Dia do Médico: friburguenses recém-formados falam de seus desafios hoje

Lucas Concy, Victoria Carestiato e outros profissionais desabafam sobre as expectativas e as dificuldades de exercer a profissão
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
por Jornal A Voz da Serra
Dia do Médico: friburguenses recém-formados falam de seus desafios hoje

Concluir a graduação e entrar no mercado de trabalho é um momento importante para todo profissional. Para quem escolheu a área da saúde, iniciar as atividades em 2020 significa lidar com a pandemia do novo coronavírus, que já contaminou mais 5 milhões de pessoas e ocasionou a morte de mais de 150 mil, no Brasil.

Jovens médicos que atuam em hospitais públicos por todo o país têm relatado nos mais variados meios de comunicação os desafios e aprendizados deste período.

 

 

Aprendendo que vida e morte são partes de uma mesma jornada

 

Por Lucas Vahia Concy*

Hoje, domingo de manhã, encontro-me na difícil tarefa de escrever sobre como foi formar em medicina em um dos períodos mais conturbados da saúde mundial. Assumo que a ficha ainda não caiu. Há uma semana eu atendia pacientes sob a supervisão de professores experientes e, como em um piscar de olhos, me consideraram apto a desenvolver um raciocínio clínico sozinho e assinar meus próprios prontuários.

Ao falar em um piscar de olhos, confesso que a jornada não foi tão curta quanto a expressão sugere. Tudo começou em meados de 2014, quando, no terceiro ano do Ensino Médio, o Lucas, bom aluno de matemática e física, abriu mão dos vestibulares de engenharia para tentar uma carreira nada monótona. Os motivos da brusca mudança são esclarecidos semanalmente nas sessões de psicanálise. 

Nada contra os engenheiros, mas a formação na área médica nos permite abrir os olhos sobre as questões mais profundas e íntimas da vida e da morte.

Descobri só em 2019 que havia me encontrado na medicina. Os quatro primeiros anos foram dedicados aos livros, resumos, aulas de anatomia, microscópios (e às festas, sou humano, afinal). 

No rodízio de Clínica Médica, no 5º ano, fiquei responsável por dois pacientes graves. O envolvimento foi tanto, que quando um deles faleceu, incrédulo, fui ao necrotério me certificar de que minha paciente (ou naquela altura, amiga) havia mesmo me deixado sem nem se despedir. O segundo saiu do hospital curado e nos falamos até hoje pelas redes sociais. Ali percebi que a “síndrome de Deus” era descabida: vida e morte são partes de uma mesma jornada.

A medicina, muito mais que uma exigência física ou intelectual, demanda um amadurecimento da alma. Fico muito abalado quando me deparo com mazelas causadas pelas incoerências sociais, pelo feminicídio, racismo e homofobia. Acho esse incômodo necessário para mover as engrenagens na busca de tempos melhores. Para aliviar a dor de espírito, repito, terapia é a chave do sucesso.

O tão sonhado sexto e último ano da faculdade, não foi como o esperado. O baile de formatura já estava pago, a data da colação estabelecida e tudo parecia correr bem. Com a chegada do novo coronavírus ao Brasil, a faculdade suspendeu todas as aulas e atendimentos e todas as certezas viraram pó. Ninguém sabia mais se iria formar, se seria convocado para trabalhar na linha de frente dos hospitais de campanha ou se ficaria em casa pelo resto do(s) ano(s).

Foi uma fase de muita ansiedade e reflexão sobre o futuro profissional. Novos horizontes foram descobertos, como a telemedicina, por exemplo. Hábitos de higiene foram ampliados. Percebemos que a saúde mental é um pilar fundamental para o bem estar. 

O meio científico foi alavancado como nunca antes visto na história. Como lição disso tudo, acredito que pequenos momentos de confraternização serão mais valorizados, acho também que seremos mais conscientes em nossas escolhas políticas, afinal, uma “gripezinha” não leva mais de 150.000 vidas.

Por fim, espero ser o médico que faça a diferença no mundo. Me comprometo estar em constante evolução, estudando sempre, e de mente aberta e livre de preconceitos, para aperfeiçoar-me até o fim.

* Lucas Vahia Concy, 23 anos, friburguense, é formado em medicina pela Escola de Medicina Souza Marques

Uma longa jornada antecipada por um motivo nobre

Por Victoria Aragão Carestiato*

20 de abril de 2020: com muita gratidão, diploma em mãos. Não teve abraço, beijo e nem celebração com todos que sempre estiveram comigo ao longo dessa caminhada para me tornar médica. Escolhi a medicina por saber que poderia ser instrumento de Deus para cuidar do próximo. E em um momento ímpar na história da humanidade minha graduação foi antecipada. 

O desespero? Ah, é claro que veio junto! Mas meu sonho não era mais apenas meu. A medicina me chamava, precisava de mim. E assim, tive a oportunidade de ressignificar tudo ao meu redor, valer da solidariedade e unir no bom senso. 

Tão logo me formei fui trabalhar em Monnerat, distrito de Duas Barras, onde estou até hoje, além de ter trabalhado na UPA de Nova Friburgo. Iniciar minha carreira profissional durante a pandemia está sendo desafiador, um aprendizado muito valioso. Trouxe à tona o quanto o sofrimento humano ainda nos é desconhecido e se essa minha nova vivência pudesse ser descrita em uma única palavra, eu diria: moderação. 

Moderação por entender que é impossível praticar uma boa medicina apenas com a ciência, deixando de lado a arte de considerar cada pessoa que busca ajuda como um ser humano único, que tem seu próprio tempo e próprias ideias. E com o papel de médica, minha nova arte é descobrir quando e como melhor aplicá-las a quem delas necessita. 

* Victoria Aragão Carestiato, 25 anos, friburguense, formada em medicina pela UNIG — (Universidade Iguaçu / Itaperuna)

Outros exemplos

A médica Carina Dias, 26 anos, formada neste ano, pela Universidade Municipal de São Caetano, tem atuado na linha de frente de combate à Covid-19, em prontos-socorros da região. 

Ela tem focado sua atenção em aprimorar os conhecimentos em urgência e emergência, área em que tem atuado desde o início da pandemia. Também tem acompanhado o transporte entre unidades de saúde de pacientes em estados graves, como socorrista, intensificando sua atuação em ambientes de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Questionada sobre seus medos, Carina avalia que, como recém-formada, sente a angústia de querer fazer tudo o que estiver ao seu alcance pelo paciente e a constante dúvida se havia mais que pudesse ter sido feito para ajudar. 

“Não temos toda a experiência em campo que os colegas mais antigos possuem e, ao nos formarmos em meio à pandemia, sabíamos o que viria pela frente: plantões abarrotados, o medo do diagnóstico positivo para o coronavírus, o desespero dos familiares que não podem visitar seus entes queridos”, afirma. 

“É uma realidade muito triste de se enfrentar, mas que, com certeza, tem trazido uma bagagem muito grande como médica e ser humano, reforçando o valor da vida.”

A jovem também teme se contagiar ou contaminar parentes e, por isso, reforça os cuidados com a colocação e retirada dos EPIs (Equipamentos de Proteção Individual). 

“Apesar do incômodo da máscara, que machuca o rosto, do calor de toda a paramentação, do óculos que vive embaçando, eles têm sido fundamentais e os responsáveis por eu não ter me contaminado até o momento e, principalmente, não ter contaminado meus familiares.”

Um intenso aprendizado

Formado em 2019 e atuando como residente em hospitais da mesma região de São Paulo, Rodrigo Portazio, 25, afirma que os médicos têm tido o importante papel de informar a população, tanto sobre os sintomas, quanto sobre as condutas com os pacientes. 

“Isso é o que está mais diferente do que o habitual. As pessoas às vezes chegam sem sintomas, mas com muitas dúvidas, e nosso papel é esclarecer para evitar que a situação piore”, pontua.

Portazio se contaminou com a Covid-19 em junho, mas, desde março, já estava morando em Santo André e não voltou mais para a casa dos pais, em São Paulo. 

“A gente só se vê com cada um no seu carro, com máscara, à distância, porque, por mais que a gente tome medidas de precaução, a gente vê muita transmissão acontecendo dentro de casa, com pessoas que estão isoladas, mas recebem alguma visita e acabam se contaminando”, explica. 

Para o médico, além do intenso aprendizado que está adquirindo ao lidar com pacientes com insuficiência respiratória, que chegam em volume bem maior, os profissionais também estão aprendendo a lidar com recursos escassos. “Ninguém estava preparado para a quantidade de analgésicos e sedativos que são necessários para se entubar os pacientes.”

Ambos os profissionais já lidaram com a perda de pacientes, tanto em decorrência da Covid-19, quanto de outras enfermidades. “Graças a Deus não se trata do caso da maioria e vale lembrar que o prognóstico é bom para o maior percentual dos doentes, não devendo haver desespero no caso do diagnóstico positivo, apenas agir com cautela e buscar o hospital quando orientado”, recomenda Carina. 

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TAGS: saúde