A melancolia do fim de ano e a tristeza que afeta muitas pessoas

Um estudo com jovens adultos evidenciou que limitar o uso de redes sociais a um teto diário contribui para a redução de sentimentos de solidão e depressão
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
Foto: Freepik
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A “Síndrome do Fim do Ano”, ou Dezembrite, é um termo utilizado para descrever a intensificação de tristeza e melancolia que algumas pessoas experimentam durante esta temporada, pode contribuir para o agravamento dos sintomas de depressão. Essa condição é muitas vezes associada ao estresse decorrente de uma série de fatores, como demandas sociais e familiares, expectativas elevadas para as festividades, reflexões sobre o ano que se encerra e, em alguns casos, a sensação de solidão.

“É importante destacar que essa síndrome não se configura como um diagnóstico psicopatológico. Na realidade, ela não existe em manuais diagnósticos utilizados por psiquiatras e psicólogos. O que acontece é que, nesse período, diversas questões emocionais podem emergir, assim como ocorre para algumas pessoas na véspera do próprio aniversário, quando fazemos uma retrospectiva da vida e das experiências acumuladas até então”, explica Adriana Satico, psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário Belas Artes (SP).

Quais são os principais fatores emocionais e sociais que contribuem para o surgimento da chamada “Síndrome do Fim de Ano”? Como os aspectos sociais, emocionais e financeiros típicos do fim do ano podem intensificar sentimentos de tristeza e melancolia?

 

Sentimentos 

à flor da pele

Segundo a psicóloga, “é comum surgir a sensação de desconexão ou de não pertencimento, que tende a se intensificar no período de festas, momento em que a união entre as pessoas é amplamente destacada. Além disso, os encontros familiares podem trazer à tona conflitos não resolvidos, gerando tensão e desgaste emocional”, aponta. 

Ela ressalta também que podem aparecer lembranças de pessoas ausentes, seja por morte, separação ou distância geográfica. As confraternizações, por evocarem vínculos afetivos, podem ampliar a saudade e intensificar os sintomas de tristeza.

“Estresse financeiro também se destaca por meio da insegurança econômica, decorrente do acúmulo de dívidas combinada ou não com gastos com presentes, festas e viagens, que costuma aumentar nesse período. Esse cenário contribui para a piora da saúde mental no final do ano”.

Então, de que forma a pressão por “fechar o ano com sucesso” pode intensificar sentimentos de tristeza ou inadequação nessa época? 

Um estudo realizado na Suécia demonstrou que as resoluções de final do ano centradas em resoluções de evitação daquilo “que vou deixar de fazer no próximo ano” fazem com que as pessoas entrem em um ciclo que apresenta um início de ano motivado, acompanhado do abandono e, ao final do ano, prevalece a autocrítica expressa pela autoavaliação negativa. 

Por sua vez, as resoluções de final de ano pautadas em termos de abordagem: “O que eu vou fazer no próximo ano” e acompanhadas de suporte ambiental, envolvendo as relações interpessoais das amizades, trabalho e no ambiente digital, tendem a gerar trajetórias com mais evidências de progresso, o que protege a autoestima, reduz a ruminação e diminui a probabilidade dos sentimentos de tristeza e inadequação associadas ao “fechar o ano”.

Outros estudos apontaram para uma queda na percepção de bem-estar, bem como padrões de perfeccionismo e autocrítica que elevam o sentimento de tristeza e inadequação. As redes sociais também promovem comparações por meio de publicações que indicam as “conquistas do ano”, muitas vezes interferindo negativamente no humor e na autoavaliação dos usuários nas faixas etárias de 18 a 30 anos.

Melancolia 

ou depressão

Como diferenciar a melancolia típica do final do ano de sinais que podem indicar um quadro depressivo mais sério?

“Quando os conteúdos que fundamentam o quadro não estão restritos ao final do ano e os sintomas persistem após esse período, recomenda-se buscar um profissional de psicologia para realizar um processo de avaliação psicológica que permita investigar a situação com maior profundidade. Dependendo do quadro clínico, além de psicoterapia, pode ser necessária também a atuação de um profissional da psiquiatria, que auxilia tanto no diagnóstico de depressão e no diagnóstico diferencial, quanto na indicação de tratamento medicamentoso, se aplicável.”

Quais estratégias práticas uma pessoa pode adotar para lidar com a solidão ou frustrações que costumam emergir nas festas de fim de ano?

“Algumas possibilidades apontadas por estudos recentes indicam que interações rápidas, como mensagens e ligações breves podem repercutir positivamente na redução da solidão percebida e no aumento dos afetos positivos. Além disso, ações pautadas na bondade e na gentileza também demonstram contribuir para a melhora do bem-estar e para a diminuição de afetos negativos. Uma prática simples consiste em escolher algumas pessoas significativas e, nos intervalos do dia, enviar mensagens ou realizar pequenas ligações, seja por áudio e/ou vídeo, de maneira espontânea, reforçando o quanto essas pessoas são importantes para você.”

Adriana Satico cita o mindfulness* (atenção plena) como outra possibilidade para a melhora do humor deprimido, na redução do estresse e diminuição da ruminação. 

“Complementarmente, um estudo com jovens adultos evidenciou que limitar o uso de redes sociais a um teto diário contribui para a redução de sentimentos de solidão e depressão. Assim, acompanhar com atenção os avisos de tempo de uso diário e semanal das conexões virtuais pode facilitar a implementação dessa prática”.

 

Como amigos e familiares podem oferecer apoio saudável a alguém que demonstra melancolia ou retraimento durante esse período?

A psicóloga sugere uma escuta ativa e evitar conselhos apressados, permitindo que a pessoa expresse e reflita sobre seus sentimentos. “Não se deve minimizar o que o outro sente, com frases como “não é nada” ou tentativas de “consertar” tudo rapidamente. Adotar uma postura atenciosa aumenta a percepção de que o outro realmente se importa. Outra forma de ajuda é apoiar sem controlar, permitindo que a pessoa mantenha sua autonomia. Esse tipo de apoio está relacionado a maior engajamento e menos sintomas negativos. Isso porque, apoios percebidos como controladores costumam gerar resistência e piorar o humor. Para evitar isso, é recomendável oferecer opções, reconhecer diferentes perspectivas e colaborar, em vez de pressionar”.

 

BOX

Sobre o assunto

A "Síndrome do Fim de Ano", também conhecida como Dezembrite, não é um diagnóstico clínico oficial, mas descreve um conjunto comum de emoções negativas — ansiedade, tristeza, angústia, sensação de vazio, estresse e cansaço — que surgem com o encerramento do ciclo, balanço do ano, metas não cumpridas, pressão social e memórias difíceis, intensificadas pelas festas e redes sociais, exigindo atenção à saúde mental e autocuidado.

*Mindfulness, ou atenção plena, é a prática de focar sua atenção no momento presente, de forma consciente e sem julgamento, observando pensamentos, sentimentos, sensações corporais e o ambiente. Originado de tradições budistas, é uma técnica secular para reduzir estresse, melhorar foco, autoconhecimento e bem-estar, permitindo lidar melhor com os desafios diários ao sair do ‘piloto automático’.

 

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