Contrariando os pessimistas, as obras do Complexo Porto Futuro II, uma das principais obras feitas para a COP 30, foram entregues nesta semana, faltando exatamente 30 dias para o seu início. Como é habitual, uma equipe da UNFCCC já está no país acompanhando as últimas montagens e as logísticas gerais para a conferência. No âmbito das negociações, o início da próxima semana marca a pré-COP em Brasília, onde ministros de vários países se reunirão com o objetivo de aprimorar a agenda que resultará da COP, visto que o último encontro oficial em Bonn ficou aquém do desejado.
Não obstante, os eventos paralelos já discutem soluções climáticas para todos os seis biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Merece destaque a participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), pioneira incontestável em ciência tropical. No contexto das negociações climáticas, a Embrapa atua no sentido da tropicalização das métricas de medição de carbono, uma vez que nossa incidência de sol e regime de chuvas propicia uma retenção de carbono no solo significativamente maior - até 50% em comparação com os climas temperados, que são a base da monitorização global.
Em reforço a essa tese, um estudo recentemente publicado sobre uma espécie de café desenvolvida pela Embrapa corroborou o potencial de absorção de carbono por espécies tropicais. Observou-se que o café Robusta Amazônico, que é cultivado em Roraima, absolve 2,3 vezes mais CO2 da atmosfera do que emite. Esse fato, por definição, contribui positivamente para o balanço global de carbono. Portanto, avançar esse tema na COP é uma questão estratégica para a redução de emissoras do Brasil.
Adicionalmente, é preciso ter uma visão para além do carbono. Em termos de adaptação às mudanças do clima, a Embrapa desenvolveu uma mandioca, BRS Jacundá, que é 300% mais produtiva, resistente a pragas e ideal para farinha amarela, base da alimentação indígena. Outras soluções envolvem o desenvolvimento de inoculantes e microrganismos para o uso em cultivares e sistemas de produção e também para restaurar terras degradadas.
Diante desse panorama, as críticas que circulam sobre a realização do evento na Amazônia tendem a ignorar a capacidade brasileira de mobilização social, as inovações tecnológicas, além do potencial e das peculiaridades de cada um dos seus seis biomas. Sediar esse evento em nossa casa é ser palco para nossa nossa ciência, cultura e saberes ancestrais. Nosso papel de anfitriões deve ser o de continuar defendendo novas estruturas de governança climática global e a atualização das métricas da ciência tropical nos acordos globais. Dessa forma, podemos concretizar a expectativa de que esta COP avance da fase de negociação para a implementação real de metas e mecanismos financeiros.
(*) Isabela Braga é bióloga e cientista climática. Escreve aos sábados

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