Há 220 anos nasceu a colona suíça, pioneira do turismo friburguense, Marianne Salusse

No mês dedicado às mulheres, ela deveria ser muito mais lembrada
segunda-feira, 09 de março de 2026
por Girlan Guilland (*)
Há 220 anos nasceu a colona suíça, pioneira do turismo friburguense, Marianne Salusse

(...) “O povo que não cultiva sua própria história se torna incapaz de ser o sujeito construtivo de seu futuro”. Mais uma vez tomo por empréstimo a frase do professor e historiador João Raimundo de Araújo (‘Teia Serrana’, 1ª edição, 2003), que muito apropriadamente exprime uma verdade inegável: não se pode construir o futuro, sem as bases sólidas do passado. No entanto, paradoxalmente, apesar de ser uma das cidades de historiografia mais rica do Brasil, Nova Friburgo continua insistindo em não compreender a importância de se apropriar desse rico patrimônio, em mais de dois séculos de sua existência.

Enquanto há uma vertente histórica, segundo a qual a colonização suíça não deu certo (baseando-se na debandada dos colonos em busca de oportunidades que acabaram por criar outras cidades na região), um corte nos apresenta essa fantástica personagem que constitui apenas um dos inúmeros enredos da imigração de 1819: Marianne Joset (Ioset) Salusse “coroou sua existência com o triunfo de seu trabalho”. Se tornou a única representante dos colonos que acumulou muitos bens, em extensão pouco inferior ao do próprio Barão de Nova Friburgo e, ainda, diferentemente dos demais suíços, não precisou sair da vila para prosperar. Muito pelo contrário, dedicou-se a uma atividade urbana, com a qual construiu seu verdadeiro império.

Vinda da Suíça, aos 13 anos, na viagem da imigração de 1819, a bordo do veleiro Deux Catherine, juntamente com seus pais (Joseph Joset e Marie Françoise Bandelier) e dois irmãos menores, chegou ao Brasil apenas com o pai, tendo ficado órfã da mãe, que faleceu a bordo, bem como os irmãos. Seu pai, Joset, faleceu em Nova Friburgo em 14 de março de 1829. No dia 1°de junho de 1830, ela se casou com Guillaume Marius Salusse, ex-soldado bonapartista, que veio para Nova Friburgo por recomendações médicas.

Hotel Salusse

O casal estruturou uma família com notório e crescente prestígio social. Tiveram oito filhos, todos friburguenses. Dedicaram-se à atividade de hospedaria acolhendo exatamente enfermos em busca, a exemplo de Guillaume, dos ares benfazejos da ‘Cidade Salubre’. Prosperaram na atividade e ergueram o Hotel Salusse (onde atualmente é o Edifício Spinelli), que se tornou um dos mais importantes estabelecimentos do ramo, na segunda metade do século XIX, frequentado e decantado, entre outros, pelo jurista Ruy Barbosa. 

Marianne passou a ser chamada de Grand-Mamam, a partir de 1870, designação que ficou para a posteridade, marcando o seu caráter de matriarca, comandando transações comerciais, atividades impensadas na era vitoriana, quando às mulheres cabia papel restrito às funções domésticas.

“La Marianne est une saga”. A frase em francês do historiador suíço Martin Nicoulin exemplifica, num resumo preciso, a relevância dessa personagem, cujo desempenho lhe proporcionou notória posição social. 

Resgate da memória 

Autoridades friburguenses chegaram a cogitar erigir um monumento em sua homenagem, segundo divulgou ‘A Noite Ilustrada’, em sua edição de 29 de outubro de 1940. Nesta segunda-feira, 9,  coincidentemente ainda na semana dedicada ao Dia Internacional da Mulher - registrou-se o 220° aniversário de seu nascimento (1806), em Courfaivre, no cantão do Jura. 

Mas Marianne está esquecida, invisibilizada, apesar de sua enorme dimensão. Infelizmente, não é a primeira e não será a única de nossos heróis, heroínas e personalidades apagadas. Enquanto povo e cidadãos, estamos diante do imenso desafio de resgatar, preservar e disseminar esses verdadeiros tesouros, que precisam nos servir de referência. Marianne faleceu em 15 de abril de 1900, aos 94 anos.

Interessante ainda registrar que em sua prole se destacaram outros atores importantes na cena brasileira e até internacional: o renomado pintor Pedro Eduardo Salusse (1829-1914), que também desempenhou relevante atuação pública em Friburgo, nos setores comercial e político; Julius Marius Salusse (1835-1877), também artista plástico, foi presidente da Sociedade Musical Euterpe Friburguense (1865-1870), era pai do afamado poeta Júlio Mário Salusse (1872-1948).

Também era bisneta de Marianne, a soprano Bidu Sayão (Balduína de Oliveira Sayão - 1902-1999), considerada uma das mais célebres intérpretes da música lírica no século passado, chamada pela crítica internacional de “rouxinol brasileira”. A história de Marianne por si constitui argumento e enredo suficiente para o melhor dos longa-metragens.”

Fonte: “O Hotel Salusse em Nova Friburgo” (1997, Sérgio Ioset Salusse Bittencourt Sampaio) e “Histórias de Famílias: casamentos, alianças e fortunas” (2008, Marieta de Moraes Ferreira)

(*) Girlan Guilland é Jornalista

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