20 de novembro - Dia da Consciência Negra

Orgulho, resistência e vozes da juventude friburguense
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
Foto: Freepik
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Tendências, cores, texturas, sabores, ritmos, estética, religiosidade e uma infinidade de expressões moldam a cultura brasileira graças à potência e pluralidade da cultura preta. A influência africana, seja nos modos de vida, na música, na culinária, nas artes, na moda ou na linguagem, compõem parte essencial da identidade nacional.

Por isso, o Dia da Consciência Negra, celebrado nesta quinta-feira, 20, ganha cada vez mais relevância, especialmente após ter sido oficialmente reconhecido como feriado nacional em dezembro de 2023. A data reforça a resistência do povo negro diante da desigualdade persistente e coloca em evidência a urgência das políticas antirracistas no país.

Sobre o dia

A lei 12.519, de 10 de novembro de 2011, instituiu o 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra, em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo da história colonial do Brasil. Doze anos depois, em 2023, a data foi transformada em feriado pela lei14.759, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Essa mudança simbólica representa um marco importante na valorização da memória e da luta do povo negro, cuja participação foi decisiva na formação econômica, social e cultural do país.

O Brasil foi um dos últimos países das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e convive, até hoje, com reflexos profundos desse atraso histórico. O racismo estrutural ainda se manifesta nos índices de violência, nas desigualdades de renda, no acesso à educação, na representatividade política e na oferta de oportunidades.

Por isso, longe de ser apenas um feriado, o Dia da Consciência Negra é um chamado à reflexão e ao enfrentamento dessas desigualdades. A data também busca valorizar a trajetória de resistência, criatividade e protagonismo da população negra ao longo dos séculos. Sua influência ultrapassa fronteiras: das religiões de matriz africana aos estilos musicais que se tornaram base da cultura pop mundial, passando pelas técnicas agrícolas, pelas expressões linguísticas e pelo legado intelectual de pensadores e artistas negros.

Vozes da juventude friburguense

Em Nova Friburgo, o debate sobre consciência racial tem ganhado força, especialmente entre jovens que se reconhecem como agentes fundamentais na construção de uma sociedade mais justa. Para muitos deles, o 20 de novembro representa uma oportunidade de afirmação identitária e tomada de consciência sobre o papel histórico de suas comunidades.

Para a friburguense Lívia Costa, de 26 anos, integrante do Centro Cultural Afro-Brasileiro Ysun-Okê, o significado da data vai muito além de lembrar a morte de Zumbi dos Palmares: “O Dia da Consciência Negra é profundamente simbólico e necessário. Ele nos convida a refletir sobre a trajetória de resistência, criação e ancestralidade que o povo negro carrega desde muito antes da formação do Brasil. É um dia para celebrar nossas raízes, nossa cultura e a força que herdamos daqueles que lutaram pela liberdade e pela dignidade”, afirma.

Para ela, é também um chamado à ação: “A importância desse dia está em nos lembrar de que enfrentamos diariamente o racismo estrutural, presente nas escolas, no trabalho e nas relações sociais. Mas também é um convite para enxergar nossa potência, nossas conquistas e nossa criatividade”.

A professora Amanda do Espírito Santo, de 24 anos, destaca a responsabilidade da educação na construção de uma sociedade menos desigual. Ela conta que muitos estudantes negros não conhecem suas referências históricas nem reconhecem sua relevância dentro da cultura brasileira.

“A Consciência Negra é uma data de extrema importância. Como professora, sinto-me na obrigação de abordar o tema, porque muitos alunos não conhecem a própria história. Ao passar um trabalho para uma turma de 7º ano, eles ficaram surpresos ao descobrir personalidades negras fundamentais para a luta contra o racismo. Espero que isso os ajude a sentir orgulho de quem são”, explica. “Eles ainda enfrentarão uma sociedade racista, infelizmente. Mas, se tiverem consciência de sua negritude, conseguirão enfrentar o preconceito de forma brilhante”, completa Amanda.

Já o publicitário Weslley Tostes, de 22 anos, reforça que a data deve evidenciar o impacto da população negra em todas as esferas da sociedade e a necessidade de reconhecimento dessa contribuição. 

“O Dia da Consciência Negra tem sua importância não apenas por lembrar a escravidão, mas por celebrar o avanço do poder negro na música, na educação, na religião, na saúde, na economia e em tantas outras áreas. Eu, como grande ouvinte de música, destaco a influência negra no funk, no rock, no country, no jazz, no blues. São estilos criados ou profundamente transformados pela criatividade do povo negro, mas cuja história nem sempre é contada pela grande mídia”, observa Wesley.

Para esses jovens, a conscientização é um caminho que fortalece a identidade, amplia horizontes e inspira novas gerações, abrindo espaço para que suas narrativas sejam finalmente reconhecidas.

Programação especial em Nova Friburgo

Uma série de atividades marcam a Semana da Consciência Negra no município. Nesta quinta-feira, 20, data oficial da celebração nacional, a programação retorna à Praça das Colônias, no Suspiro, onde ocorrerá a cerimônia de hasteamento da bandeira Pan-africana, às 10h. Em seguida, às 11h, alunos da Escola Municipal Claudir Antônio de Lima se apresentam no palco, e ao meio-dia a Cia de Danças Reflorescence encerra as atividades com uma performance dedicada à ancestralidade.

A banda Euterpe Friburguense será outra atração deste feriado com uma apresentação especial, às 19h, no Teatro Municipal Laercio Ventura, na Praça do Suspiro. O concerto, intitulado “Muvuca – A Festa das Origens”, tem entrada franca. O evento é promovido em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, e o Centro Cultural Afro Brasileiro Ysun Okê.

Mais do que uma agenda de eventos, as celebrações do Dia da Consciência Negra em Nova Friburgo reafirmam a importância da memória coletiva e do pertencimento. Elas destacam que a luta contra o racismo é permanente e envolve toda a sociedade. O 20 de novembro segue ecoando a história de um povo que, apesar dos obstáculos, nunca deixou de criar, resistir e transformar o Brasil com sua potência cultural, política e humana.

A noite contará ainda com participações especiais que reforçam a proposta de celebração às raízes afro-brasileiras. A bateria da escola de samba Imperatriz de Olaria marcará presença, levando o clima carnavalesco ao palco, enquanto o Grupo Ama Capoeira, sob comando do professor Cobaia, acrescentará movimento e expressão corporal ao espetáculo.

A organização recomenda que o público chegue com antecedência para retirada de senhas, devido à lotação limitada do teatro. A expectativa é de casa cheia para prestigiar mais uma apresentação da banda centenária.

 

  • Reportagem da estagiária Laís Lima com supervisão de Henrique Amorim  

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