde e de várias outras metodologias para entendermos como socorrer uma terra doente”, relata Margarete.

De acordo com Adelson, através das práticas de manejo do solo, hoje os produtores da Fazenda Rio Grande chegam a produzir cerca de 10 milhões de pés de couve-flor por ano, tudo pelas mãos da agricultura familiar. “Fazemos rotação de culturas, cuidando do solo, da terra, pois é dali que sai o nosso alimento e a alimentação da grande cidade”, conta Adelson. 

 

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  • Marcelo Silva, secretário de Agricultura (Foto: Alan Andradre)

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  • Fernanda Schuenck, produtora de morangos

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  • Adelson Raposo, produtor rural

    Adelson Raposo, produtor rural

  • Margarete Tiba Ferreira, produtora rural

    Margarete Tiba Ferreira, produtora rural

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