Cena de homem descendo o Bengalas em um caiaque surpreende friburguenses

Rio que já foi navegável e tinha muitos peixes hoje sofre com assoreamento
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
O homem com sua vara de pesca no Bengalas nesta sexta (Foto: João Paulo Mori)
O homem com sua vara de pesca no Bengalas nesta sexta (Foto: João Paulo Mori)

A cena, insólita, foi tão rara quanto o sol que resolveu dar o ar da graça justamente na manhã desta sexta-feira, 27, Dia de Nossa Senhora das Graças, depois de mais de um mês de chuvas em Nova Friburgo. Um homem solitário, ainda não identificado, foi visto navegando pelas águas rasas do Rio Bengalas, remando um caiaque.

O flagrante foi feito pelo coronel bombeiro João Paulo Mori, que caminhava pela margem do rio na altura de Duas Pedras, e rapidamente se espalhou pelas redes sociais. O homem, de bermuda e camisa rubro-negra, navegava rio abaixo, ora sentado, ora em pé como se estive num stand-up paddle. A certa altura, deixou o remo de lado e empunhou uma vara de pescar. Se fisgou algum cascudo, ninguém sabe, ninguém viu.

Passear de barco pelo Bengalas não é, contudo, tanta novidade assim. Como já registrou a historiadora Janaína Botelho nas páginas de A VOZ DA SERRA, o rio São João das Bengalas já foi navegável no passado - uma ideia que, se fosse hoje ressuscitada,  poderia gerar um projeto de turismo e lazer inédito para toda a Região Serrana, incentivando também projetos de despoluição do rio, a exemplo de outras cidades no Brasil e no mundo (veja mais abaixo).

Como lembra Janaína, havia inclusive, no século 19, um porto na altura de Duas Pedras, o Porto do Dutra, que conduzia passageiros. Na comemoração do centenário da fundação de Nova Friburgo, em 1918, os descendentes do Barão de Nova Friburgo se incumbiram de organizar uma festa veneziana no Rio Bengalas, com 12 pequenos barcos para quatro passageiros cada. Na altura do Suspiro as águas foram represadas, deixando o rio com um significativo volume d’água. 

Como praticamente todas as cidades, a vila de Nova Friburgo se desenvolveu, a partir de 1818, ao redor do Bengalas, que não tinha o alinhamento que tem hoje convivia com pequenos riachos pelo Centro. Em princípios do século 20 foi feito nele uma retificação. 

Formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antônio que se lança no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul, o Bengalas banhava as lavouras do vale do Rio Grande, hoje Conselheiro Paulino, o celeiro agrícola da vila. Ganhou tanta importância que o vale do Rio Grande passou a ser distrito, o de Riograndina.

Há três anos, A VOZ DA SERRA produziu uma reportagem especial, percorrendo os cerca de 15km de extensão do Bengalas, desde o Centro até Banquete, para mostrar as belezas e as mazelas ao longo de seu curso.  A reportagem mostrou o assoreamento provocado pelo lançamento de lixo como um dos maiores problemas do rio. 

Dono de uma barbearia às margens do rio em Banquete, o bonjardinense octogenário Henrique de Mesquita, o seu Nick, foi um dos tantos que viram a paisagem do Bengalas mudar e deu seu testemunho. “Ele era mais fundo e mais largo. Muita gente tomava banho e o que não faltava era peixe. Com o passar dos anos, ele foi ficando assim, minguado e com a água cada vez mais escura. É uma tristeza sem fim ver que mudou tanto, mas tenho esperança de que meus bisnetos, tataranetos vejam o Bengalas recuperado”, disse ele.

Cidades que salvam seus rios

As cidades nascem abraçadas a seus rios, mas frequentemente lhes viram as costas depois que crescem e se desenvolvem. Embora o Brasil tenha a maior rede hidrográfica e a maior reserva de água doce do planeta, mantém com seus rios uma relação ambígua, pois vive da água retirada deles e, ao mesmo tempo, os mata, afogando-os de esgoto.

Pelo mundo afora há exemplos de cidades que conseguiram salvar seus rios, às custas, é claro, de muito tempo, trabalho e dinheiro. Os franceses conseguiram, depois de muitas décadas de esforços, transformar as margens do Sena, que corta Paris, em charmosos boulevards. O investimento na construção de estações de tratamento esgoto começou nos anos 60, devolvendo dezenas de espécies de peixes àquele habitat. O governo criou leis que multam fábricas e empresas que despejarem rejeitos nas águas. No verão, a prefeitura monta a infraestrutura completa de uma praia, com areia e tudo, na margem direita do Sena (abaixo).

Outro exemplo vem de Londres. Fora as estações de tratamento construídas, dois barcos percorrem o Tâmisa diariamente, retirando 30 toneladas de lixo a cada 24 horas.

Em Lisboa, o Tejo também foi despoluído com a criação de uma reserva natural, em 2000. O plano envolveu a construção de rede de saneamento.

Em Brisbane, na Austrália, o Projeto Rio e Baía Saudáveis visa a limpar, até 2026, as águas do rio Brisbane e da Moreton Bay para a prática de esportes e o uso como via de transporte.

Em Fribourg, na Suíça, o Rio Saane (ou Sarine) tem trechos muito procurados para a prática de rafting e canoagem e pontes, de madeira e de pedra, que são verdadeiras obras de arte arquitetônicas.

 

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