A capa do livro, um criativo abre-alas literário

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

A capa do livro faz parte do projeto de criação literária, e cada edição geralmente tem uma própria. É uma interpretação sintética da obra, uma forma de apresentar o texto que leva em conta as principais características da construção literária. É um abre-alas, uma apresentação sedutora em que cada detalhe tem sentido, como a ilustração, as cores, a fonte e os tamanhos de letra utilizados. Expressa os esforços criativos do ilustrador e de todos os envolvidos no projeto, que pretendem apresentar um livro irresistível ao leitor, capaz de tocar seus sentidos e estimular suas emoções.

Nos últimos tempos o fazer da capa considera as estratégias de marketing para que a percepção do livro pelo leitor seja nutrida pela vontade de tomar posse do texto. Para tal é importante que contenha e combine criativamente as informações imprescindíveis como título e subtítulo, autor, ilustrador e editor. Até uma frase contundente que revele o conteúdo da obra. Hoje, independentemente do valor literário, o livro é um produto de consumo, que compete com outros livros e com as ofertas do mercado de consumo. Há quem prefira comprar um perfume, um sapato ou um game.

 A equipe envolvida na produção do livro comumente imagina uma capa perfeita, capaz de oferecer ao leitor espaço imaginativo entre a sua visualização e a leitura do texto, nele despertando a vontade de conhecer o conteúdo e de como sua pessoa será enriquecida pela leitura. Além do prazer de tê-lo sob seus olhos. 

A feitura da capa finaliza o processo da criação literária. Somente nesta etapa, a capa ganha personalidade uma vez que vai receber interferências resultantes da interação entre o autor, o ilustrador, o diagramador e o editor. Pelo fato de o texto passar pelo tratamento de diferentes profissionais, melhor vai expressar as influências da cultura da época em que o livro está contextualizado. Ou seja, uma história passada no século XIX tem uma capa diferente da de um livro de crônicas, que possui atualidade.

Também a capa deve transmitir o estado de espírito que o autor pretende causar no leitor, na medida em que o livro pressupõe o encontro de ambos, mesmo que o autor não esteja mais vivo. Há uma magia interessante nesta interação. Talvez seja por isso que dizem que os escritores são imortais porque suas ideias se mantêm vivas através dos tempos. As obras de Victor Hugo, Saint-Exupéry e Shakespeare continuam a ser relançadas em todas as partes do mundo, cujas capas devem trazê-los aos tempos atuais, permitindo ao leitor a sensação de que podem superar as distâncias do tempo.

Eu sempre cuidei das capas dos meus livros. Ao mesmo tempo que me exigiram cuidados especiais, tive momentos de alegria. Não há maior prazer para um escritor do que ver seu livro pronto, estalando de novo. Bonito. Cheiroso. Ao colocar cada um deles nos braços, senti uma intensa emoção. Tão forte quando coloquei meus filhos no colo pela primeira vez.

 

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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