Os livros de autoajuda

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Ao escrever a coluna da semana passada, o ato de pedir ajuda me chamou a
atenção porque, em vários momentos da vida, escutei dizer que é preciso buscá-la
quando necessário, além de não haver motivos para sentir constrangimentos ao
solicitá-la; todo mundo tem a opção de aceitar ou não ajudar. Quando fazia
psicoterapia, compreendi que precisamos respeitar nossos limites. Enfim, ajudar ou
não e pedir ajuda ou não é uma questão pessoal.
Ao escrever, semana passada, a coluna, O Sonho de Vanka, texto sensível e
triste, senti vontade de mergulhar nos livros de autoajuda, decisão que ainda não tinha
tomado desde que comecei a escrever para o jornal A Voz da Serra. De início, eu me
perguntei: estes livros são literários? Deparei-me, então, com um universo de questões
a serem refletidas e pesquisadas. Em princípio, penso que o livro de literatura é
provedor do crescimento pessoal, na medida em que faz pensar, estimula mudanças
nos modos de agir e possibilita o amadurecimento. Os contos de Thchekhov, como
tantas outras obras clássicas, são fontes de valores e foram humanamente construídos
por escritores que conseguiram pinçar questões relevantes da vida. E, acima de
qualquer ponto de vista, não possuíram a intenção de ensinar; eles se comoveram com
a existência em sua mais profunda expressão e escreveram a respeito.
Os livros de autoajuda são lidos amplamente, o que denota a tendência humana
de querer melhorar os modos de ser e de viver. Podem ser considerados como
recursos para combater ou suavizar os males existenciais. Além do que indicam
caminhos para a felicidade, o grande propósito da existência humana. São, às vezes,
verdadeiros manuais, ricos em informações sobre os modos de viver e conviver, as
possibilidades pessoais e o uso de técnicas e métodos. Os que abordam temas
relacionados à espiritualidade e aos sentidos da vida estão neste grupo também.
A busca por esta leitura pode ser explicada pela obra de Sigmund Freud, O Mal-
estar na Civilização, publicado em 1930. Neste trabalho, de cunho científico,
considerado um clássico da antropologia, sociologia e psicologia, Freud aborda as
complexas e conflitantes relações entre o ego e o mundo exterior, causa do embate

entre o indivíduo e a vida em civilização na medida em que o ego precisa se distinguir
da realidade concreta. Nessa complexa e sofrida delimitação entre o eu, o outro
(abrange as relações sociais mais próximas) e o grande Outro (abrange as relações
sociais mais amplas), o eu se restringe, criando um conflito insuperável entre a
sexualidade e a civilização. Desta incompatibilidade entre a libido e a realidade,
emerge o desejo de proteção, que é sustentado ao longo da vida, quando passamos a
temer as circunstâncias do destino e a querer dominá-lo.
Os livros de autoajuda abrangem as áreas da espiritualidade, educação,
economia, psicologia e outras. O primeiro foi escrito pelo escocês Samuel Smiles e
publicado em 1859, em cuja primeira página trazia a proposição: “O céu ajuda aqueles
que ajudam a si mesmos”.
Enfim, se literários ou não, o importante é que o leitor possa ter opções de
leitura diversas e seja capaz de avaliar a validade das informações. A versatilidade na
escolha de um livro é um modo saudável para adquirir conhecimentos, buscar o
aprimoramento pessoal e profissional. Além de ser uma excelente maneira de ocupar
o tempo dedicado ao descanso e lazer.
Ah, faço questão de fechar esta coluna dizendo que estou relendo o “O Mal-estar
na Civilização”. Excelente leitura!

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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