Sumidouro, a pérola perdida de Nova Friburgo

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Poucos sabem, mas o município de Sumidouro pertencia a Nova Friburgo no século 19, que possuía um território quase três vezes maior do que nos dias de hoje. Eram quatro as suas freguesias, a de São João Batista, sede da vila, Nossa Senhora da Conceição do Paquequer, São José do Ribeirão e Nossa Senhora da Conceição do Ribeirão da Sebastiana.

Neste artigo destaco a freguesia que na minha opinião tinha, entre as outras, maior importância econômica, a de Nossa Senhora da Conceição do Paquequer, conhecida igualmente como Sumidouro. Explico o porquê desta segunda alcunha. O sumidouro das pedras é um sorvedouro das águas, fenômeno muito raro e que encanta. Em um determinado ponto o Rio Paquequer desaparecia sob um leito de pedras percorrendo um trecho subterrâneo até aparecer novamente à frente e aos borbotões. Esse fenômeno do sumiço ou sumidouro das águas infelizmente não existe mais.

A economia de Sumidouro girava com a plantação de café e a produção de açúcar em inúmeros engenhos. Para as margens do Paquequer se dirigiram alguns colonos suíços e mais ao fim do século 19 imigrantes italianos. No período do Império, Sumidouro gerou uma nobreza da terra, o Barão de Aquino. Era proprietário das fazendas Santa Mônica, Santa Maria, Itororó, Conceição do Pinheiro e Areias em Pirapitinga de Itaperuna. Com a crise cafeeira, os descendentes de colonos suíços que para Sumidouro imigraram adquirem as mais importantes propriedades rurais.

A Fazenda Conceição do Pinheiro foi adquirida por Regino Monnerat e a Fazenda Bela Vista pelos Wermelinger. Dando um salto adiante quem adquiriu a Fazenda Mônica foi o médico friburguense dr. Dermeval Barbosa Moreira. Não obstante indivíduos escravizados serem em maior número na Freguesia de São José do Ribeirão do que em Sumidouro, ainda assim reputo esta última freguesia como a de maior expressão econômica para Nova Friburgo.

Minha suposição não se baseia em dados econômicos, pois ainda não os temos pesquisados, mas em observações empíricas. Sumidouro possui inúmeras casas de vivenda das fazendas de café do Império mantidas felizmente até hoje. Não localizei em nenhuma das outras freguesias de Nova Friburgo semelhante patrimônio histórico. No ano de 1881, Nova Friburgo perdeu a freguesia de Sumidouro gerando resistência entre os representantes do município. Não constatei o mesmo protesto quando Nova Friburgo perdeu a freguesia de São José do Ribeirão.

Na ocasião houve muita discussão na assembleia provincial sobre a criação de um novo município, a vila do Carmo, formado pelas freguesias de Nossa Senhora do Monte do Carmo, desanexada do município de Cantagalo e Nossa Senhora da Conceição do Paquequer (Sumidouro), desanexada de Nova Friburgo. A Câmara Municipal de Friburgo impugnou a desanexação já que “...era aquela freguesia a parte mais importante do termo”, conforme o Jornal do Commercio, de 1887, edição 00209.

Curiosamente Cantagalo não fez objeção à perda de sua freguesia e apoiou a iniciativa. O deputado Matheus Fortes que representava Friburgo protestou declarando que se Cantagalo estava farto de muitas e ricas freguesias, que não viesse turbar a vida pacífica de Nova Friburgo. Ainda segundo ele, “Friburgo é uma comarca que conta com quatro freguesias e a mais importante delas é a de Sumidouro...”

A criação de um município às margens do rios Paraíba e Paquequer tendo por sede a povoação do Carmo era um desejo de longa data. Os residentes nas freguesias de Nossa Senhora do Monte do Carmo e Sumidouro alegavam que tinham população suficiente para se constituírem em município e possuíam importante lavoura e comércio. Argumentaram que ficavam ambas muito distantes das sedes de Friburgo e Cantagalo, nove e sete léguas, respectivamente.

Por outro lado, havia o inconveniente de percorrer longas distâncias para requerer a Justiça, realizar o pagamento dos direitos à fazenda nacional e prestar o oneroso encargo de jurado. As duas freguesias eram limítrofes e a sede da freguesia do Sumidouro distava duas e meia a três léguas da sede da freguesia do Carmo, havendo um caminho fácil e por boa estrada de rodagem. Já as estradas que ligavam estas duas freguesias às sedes de Cantagalo e Friburgo eram precárias em razão das dificuldades que ofereciam as serras do Quilombo, em Cantagalo, e da Cascata em Nova Friburgo.

O juiz de Direito de Cantagalo, José Alves de Azeredo Magalhães, deu parecer favorável a criação do novo município alegando que a freguesia do Carmo mantinha somente relações do foro, do júri e da coletoria com Cantagalo. De fato, não havia relações comerciais entre Carmo e Cantagalo. Os produtos de sua lavoura eram transportados pela Estrada de Ferro D. Pedro II, na estação do Porto Novo do Cunha, não fazendo uso da linha férrea de Cantagalo.

A lei de 13 de outubro de 1881 autorizou a desanexação da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Paquequer (Sumidouro) do termo de Nova Friburgo. Em 1890, esta freguesia desmembra-se de Carmo e ganha o predicado de município. Dois anos depois sofreu uma perseguição política e o município foi suprimido. Uma parte passou a pertencer a Carmo, outra a Duas Barras e uma terceira a Sapucaia. No entanto, no mesmo ano, em 1892, foi restabelecido o município de Sumidouro, a pérola perdida de Nova Friburgo.

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    Fazenda Santa Cruz, a pérola perdida de Nova Friburgo

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    Rara imagem da Fazenda Itororó, do Barão de Aquino. Acervo Romildo Pires Machado.

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    Sumidouro preserva as casas de vivenda do Império.

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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