Fantasmas, monstros, bruxas e zumbis estão de volta. Chegou o 31 de outubro e, com ele, o Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas, que invade as ruas, festas e telas com seu universo sombrio e divertido. Máscaras assustadoras, filmes de terror e decorações temáticas costumam dominar o cenário, numa celebração que desperta tanto o riso quanto o arrepio. Mas afinal, por que o medo exerce tamanha fascinação sobre as pessoas?
A origem de uma noite de mistérios
O Halloween tem raízes muito mais antigas do que parece. Sua origem remonta ao Samhain, um festival celta que marcava o fim das colheitas e o início do inverno. Os antigos celtas acreditavam que, nessa época do ano, a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos se tornava mais tênue, permitindo que espíritos transitassem entre os dois planos. Para se proteger, acendiam fogueiras e usavam máscaras, tentando afastar presenças indesejadas.
Com a chegada do cristianismo, muitos desses costumes foram incorporados ao Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro. Assim, o “All Hallows’ Eve”, véspera do Dia de Todos os Santos, acabou evoluindo para o que hoje conhecemos como Halloween.
Nos Estados Unidos, a data se transformou em um fenômeno cultural, com festas, fantasias e a tradicional brincadeira de “doces ou travessuras”. No Brasil, a celebração vem ganhando força nos últimos anos, especialmente entre jovens, escolas e espaços culturais, que adotam o tema em eventos e produções artísticas.
O medo como sistema de alerta
Para entender o fascínio pelo medo, é preciso compreender o papel das emoções. Elas funcionam como um sistema de alarme do corpo, sinalizando quando algo é bom, perigoso ou digno de atenção. Emoções positivas, como alegria e amor, nos aproximam do que nos faz bem. Já o medo, por outro lado, é uma reação de defesa: avisa sobre ameaças e prepara o corpo para reagir.
O paradoxo, porém, é que o medo também pode gerar prazer. Quando sentimos medo em situações controladas, como ao assistir a um filme de terror ou entrar em uma casa assombrada,nosso cérebro entende que não há perigo real. Ainda assim, libera adrenalina e endorfina, substâncias que provocam euforia, excitação e até sensação de bem-estar.
Medo e prazer: um encontro com a sombra
Segundo a psicóloga junguiana Andrezza Regly Carvalheiro, o fascínio pelo terror tem raízes profundas na psiquê humana. “Na perspectiva da psicologia junguiana, o interesse por filmes de terror pode ser entendido como uma forma de contato com a sombra, os aspectos reprimidos, desconhecidos ou temidos da nossa mente”, explica.
Para ela, ao assistir a um filme de terror, o indivíduo vivencia o medo em um ambiente seguro, o que permite uma catarse simbólica. “O terror oferece uma oportunidade de olhar para o que há de mais escondido em nós. Ao confrontar o monstruoso, o estranho ou o sombrio, o espectador toca em camadas profundas do inconsciente, capazes de gerar reflexão e, muitas vezes, transformação”, observa.

A psicóloga ressalta ainda que o terror não apenas provoca, mas revela. “Ele espelha o que não foi dito, o que não foi vivido, o que não foi aceito, e, ao fazê-lo, convida à integração. É um ritual moderno de enfrentamento simbólico, onde o espectador, ao se permitir sentir medo, também se aproxima de si mesmo”, explica.
O corpo em estado de alerta
Do ponto de vista biológico, o medo ativa regiões cerebrais como a amígdala e o hipotálamo, responsáveis por respostas instintivas de sobrevivência. Nessa reação, o corpo libera adrenalina, aumentando os batimentos cardíacos, acelerando a respiração e melhorando a atenção. Em paralelo, a liberação de endorfina, neurotransmissor ligado ao prazer, faz com que o indivíduo sinta satisfação após o susto.
Em resumo, o medo controlado oferece uma espécie de “montanha-russa emocional”: o corpo experimenta a excitação da ameaça, mas sem o risco real. Essa mistura de pavor e prazer explica por que tantas pessoas se sentem atraídas por experiências assustadoras, sejam elas filmes, séries, jogos ou festas temáticas.
Treinamento para o perigo real
Estudos recentes mostram que o consumo de entretenimento ligado ao medo pode, inclusive, trazer benefícios psicológicos. Uma pesquisa conduzida pelo Laboratório de Medo Recreativo da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, revelou que pessoas que assistiam regularmente a filmes de terror eram mais resilientes emocionalmente durante a pandemia da Covid-19.
De acordo com os pesquisadores, o cérebro de quem consome esse tipo de conteúdo é “treinado” para lidar com situações de estresse e perigo de forma mais racional. “É como se, ao assistir a um filme de terror, a pessoa praticasse como reagir ao medo, mas num ambiente seguro”, explica o estudo.
O olhar de quem ama o terror
Entre os fãs do gênero, há quem encontre no medo uma forma de diversão e curiosidade. O jovem Weslley Tostes, de 21 anos, conta que o suspense é o que mais o atrai. “Gosto de filmes como Pânico, porque sempre existe um mistério: o assassino é alguém conhecido dos protagonistas, e o filme nos convida a descobrir quem é. A gente se sente parte da investigação”, comenta.

Mas ele confessa que o terror sobrenatural o deixa mais tenso. “Esses eu prefiro assistir de dia, porque processo melhor e esqueço dos jump scares (aqueles sustos repentinos). A franquia Invocação do Mal é mestre em fazer isso”, conta.
Apaixonado por cinema, Weslley acredita que o gênero ainda é subestimado nas grandes premiações. “O terror é riquíssimo e tem muitos subgêneros. Chucky, por exemplo, é minha franquia favorita. Amo o exagero, as mortes, o sangue — não me interpretem mal —, mas é interessante ver como o personagem tem camadas e até uma parcela de bondade. É uma família distópica, cheia de humor ácido e crítica. O terror merece mais reconhecimento”, avalia o jovem.
Com bom humor, ele deixa um conselho: “Assistam aos filmes de terror! E, se forem espirituais, melhor de dia!”. A cada grito nos cinemas ou susto em festas temáticas, o ser humano repete um ritual ancestral: o de enfrentar o desconhecido. E talvez seja justamente esse o maior encanto do Halloween, a oportunidade de brincar com o medo, rindo dele e, ao mesmo tempo, aprendendo com ele.”

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