Metanol em bebidas alcoólicas: Intoxicações e mortes preocupam autoridades

Casos revelam rede criminosa por trás da adulteração e reforçam necessidade de cuidados com a procedência de bebidas alcoólicas
quarta-feira, 01 de outubro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
Foto: Freepik
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Ao menos nove casos de intoxicação por metanol foram registrados no Estado de São Paulo no último mês, todos relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Três mortes já ocorreram, duas no município de São Bernardo do Campo e uma na capital paulista, e estão sob investigação. O cenário, considerado “fora do padrão” por autoridades federais, preocupa especialistas em saúde e reforça o alerta para o risco do consumo de produtos de origem duvidosa.

Segundo o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) de São Paulo, até a noite da última segunda-feira, 29, seis intoxicações haviam sido confirmadas e dez casos estavam sob análise. Entre eles estão quatro jovens, dois homens e duas mulheres,que passaram mal após ingerir gin comprado em uma adega na Cidade Dutra, na Zona Sul da cidade de São Paulo, no dia 1º de setembro.

Outras histórias recentes chamaram atenção. Rafael dos Anjos Martins Silva permanece internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) há quase um mês. Já Rhadarani Domingos relatou em entrevista ao Fantástico ter perdido a visão após beber três caipirinhas de vodca em um bar no Jardim Paulista, região nobre de São Paulo.

O que é o metanol

O metanol (CH₃OH) é um tipo de álcool simples, incolor, inflamável e de difícil identificação a olho nu, já que seu cheiro se assemelha ao de bebidas alcoólicas comuns. Na indústria, tem usos legítimos: serve de matéria-prima para a produção de formaldeído (formol), ácido acético, solventes, tintas, plásticos e também para o biodiesel.

No entanto, o metanol é altamente tóxico para seres humanos. Mesmo pequenas doses podem provocar sintomas graves. A ingestão leva à formação de formaldeído e ácido fórmico no organismo, substâncias responsáveis por causar danos severos, como cegueira, convulsões, depressão do sistema nervoso central, coma e morte.

De acordo com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), o padrão atual de intoxicações difere de anos anteriores. Até recentemente, os casos estavam mais associados à ingestão de combustíveis por pessoas em situação de rua. Agora, as ocorrências envolvem contextos sociais, como bares, adegas e festas, e atingem consumidores de bebidas como gin, uísque e vodca.

Origem criminosa

A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) aponta uma possível ligação entre a atual onda de intoxicações e esquemas de adulteração de combustíveis investigados pela polícia. O metanol apreendido em operações recentes teria sido desviado do comércio ilegal.

Em agosto, uma megaoperação revelou que postos de combustíveis utilizavam gasolina e etanol com até 90% de metanol, quando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) só permite concentração máxima de 0,5%. Segundo a ABCF, o fechamento de distribuidoras ligadas ao crime organizado pode ter levado parte desse estoque ilegal a ser usado na adulteração de bebidas destiladas.

“Estamos diante de um problema que combina saúde pública e crime organizado. O mesmo metanol que entrava clandestinamente para adulterar combustíveis agora parece estar sendo redirecionado para bebidas alcoólicas”, afirma nota da associação.

Como ocorre a intoxicação

Os sintomas podem aparecer poucas horas após a ingestão: dor de cabeça intensa, náusea, tontura, sonolência e falta de coordenação. Em casos mais graves, há convulsões, perda de visão, dificuldade respiratória e coma.

O tratamento deve ser imediato e feito em ambiente hospitalar. Os médicos podem utilizar medicamentos específicos e até diálise para eliminar o metanol do organismo. Em algumas situações, administra-se etanol, o álcool comum, para competir com o metabolismo do metanol no fígado, mas o procedimento só pode ser realizado sob supervisão médica.

Recomendações das autoridades

O CVS orienta que bares, restaurantes e comerciantes reforcem o controle sobre a procedência de bebidas vendidas. Para os consumidores, a recomendação é clara: adquirir apenas produtos com rótulo original, lacre de segurança intacto e selo fiscal. Garrafas falsificadas ou sem identificação devem ser evitadas.

“É fundamental que a população compre bebidas somente de estabelecimentos confiáveis. Produtos de origem duvidosa podem custar a vida”, afirmou em nota o órgão estadual.

As orientações incluem ainda atenção redobrada em bares e casas noturnas, principalmente quando há consumo de drinques prontos, que dificultam a identificação da procedência do álcool utilizado.

Como se proteger

Para reduzir o risco de intoxicação por metanol, especialistas recomendam:

·         Comprar bebidas alcoólicas apenas em lojas e bares licenciados;

·         Checar se o lacre da garrafa está intacto;

·         Observar a qualidade de impressão do rótulo e se há erros de ortografia;

·         Evitar bebidas caseiras ou de procedência desconhecida;

·         Procurar atendimento médico imediato diante de sintomas após o consumo.

Impacto social

As ocorrências recentes expõem uma combinação perigosa: a facilidade de acesso a substâncias químicas no mercado paralelo e a vulnerabilidade dos consumidores diante de bebidas adulteradas. Para autoridades e especialistas, a crise é também um alerta sobre a necessidade de ampliar a fiscalização e o combate ao comércio clandestino.

Enquanto as investigações policiais avançam para identificar os responsáveis, famílias de vítimas lidam com sequelas graves ou perdas irreparáveis. “Basta um gole para mudar uma vida inteira. Por isso, a prevenção e a informação são hoje as principais armas contra o risco do metanol”, conclui nota do CVS.

 (Fonte: BBC News, Agência Brasil, G1 e Metrópoles)

 

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