No mesmo dia em que a Convenção-Quadro da ONU (UNFCCC) lançou o relatório-síntese das 64 Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) entregues até agora – com a expectativa de que o dia fosse dedicado à discussão da lacuna nas reduções de emissões, mesmo com compromissos mais ambiciosos desde Paris –, acontecia na cidade do Rio de Janeiro a operação policial mais letal na história do estado. Tal evento, na última terça-feira, 28 de outubro, ocorreu aparentemente sem qualquer cuidado e consideração pelo grande momento diplomático que a capital fluminense vivencia neste final de ano. A partir desta segunda-feira, 3, essa mesma cidade será palco de, pelo menos, 53 eventos climáticos pré-COP.
Dando o pontapé inicial, a Cúpula Mundial dos Prefeitos da C40 será o primeiro evento do Fórum de Líderes Locais da COP30. Nesta oportunidade, estarão presentes os prefeitos das cidades mais comprometidas com a ação climática e a expectativa é que os prefeitos de Londres e de Paris compareçam. Ao final desse encontro, espera-se que um documento, com diversas iniciativas relacionadas à discussão da sustentabilidade nas cidades, seja elaborado para ser apresentado em Belém.
Outro evento muito antecipado, e que envolve a realeza britânica, é o The Earthshot Prize, que premiará os cinco melhores projetos mundiais relacionados às mudanças climáticas com um milhão de libras cada. Idealizado pela fundação do príncipe William, que estará presente com outros grandes nomes da música nacional e internacional, o prêmio acontecerá no próximo dia 5 no Museu do Amanhã.
Obviamente, a presença de tantas pessoas importantes nesses eventos requer ações e estratégias de segurança de alta sensibilidade. A escolha pelo Rio para receber esses eventos foi justificada pela crise de hospedagem em Belém, além de outras questões relacionadas à segurança e à logística. Embora nenhum chefe de Estado seja esperado nesta semana, ainda assim teremos pessoas do alto escalão de muitos governos e que requerem planejamentos de segurança meticulosos e coordenados.
Ainda é preciso entender o timing dessa megaoperação, mas o fato concreto que temos às vésperas da pré-COP no Rio de Janeiro é que, enquanto o prefeito delineava o plano operacional de mobilidade e segurança para receber o seu último evento diplomático de grande porte, o governador autorizava uma ação policial que paralisou a cidade, incluindo as principais vias de acesso aos locais do evento (Aeroporto Galeão, Linha Vermelha, Linha Amarela, Avenida Brasil e Boulevard Olímpico).
Além de projetar uma má imagem do Rio para o exterior, os últimos acontecimentos têm o potencial de ofuscar não só a beleza da Cidade Maravilhosa, mas também as oportunidades de fortalecimento do multilateralismo, de atração de investimentos e de transferência de tecnologia que essa semana de eventos é capaz de proporcionar.
Por isso, esses sete dias de evento são cruciais para o sucesso da COP30, que foi classificada por seu presidente, André Corrêa do Lago, como sendo a “COP da Verdade”. Diante desse cenário, a verdade do Brasil já se impõe e, mais do que nunca, no âmbito da Conferência, devemos abordar de forma efetiva os temas das desigualdades estruturais e do racismo ambiental que assolam o país, do Rio de Janeiro a Belém.
(*) Isabela Braga é bióloga e cientista climática. Escreve aos sábados

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