2020: o ano em que Nova Friburgo parou

Nos 2 anos da pandemia, relembre quando a cidade se trancou em casa e passou a viver sob sucessivos decretos e bandeiras
sexta-feira, 18 de março de 2022
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
Comércio à meia-porta em Friburgo, em junho de 2020: cena corriqueira na cidade (Fotos de Henrique Pinheiro)
Comércio à meia-porta em Friburgo, em junho de 2020: cena corriqueira na cidade (Fotos de Henrique Pinheiro)

No fim de semana passado A VOZ DA SERRA relembrou como foi o mês de março de 2020 (veja a reportagem aqui), quando foi decretada mundialmente a pandemia de coronavírus e Nova Friburgo começou a vivenciar as primeiras medidas restritivas para o combate a uma doença nova, que ninguém conhecia. Na época, não havia ainda casos confirmados de Covid-19 na cidade, apenas cerca de 50 suspeitos. O primeiro caso positivo só seria anunciado no fim daquele mês.

Nesta nova reportagem sobre os dois anos da pandemia, A VOZ DA SERRA vai relembrar o restante do ano de 2020, quando os friburguenses se trancaram dentro de casa, descobriram o home-office, viram muitos negócios fecharem (isso quando eles próprios não amargaram prejuízos)  e passaram a ter a rotina regulada por sucessivos decretos e um sistema de bandeiras com múltiplas cores. 

O número de casos da doença, que vinha zerado desde o primeiro boletim da prefeitura, em 17 de março, teve o primeiro registro oficial somente em 3 de abril.  Em meados daquele mês, Friburgo confirmava a primeira morte por Covid e o 22º caso positivo da doença. 

Abril: obrigatoriedade de máscaras

No dia 1º de abril, quando o primeiro óbito ainda era suspeito, o então prefeito Renato Bravo anunciou a prorrogação do decreto da quarentena baixado em março e a possibilidade de Friburgo ganhar um hospital de campanha que atendesse toda a região.

Um vídeo de A VOZ DA SERRA (reveja aqui) mostrou mais uma semana de luta contra o coronavírus na cidade. Máscaras faciais tomaram conta das ruas, entre portas do comércio fechadas e poucos ônibus circulando.

O delegado  Henrique Pessoa veio a público avisar que pessoas que insistissem em andar na rua sem um objetivo justificável seriam conduzidas à 151ªDP, podendo ser indiciadas no artigo 268 do Código Penal (infringir determinação do poder público destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa) - veja vídeo aqui.

Em plena Semana Santa, missas começavam a ser transmitidas pela internet.  Foi decretada emergência na saúde pública do município, permitindo dispensa de licitações e compras emergenciais pelo poder público.

Agentes da prefeitura, Defesa Civil, Polícia Civil, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros fizeram varredura pelas ruas em prol do isolamento social, orientando as  pessoas e fiscalizando os estabelecimentos. O Hospital Municipal Raul Sertã ganhou uma tenda para a triagem de pacientes com sintomas de Covid-19.

Em 22 de abril, era publicado o decreto 545, tornando obrigatório o uso de máscaras em todo o município, sob ameaça de punição (veja o vídeo). A medida se somava  às restrições do comércio e da indústria, que vinham desde março.

Em entrevista À VOZ DA SERRA, o então secretário municipal de Saúde, Marcelo Braune, disse que o então secretário estadual, Edmar Santos, projetava cerca de 400 óbitos em Nova Friburgo (hoje são mais de 900).

No final de abril, a Anvisa autorizava testes rápidos de Covid-19 em farmácias. Em mais uma “live”, Renato Bravo cogitava a criação de barreiras sanitárias nos principais acessos de Friburgo - algo que não ocorreu na sua gestão. Beneficiários madrugavam nas calçadas, aglomerados, para tentar sacar o auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal (abaixo).

Maio: Justiça impede flexibilização

Em maio, com  mais de 60 casos confirmados, 80% dos leitos do Raul Sertã ocupados e a pressão de entidades para reabrir o comércio, Bravo endureceu o discurso e ameaçou punir quem descumprisse os decretos: “Queremos que a economia se abra. Mas como, se temos pessoas irresponsáveis que desrespeitam o isolamento?”  Até então, somente  supermercados e farmácias permaneciam autorizados a funcionar. Os demais estabelecimentos continuavam de portas fechadas, sem flexibilização. 

A Câmara Municipal entregou ao Executivo propostas para uma “flexibilização responsável”. No fim do mês, Bravo decidiu liberar indústrias com 50% da capacidade, mas não o comércio. A questão  foi parar na Justiça  (reveja vídeo aqui) e uma liminar suspendeu o decreto de flexibilização, a pedido da Defensoria Pública. Moradores de Lumiar pedem a instalação de barreiras sanitárias na RJ-142 (abaixo).

Em 17 de maio morria  a primeira técnica de enfermagem de Friburgo infectada pelo coronavírus. Tereza Cristina Miranda, de 65 anos, tinha mais de 40 anos de profissão e trabalhava na Maternidade Mario Dutra de Castro. Ela foi um dos 47 profissionais da área de saúde contaminados pela Covid-19 na cidade até então - hoje são mais de 900, com seis óbitos na categoria.

A prefeitura começa a distribuir cestas básicas, incluindo kits de limpeza e máscaras produzidas por confecções locais. 

Atendendo à Justiça, a prefeitura suspende a flexibilização, mantendo autorizados apenas os estabelecimentos considerados essenciais, como supermercados, padarias, farmácias, hortifrútis e óticas. Continuavam proibidas hospedagens. Bares e restaurantes só podiam operar com entregas ou retirada. Também seguiam proibidos clubes, academias, cinemas, teatros, casas noturnas, boates, salões de festas e afins, bem como shoppings.

Junho: expectativa de flexibilização

No início de junho, o uso de máscaras passa a ser obrigatório em todo o estado. A abertura do hospital de campanha de Friburgo é adiada pela quinta vez. Em meados do mês, Friburgo finalmente  recebe, com quatro meses de atraso, 29 respiradores para o Hospital Municipal Raul Sertã. A prefeitura precisou recorrer à Justiça para receber os equipamentos, comprados por mais de R$ 1,3 milhão.

Em meados de junho, a cidade registrava um caso de Covid-19 a cada duas horas. O Sindivest calcula 635 demissões em Friburgo somente no mês de abril, por conta da pandemia.  A prefeitura começa a realizar testes de Covid na população.

Empresários se unem e fazem doação de insumos ao Raul Sertã. A mobilização foi consequência de uma vistoria da Defensoria Pública que constatou falta de itens básicos como papel toalha, sábão, álcool e copos descartáveis.

Mais um decreto municipal mantém as escolas fechadas. A cidade se mantém na expectativa da flexibilização (veja vídeo)

Julho: início do sistema de bandeiras

Após três meses e meio de isolamento social e suspensão de várias atividades comerciais e industriais, sai em 1º de julho o decreto com o início da flexibilização. Fica decidido que a retomada obedecerá a um sistema de bandeiras, definidas por parâmetros semanais de ocupação de leitos de UTI.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do governo federal, revela que Friburgo perdeu quase 2.400 postos de trabalho no trimestre.

Em 3 de julho,  com 59,32% dos leitos de UTI ocupados, começa a flexibilização com a cidade em bandeira amarela, que permitiu o comércio de rua abrir, assim como  bares e restaurantes até 22h e com 70% da capacidade.

Em 20 de julho, no entanto, Friburgo entra em  bandeira vermelha pela primeira vez, e só o comércio essencial pode funcionar.  Ronda do AVS constata muita gente sem máscara nas ruas. Com casos semanais de Covid caindo pela segunda semana seguida, uma frente empresarial pede a revisão dos critérios e propõe rodízio de CPFs na cidade. Já entidades empresariais como CDL, Sincomércio e Acianf  defendem a adoção de outros critérios além da ocupação hospitalar, como taxa de transmissão, para a aferição das bandeiras.

Quatro empresários ligados à Iabas, OS responsável pela eterna montagem do hospital de campanha de Friburgo, são presos.

No fim de julho, um novo decreto da prefeitura  altera o cálculo, cria a bandeira roxa e suaviza as restrições: aferição passa a levar em conta cinco indicadores, entre eles taxa de ocupação de leitos de enfermaria e taxas de óbitos e novos casos. A cidade entra em semanas seguidas de bandeira vermelha, porém menos restritiva.

O então secretário estadual de Saúde, Alex Bousquet,  confirma que Friburgo iria mesmo ficar sem hospital de campanha.

Agosto: bandeiras por duas semanas

No início de agosto, o  Raul Sertã ampliava de dez para 20 os leitos de UTI Covid. Em meados daquele mês, mais mudanças na cidade: novo decreto municipal alterava os critérios e flexibilizava ainda mais as regras para a abertura do comércio. As bandeiras passaram a valer por duas semanas e a partir da segunda-feira seguinte à aferição da noite de sexta-feira, para dar tempo aos comerciantes de se adaptarem. No fim do mês, Friburgo quebrava a barreira dos cem óbitos por coronavírus e o total de infectados chegava a  2.298 - hoje são quase 30 mil.

Enquanto o hospital de campanha de Friburgo começava a ser  desmontado sem nunca ter funcionado, Wilson Witzel era afastado do cargo de governador por denúncias de irregularidades envolvendo justamente a construção dessas unidades.

Setembro: aglomerações noturnas chocam

Em 3 de setembro começava, de fato, o desmonte do hospital de campanha em anexo ao ginásio esportivo Frederico Sichel, do Sesi, em Conselheiro Paulino.

Em meados do mês, sob bandeira amarela, volta a aglomeração noturna na Rua Monte Líbano em uma noite de sexta-feira. A imagem circula nas redes sociais e choca friburguenses e autoridades. Homens do Grupo Tático da Guarda Civil Municipal e da Polícia Militar passam a atuar na rua lotada de jovens. A cidade tinha então três mil infectados e 122 óbitos, e a taxa de ocupação estava em 20% nas enfermarias e em 48% nas UTIs.

Em 30 de setembro, novo decreto libera casas de festas, clubes sociais, cinemas e drive-in.

Outubro: primeira bandeira verde

Em meados de outubro, Nova Friburgo fica pela primeira vez em bandeira verde, após sete meses de pandemia e 15 semanas do início da “retomada gradual e segura das atividades”. Um novo decreto libera shows, com barreira de acetato. Academias e clubes sociais já funcionam plenamente, mas cursos seguem com capacidade limitada a 50%. O Mapa de Risco do estado está  em bandeira amarela (baixo risco de contágio). 

Novembro: uma semana sem óbitos

Em meados de novembro, após mais de 230 dias fechados, cinemas são autorizados a reabrir, com venda de pipoca liberada. Mas a proibição de menores de 18 anos leva empresários a manter as salas fechadas. Um novo decreto, no entanto, libera tudo.

Ainda em meados de novembro, a doença dá sinais de arrefecimento: Friburgo já não registra mortes por Covid há uma semana. Mas os casos da doença continuam aumentando.

No fim do mês, a Justiça indefere o pedido do Sindicato das Escolas Particulares (Sepe)  para a volta às aulas presenciais.

Dezembro: Natal sob bandeira vermelha

No início de dezembro, a bandeira que define o estágio da flexibilização volta a valer por apenas uma semana.  Após oito meses sem aulas presenciais, a prefeitura divulga o plano de retomada: somente após 28 dias em bandeira verde. 

O avanço da Covid em Friburgo faz a bandeira pular de amarela para vermelha, suspendendo casas de festas e música ao vivo em áreas fechadas. A bandeira vermelha, no entanto, é atenuada: novo decreto permite restaurantes abertos até 23h e bares até 20h. A bandeira vermelha continua por quatro  semanas seguidas e a cidade entra em 2021 sob as medidas mais restritivas, prorrogadas até 10 de janeiro por conta da troca de governo. Entidades do comércio pedem mudanças na bandeira vermelha e a extensão do horário das lojas para evitar aglomerações nas compras de Natal. Mesmo assim, Friburgo chega a 200 mortos às vésperas do Natal.

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TAGS: coronavírus