Março de 2020: o mês que mudou a nossa vida para sempre

Neste domingo, faz exatamente 2 anos que Nova Friburgo mergulhou no mundo de incertezas criado pela pandemia do coronavírus
sexta-feira, 11 de março de 2022
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
A palavra de ordem que ganhou as ruas da cidade em março de 2020 (Fotos: Henrique Pinheiro/ Arquivo AVS)
A palavra de ordem que ganhou as ruas da cidade em março de 2020 (Fotos: Henrique Pinheiro/ Arquivo AVS)

Neste domingo, 13, faz exatamente dois anos que Nova Friburgo mergulhou no mundo de máscaras e incertezas criado pela pandemia do coronavírus. Mesmo sem ter ainda, naquele dia de 2020, nenhum caso confirmado da doença: havia 49 suspeitos e o primeiro caso positivo só foi anunciado no fim daquele mês.

Naquela tarde da sexta-feira 13 de março de 2020, o então prefeito Renato Bravo reuniu todo o secretariado (abaixo) para discutir ações de prevenção contra a doença, que se disseminava rapidamente. Àquela altura, havia pelo menos 98 casos confirmados e 1.485 suspeitos no Brasil, e 13 casos confirmados e 119 suspeitos no Estado do Rio - nenhum deles em Nova Friburgo: os poucos investigados até então haviam sido descartados. 

Dois dias antes, no entanto, em 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia. O primeiro caso de coronavírus no Brasil, em São Paulo, foi confirmado pelo Ministério da Saúde logo após o carnaval de 2020, na quarta-feira de Cinzas, 26 de fevereiro.

O primeiro decreto

Na primeira medida adotada para prevenir a Covid-19, o então prefeito Renato Bravo determinou, por decreto publicado no sábado, 14 de março, o fechamento de todas as escolas e creches do município a partir da semana seguinte, por pelo menos 15 dias, recomendando à rede privada de ensino a fazer  o mesmo, além do cancelamento de todos os shows e eventos programados na cidade. 

O Yakissoba do Laje que seria realizado no domingo, 15, e a Feira da Promoção e o Salão de Noivas & Festas, agendadas para o início de abril no Country Clube, abriram a longa fila de eventos cancelados.

A doença avançava rápido. Naquela sexta 13, as capitais Rio e São Paulo registravam os primeiros casos da chamada “transmissão comunitária”  - quando já não é mais  possível identificar quem passou o vírus para quem.

Repartições do estado também suspenderam as atividades na mesma época: delegacias passaram a atender apenas casos de emergência, como homicídios, roubos e prisões em flagrante. O Detran também reduziu a rotina operacional e de atendimento ao público.  Por decisão do então governador Wilson Witzel, também foram fechados cinemas e teatros em todo o estado. Os órgãos da Justiça também passaram a funcionar de forma restrita: nos fóruns, audiências foram suspensas e juízes passaram a atender somente casos de urgência. Visitas aos presídios também ficaram proibidas.

"É para se adequar imediatamente. Crianças estão em casa. Trabalhadores e também empresários têm que fazer o home-office. Tem que reduzir sensivelmente a presença nas ruas", disse Witzel ao anunciar a decretação de  situação de emergência no estado a partir da segunda-feira, 16 de março.

Trajeto Rio-Friburgo sem ônibus

O decreto de terça-feira, 17, suspendia aulas, jogos de futebol e até festas em todo o estado, além de recomendar o fechamento do comércio, restrições em bares, restaurantes, hotéis e praias. Também era reduzida em 50% a frota de ônibus, barcas, trens e metrô. A Viação 1001 suspendeu as viagens intermunicipais e interestaduais com origem ou destino ao Rio, incluindo os ônibus para Nova Friburgo.

Enquanto São Paulo registrava a primeira morte por coronavírus no Brasil, em 17 de março, uma portaria do Nova Friburgo Country Clube decidia suspender todas as atividades sociais e esportivas, incluindo escolinhas e academia. O Rio acabava de registrar o primeiro caso grave de coronavírus. Friburgo tinha, então, 22 casos suspeitos, todos  sem  gravidade. À exceção de um, que foi internado, todos foram orientados a ficar de  quarentena em casa.

Em 19 de março, através de novo decreto, o então prefeito Renato Bravo anunciava mais medidas, como a redução de público em bares e restaurantes. Bancos, templos, feiras livres e até velórios foram alvos das medidas. 

Mudança na rotina

A essa altura, os friburguenses começavam a mudar sua rotina. Apesar de o movimento na cidade  ter diminuído por conta dos decretos, ainda havia muita gente à toa na rua. Carros de som do Corpo de Bombeiros passavam pedindo às pessoas que não saíssem de casa sem necessidade. Máscaras e álcool em gel começaram a fazer parte do cenário urbano.

Na quinta-feira, 19, mais medidas restritivas: novo decreto restringiu o horário de funcionamento de bares, restaurantes, shoppings e similares, contribuindo para consolidar, como nunca, o serviço de entregas e o vaivém de motoboys pela cidade. Apenas segmentos considerados essenciais foram poupados.

Em nova  tentativa de esvaziar as ruas, outro decreto, em 20 de março, fechou por uma semana as atividades da prefeitura, mantendo apenas os serviços essenciais. Hotéis, pousadas, bares e restaurantes e shoppings também foram proibidos de funcionar, à exceção dos serviços de delivery.

Em Duas Barras, medida drástica para evitar que as pessoas continuassem circulando desnecessariamente pelas ruas:  a prefeitura virou os bancos da praça para cima (abaixo), além de instalar pias com água e sabão ao ar livre. O prefeito na época, Luiz Carlos Lutterbach, médico, acabaria morrendo em consequência da Covid em agosto de 2020.

Cidade “fantasma” no dia 23

O movimento pedindo aos friburguenses “fiquem em casa” ganhou as redes sociais.  Em Friburgo, as medidas finalmente surtiram efeito e a cidade -  então com 32 casos suspeitos, quatro deles hospitalizados  -  amanheceu “fantasma” na segunda, 23 de março. Do Centro a Conselheiro Paulino, as únicas lojas abertas pela manhã eram hortifrutis, supermercados, mercados e padarias,  todos vazios. Alguns raros estabelecimentos atendiam à meia porta. As padarias  interditaram o cafezinho nos  balcões. Profissionais da limpeza urbana varriam as ruas usando máscaras.

Na Alberto Braune, era possível caminhar no meio da avenida, deserta. Sobravam vagas nas áreas de descarga, com poucos caminhões parados. No entorno da Praça Getúlio Vargas também sobravam vagas de estacionamento - cena rara na cidade.

O único lugar com pessoas fazendo fila era o Centro de Convivência da Pessoa Idosa, junto ao Clube de Xadrez, onde começava, naquele mesmo dia 23, a campanha de vacinação contra a gripe comum (Influenza e H1N1).  Por volta do meio-dia, no entanto, o movimento nas ruas se intensificou, mesmo com lojas fechadas. 

AVS deixou de circular

Na quarta-feira, 25, com o comércio fechado, os casos suspeitos na cidade subiam para 46.  Pela primeira vez em muitos anos, A VOZ DA SERRA deixou de circular, por três dias: as bancas, fechadas, não podiam vender jornais (acima) . Ao longo de seus quase 77 anos de existência, e mais de 10.500 edições impressas, o jornal só havia suspendido a tiragem uma vez, por alguns dias, na tragédia de 2011. Os jornalistas trabalharam de casa para atualizar o site e as redes sociais do jornal. 

O setor produtivo de Nova Friburgo, duramente atingido, recorreu a soluções criativas para amenizar a crise.  Empresas do polo de moda íntima, por exemplo, passaram a investir na produção de máscaras e elásticos (abaixo).

Em 26 de março, quando o registro do primeiro caso de Covid no Brasil completava um mês, um estudo da Universidade Johns Hopkins, nos EUA,  e da OMS revelava  que o pico da doença apenas começava. O Brasil tinha naquele momento 2.915 casos, com   77 mortes - 485 casos a mais e 29 mortes a mais em 24 horas.

A Prefeitura de Nova Friburgo publicava então decreto mantendo as aulas  suspensas por mais tempo, até abril. Lojistas começaram a pedir a flexibilização das restrições no comércio. A Defensoria Pública foi contra. 

Dia 27, 1º resultado positivo

Somente no dia 27 de março, em uma sexta-feira à noite, a prefeitura registrou o primeiro resultado positivo para Covid-19. Em nota assinada pelo médico José Manes, diretor-presidente da Unimed de Nova Friburgo, o hospital informava que o paciente estava em quarentena domiciliar, sem necessidade de internação. O teste foi realizado em laboratório particular.

Mais cedo, à tarde, a Prefeitura de Nova Friburgo havia informado que eram  49 os casos suspeitos de coranavírus na cidade, com mais quatro pessoas sendo hospitalizadas em dois dias, totalizando dez internados com sintomas.

Já o estado registrava, até então, 493 casos confirmados e dez óbitos por coronavírus.

Sax na escada Magirus

No fim daquele mês assombrado por tantas notícias angustiantes, momentos de empatia, fé e solidariedade brotaram nas ruas de Nova Friburgo.  Na noite do sábado, 28, por exemplo, policiais do 11º BPM prestaram uma homenagem aos profissionais de saúde de plantão no Hospital Municipal Raul Sertã. 

Com parte de sua plantação sem vender em decorrência do cancelamento de eventos como festas e casamentos, um floricultor do Colonial 61, Luiz Henrique Knupp Freiman,  acabou doando flores para os profissionais da saúde de Friburgo, como forma de agradecimento (acima).

Na terça-feira, 31, bombeiros do 6º GBM  usaram uma escada Magirus para que  um militar tocasse, lá do alto, um instrumento de sopro (RELEMBRE AQUI). A cena (abaixo) aconteceu na Praça Dermeval Barbosa Moreira e emocionou muitos friburguenses, que assistiram ao espetáculo de suas janelas. 

“Sabemos que todos estão em casa, apreensivos com esta crise, mas mantendo o isolamento social com muita resiliência, não apenas com o intuito de se proteger, mas de proteger os outros, a sociedade como um todo”, disse na época o então comandante, tenente-coronel Thiago Alecrim.

Veja, no nosso canal no YouTube, o vídeo produzido pelo AVS mostrando como foram aqueles dias de março de 2020: CLIQUE AQUI

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