Entre África e Brasil: rei nigeriano promove conexão cultural em Friburgo

Convite para a visita partiu de organizações, como o Centro Cultural Ysun-Okê, Império das Negras e o Coletivo Negro Lélia Gonzalez
quinta-feira, 26 de março de 2026
por Laís Lima*
Rei nigeriano Oba Hameed Adejoro Ajijola (Foto: Henrique Pinheiro)
Rei nigeriano Oba Hameed Adejoro Ajijola (Foto: Henrique Pinheiro)

Nova Friburgo recebeu, na quarta-feira, 25, a visita de “Sua Alteza Real”, o rei nigeriano Oba Hameed Adejoro Ajijola, monarca tradicional do Reino de Araromi-Elerangbe, localizado em Ibeju-Lekki. A passagem pela cidade serrana integra uma agenda internacional voltada ao fortalecimento dos laços entre a cultura africana e as tradições afro-brasileiras, além de promover o intercâmbio cultural e institucional entre os dois países.

Durante a estadia, o monarca participou de uma série de compromissos que envolveram encontros com lideranças religiosas, reuniões com representantes políticos e visitas a espaços históricos e culturais do município. Entre os locais visitados estão a Praça dos Povos Formadores, novo nome da antiga Praça das Colônias, no Suspiro, e o Sanatório Naval.

A presença do rei mobilizou representantes de movimentos sociais, coletivos culturais e autoridades locais, consolidando o caráter simbólico e político da visita, que dialoga diretamente com pautas como identidade, memória e igualdade racial.

Recepção marcada por celebração e representatividade

A recepção oficial ao monarca aconteceu na Praça dos Povos Formadores, reunindo representantes de países homenageados no espaço, além de lideranças do movimento negro e integrantes da sociedade civil. O evento contou com apresentações culturais, visita às salas temáticas e momentos de interação entre o rei e o público presente.

A cantora Bruna Bento participou da cerimônia, trazendo um repertório que valorizou a cultura afro-brasileira e reforçou o tom de celebração da ancestralidade. O ambiente foi marcado por discursos que destacaram a importância da preservação cultural e do reconhecimento das raízes africanas na formação da sociedade brasileira.

Relação histórica entre Brasil e Nigéria

Em entrevista exclusiva para A VOZ DA SERRA, com o auxílio da tradutora Amanda do Espírito Santo Flores, o rei destacou a relevância da conexão entre os dois países.

“É muito bom estar aqui. Eu aprecio a recepção e as boas-vindas. É um prazer estar fazendo essa conexão entre a Nigéria e o Brasil. Essa é a razão da minha visita, e estou feliz por estar aqui”, afirmou.

O monarca ressaltou ainda a profundidade histórica dessa relação, marcada pela diáspora africana. Segundo ele, o Brasil representa uma espécie de segunda casa para muitos africanos.

“O Brasil é como uma segunda casa da Nigéria. Muitas pessoas foram trazidas para cá e não conseguiram retornar, mas construíram suas vidas aqui. Existe uma ligação forte entre nossos povos, que vai além do tempo”, declarou.

Unidade e igualdade como pilares

Ao longo de sua fala, o rei enfatiza valores como paz, união e igualdade, apontando-os como fundamentais para o desenvolvimento social.

“Eu aprecio a paz e a unidade. Quando as pessoas estão unidas, conseguem construir muitas coisas juntas. A igualdade é algo que todos buscam, e precisamos continuar trabalhando por isso”, destacou.

Ele também relembrou sua passagem anterior pelo Rio de Janeiro, onde participou de debates sobre discriminação racial, reforçando que o combate ao racismo é um desafio global e compartilhado.

Intercâmbio e fortalecimento institucional.

A visita contou com o acompanhamento de Luiz Eduardo Oliveira, presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro e Promoção da Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro. Segundo ele, a presença do monarca integra uma missão de intercâmbio entre Brasil e África, tendo a Nigéria como eixo principal.

“Estamos em uma missão de intercâmbio Brasil-África, trazendo esse importante representante de Lagos para uma série de atividades culturais e institucionais. Ele também participou recentemente de debates importantes sobre racismo no estado”, explicou.

O convite para a visita em Nova Friburgo. partiu de organizações locais, como o Centro Cultural Ysun-Okê, o Império das Negras e o Coletivo Negro Lélia Gonzalez.

Resgate da ancestralidade e identidade

Para Eliane Santos, do Centro Cultural Ysun-Okê, a presença de lideranças africanas na cidade tem impacto direto no fortalecimento da identidade da população negra. “Trazer representantes do continente africano para Nova Friburgo é fundamental, principalmente por conta da nossa história. Muitas vezes não sabemos oficialmente nossas origens, e esse contato desperta o sentimento de pertencimento”, afirmou.

Ela também destacou o simbolismo da visita: “Receber um rei no nosso espaço, depois de tantas lutas, é algo muito significativo. Isso mostra que nosso trabalho está sendo reconhecido e que o resgate da nossa história está acontecendo de forma concreta”, completou.

Data reforça importância da luta antirracista

A visita ocorre em um período simbólico. No último dia 21 foi celebrado o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, instituído pela Organização das Nações Unidas em memória ao Massacre de Sharpeville.

A data reforça a necessidade de combater o racismo estrutural, promover a igualdade racial e garantir justiça social, temas que estiveram presentes ao longo de toda a programação da visita.

Com forte simbolismo, a passagem do rei por Nova Friburgo reafirma a conexão histórica entre Brasil e África e fortalece o diálogo cultural, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa, plural e consciente de suas raízes.

(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim

 

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