A “COP da ação” trouxe para o centro das discussões uma pauta inédita: a desinformação climática. O lançamento da “Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas", assinada pelo Brasil e por 12 países da União Europeia em sua estreia, continuará a receber assinaturas até o fim da COP30. A declaração pioneira estabelece compromissos internacionais compartilhados para combater a desinformação climática e promover informações precisas e baseadas em evidências sobre questões climáticas. A crescente onda de desinformação tem o potencial de descredibilizar o consenso científico sobre o clima. Especialmente quando ela acontece de forma coordenada em nível internacional.
De fato, essa articulação ficou evidente às vésperas do início oficial do evento, quando o presidente Trump foi à sua própria rede social espalhar a desinformação sobre a derrubada de 100 mil árvores para a construção de uma estrada com quatro pistas para os ambientalistas chegarem até a Conferência. O post foi prontamente reproduzido em todas as redes sociais. Entretanto, a informação de que a via era, na verdade, uma avenida de 13 quilômetros para desafogar o trânsito da capital e que foi aprovada pelo governo estadual em 2012 - ou seja, sem relação com as obras da COP - provavelmente não atingiu a mesma proporção de pessoas.
Corroborando esse cenário, o Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab da UFRJ) lançou um estudo que indicou o aumento da desinformação climática nas redes sociais, especialmente nas 48 horas que antecederam a COP30. Além disso, durante a primeira semana da Conferência, a hashtag “FLOP30” ficou nos trending topics do “X” (antigo Twitter), o que sugere uma ação coordenada. Redes sociais de vídeo foram inundadas com IA distorcendo informações e circulando notícias falsas. E, claro, muitos discursos críticos que iam do preço da coxinha (preço padrão de aeroporto), a invasão por indígenas da área de negociação formal, a Blue Zone - que também foi o local que pegou fogo na última quinta-feira, 20.
Diante de tantas críticas, influenciadores com questionável abordagem “jornalística” e heterodoxa, tiveram suas credenciais revogadas pela UNFCCC. Tal comportamento, porém, é desnecessário visto que há tantas críticas válidas a serem feitas sobre as contradições e hipocrisias das COPs, dentre elas o patrocínio de empresas de diferentes ramos com notórios passivos socioambientais, ao mesmo tempo em que se utilizam da oportunidade para lavar sua imagem e fazer o tal do “greenwashing”.
No que tange às críticas sobre o deslocamento aéreo de tantas pessoas e uso de geradores a biodiesel para energizar pode até parecer válida. Contudo, pela lógica da própria Conferência, tais emissões são neutralizadas através da compra de créditos de carbono - muitos vindos de projetos de reflorestamento na própria Amazônia (e a credibilidade de tais créditos, em alguns projetos, também pode ser questionada). Portanto, não faltam temas legítimos para críticas.
Em face da impossibilidade de ignorar o aumento dos eventos climáticos extremos, aos negacionistas resta desinformar sobre a origem do problema, as consequências e as soluções propostas. Esse panorama reforça a importância do lançamento da declaração e a esperança de que ela seja adotada por mais países e ganhe maior relevância em eventos futuros. É imperativo que a integridade da informação climática seja defendida como o primeiro passo crucial para a ação global efetiva.
(*) Isabela Braga é bióloga e cientista climática. Escreve aos sábados

Deixe o seu comentário