Empreendedorismo feminino: Não é sobre competição. É sobre estrutura

A trajetória do ecossistema friburguense “Mulheres de Sucesso”
sexta-feira, 06 de março de 2026
por Jornal A Voz da Serra
Foto: Freepik
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Durante muito tempo, falar de empreendedorismo feminino em Nova Friburgo significava olhar para histórias isoladas de força e superação. Especialmente neste mês dedicado às mulheres, vale ressaltar a força do empreender, nos negócios, na vida. São mulheres que sustentavam negócios inteiros, geram renda para suas famílias e movimentavam a economia local. Mas, muitas vezes, ainda precisavam da presença masculina para fechar contratos, negociar crédito ou validar decisões. 

“Há um tempo não se falava de empreendedorismo feminino em Nova Friburgo. Havia mulheres extraordinárias, sustentando negócios inteiros”

Por Isabella Stutz (*)

Para a mentora e idealizadora do ecossistema Mulheres de Sucesso, Fernanda Oliveira, o desafio nunca esteve na capacidade das mulheres empreenderem, mas na falta de estrutura para que esses negócios prosperem. “Há um tempo não se falava de empreendedorismo feminino em Nova Friburgo. O que eu via eram mulheres extraordinárias, sustentando negócios inteiros, mas ainda precisando dos homens, como se precisássemos pedir autorização simbólica para crescer. Elas já empreendiam. Mas não estavam estruturadas para prosperar”, afirma. 

O empreendedorismo feminino é um fenômeno nacional. O cenário brasileiro mostra a dimensão desse movimento. O país está entre aqueles com maior taxa de empreendedorismo feminino no mundo. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) indicam que as mulheres representam cerca de 34% dos negócios ativos no Brasil. O número é expressivo, mas não revela toda a realidade. Grande parte desses empreendimentos surge por necessidade, quando a renda familiar precisa ser complementada ou quando o mercado de trabalho formal se fecha. 

Negócios que nascem da urgência costumam começar sem planejamento estratégico, sem reserva financeira, sem rede de apoio e, muitas vezes, sem orientação jurídica ou contábil. “Nunca foi uma questão de competir. Sempre foi uma questão de sustentar”, resume Fernanda. 

Sobrecarga invisível

Outro fator que influencia diretamente o empreendedorismo feminino é a distribuição desigual das responsabilidades domésticas. Dados do IBGE apontam que mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens às tarefas domésticas e ao cuidado familiar. Na prática, isso significa que muitas empresárias lideram equipes, negociam com fornecedores, administram contas e contratos, enquanto continuam responsáveis pela rotina da casa. 

O problema, segundo especialistas, não é a falta de capacidade. É acúmulo. Os negócios não fracassam apenas por falta de mercado ou oportunidade. Muitas vezes, eles entram em colapso quando a liderança chega ao limite do esgotamento. Exaustão, como reforça Fernanda, não é falha individual. “Exaustão é ausência de estrutura.” 

Quando se fala em estrutura empresarial, a imagem mais comum envolve planilhas, contratos e indicadores financeiros. Eles são fundamentais, mas não representam tudo. Estrutura também significa clareza estratégica, organização de processos, governança, definição de responsabilidades e visão de longo prazo.

Segundo o Sebrae, a falta de planejamento e gestão estruturada está entre as principais causas de mortalidade de empresas nos primeiros anos de atividade. Para Fernanda Oliveira, o desenvolvimento humano precisa caminhar lado a lado com a gestão. “Estrutura emocional sem estrutura formal gera fragilidade. Estrutura formal sem maturidade de liderança gera rigidez. O equilíbrio constrói permanência”, explica. 

Essa construção coletiva já impacta a trajetória de muitas mulheres que participam do movimento. A empresária Fabíola Kunigami, que acompanha o projeto desde o início, destaca a importância da rede de apoio criada entre as participantes: “Com o movimento, tenho uma rede de mulheres. Foi muito mais fácil passar por cada transição. Sou uma mulher em construção, cheia de sonhos e realizações. Eu me cobrava ser uma ‘mulher-maravilha’, dar conta de tudo. Com o empreender, reencontrei minha essência e voltei a sonhar”, relata. 

O empreendedorismo como ferramenta de transformação

A experiência de acompanhar outras mulheres também é o que move profissionais que atuam diretamente no fortalecimento do empreendedorismo na região. É o caso de Fernanda Gripp, coordenadora regional do Sebrae e integrante do movimento Empreender: “Aos 19 anos comecei a empreender. Ao cuidar de outros empreendedores encontrei o meu propósito de vida. Hoje sei que o empreendedorismo pode ser uma poderosa ferramenta para transformar vidas”, afirma. 

Entre as participantes do Clube Empreender, muitas histórias revelam como a iniciativa e a disposição para agir fazem a diferença no caminho empreendedor. A dentista Chane Tardem, integrante do movimento, destaca que oportunidades surgem para todos, mas nem todos estão preparados para aproveitá-las: “Dizem que empreender é sorte, mas essa está presente para todos. São aqueles que estão dispostos a agarrá-la que verdadeiramente a aproveitam”, afirma. 

Fortalecimento coletivo 

Para muitas participantes, o empreendedorismo feminino também representa um espaço de fortalecimento coletivo. A costureira Claudia Fernandes, integrante do movimento, conta que a troca de experiências e o apoio entre as mulheres ampliaram suas perspectivas profissionais: “Hoje, conhecendo o empreendedorismo feminino, me sinto empoderada ao experimentar novas realizações. No grupo Mulheres de Sucesso nos apoiamos, aprimoramos nossos conhecimentos e reforçamos que juntas somos mais fortes”, afirma. 

A ginecologista Marcelle Alaluna, também integrante do Clube Empreender, compartilha um conselho sobre a importância da saúde mental e do apoio mútuo: “Já me questionei se sou uma mulher de sucesso, mas hoje sei que somos vitoriosas em nossa insistência em viver com respeito e dignidade. Sofrer sozinha é injusto. Minha dica para todas as mulheres: busquem ter amigas, uma rede de apoio, busquem paz e invistam na saúde mental”, recomenda. 

Durante muitos anos, o empreendedorismo feminino foi contado principalmente por narrativas de superação. Histórias inspiradoras de mulheres que venceram obstáculos e abriram caminhos. Mas, para especialistas, esse olhar precisa evoluir. Superar desafios é importante. Mas não basta manter um negócio vivo. Hoje, o debate inclui temas como sustentabilidade financeira, planejamento, segurança contábil e jurídica, delegação consciente e saúde mental como parte da estratégia empresarial.

História 

Empreender, cada vez mais, precisa deixar de ser um ato solitário de resistência. Foi justamente a partir dessa visão que nasceu em Nova Friburgo o projeto Mulheres de Sucesso, uma iniciativa voltada para o desenvolvimento estruturado do empreendedorismo feminino. 

O que começou como um encontro entre 66 mulheres evoluiu para um ecossistema que reúne diferentes frentes de atuação: desenvolvimento pessoal, formação empreendedora, clube de negócios, projetos literários, parcerias institucionais e um espaço físico dedicado ao networking e à formação. 

A proposta é fortalecer a liderança feminina de forma integral. Quando mulheres são apoiadas em sua formação como líderes e empreendedoras, os impactos ultrapassam os resultados financeiros. Negócios liderados por mulheres costumam gerar empregos com foco no desenvolvimento social e adotar uma gestão mais humanizada, frequentemente marcada por maior atenção à equipe e à comunidade. 

“Quando estruturamos negócios femininos, fortalecemos a economia local”, destaca Fernanda Oliveira. Permanecer também é vitória. Mais do que incentivar mulheres a empreender, o debate atual aponta para uma necessidade maior: empreender com base sólida. Negócios que sejam bons para quem os lidera, para as pessoas que trabalham neles e para a sociedade ao redor. Nesse contexto, o empreendedorismo feminino deixa de ser apenas uma pauta de inclusão e passa a ser também uma estratégia de desenvolvimento econômico. 

“Empreendedorismo feminino não é sobre competir”, conclui Fernanda Oliveira. “É sobre criar condições para permanecer. E a permanência, no mundo dosnegócios, tem nome: estrutura.

(*) É jornalista, integrante do ecossistema Mulheres de Sucesso
 

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