Presença libanesa na região

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Os libaneses vislumbraram na emigração uma alternativa para sair do jugo dos turco-otomanos. O seu destino principal foi a América. Tudo indica que o Brasil possui o maior número de imigrantes libaneses tendo chegado ao país no último quartel do século 19. Como viviam sob o domínio turco-otomano e seus passaportes expedidos por esse governo, a população os chamava de turcos, o “turco da lojinha”. Em Nova Friburgo libaneses e sírios se estabelecem no município no final daquele século. Depois de mascatearem se sedentarizaram. Eram quase a maioria dos lojistas na Rua Alberto Braune, a principal via de comércio da cidade.

De início, não havia especialização dos artigos e vendia-se de tudo em suas lojas, como foi o caso da Casa Libanesa. Os “turcos” de início tiveram problemas de adaptação em Nova Friburgo. O periódico O Friburguense, na matéria “Abuso”, de 21 de junho de 1903, fez críticas a estes imigrantes. Estabelecendo-se muitos deles na estação de trem do Rio Grande, hoje o distrito de Riograndina, os que ali mascateavam recusavam-se a pagar o imposto de profissão à Câmara Municipal.

Além do comércio ambulante, um deles possuiu um salão de bilhar. Morigerados, há referência de que emprestavam dinheiro a juros. A primeira forma de organização dos libaneses teve início em 19 de julho de 1919, quando foi criado o Centro Líbano-Friburguense com o intuito de irmanar os conterrâneos, prestar auxílio mútuo e promover a sociabilidade entre os seus pares. O cronista e articulista Arthur Guimarães que visitou Nova Friburgo no início do século 20 escreveu o livro intitulado “Um Inquérito Social em Nova Friburgo”.

Guimarães, referindo-se aos sírios e libaneses, nos informa que dominaram o comércio de fazendas, armarinhos e modas. “Eram muitas e todas afreguesadas às casas sírias na cidade. Devem expansão aos segredos de viver gastando o mínimo possível e suportando o máximo desconforto...” Em 1925, foi criado o Clube Sírio e Libanês substituindo o Centro Líbano-Friburguense. Era localizado na Praça Getúlio Vargas, promovia a sociabilidade entre os seus associados e notadamente atividades esportivas criando um time de futebol. A famosa vinheta "Brasil-sil-sil!" foi criada pelo libanês Edmo Zarife, nascido em Nova Friburgo, em 15 de dezembro de 1940. Zarife trabalhou por um período na Rádio Friburgo AM, sendo posteriormente contratado pela Rádio Globo. O radialista e locutor se tornou a voz-padrão de chamadas e vinhetas da empresa. 

O surgimento da vinheta "Brasil-sil-sil” interpretada por Edmo Zarife marcou as transmissões esportivas do Sistema Globo de Rádio e da Rede Globo de Televisão. Surgiu na época das eliminatórias da Copa do Mundo de 1970. Na ocasião, foi solicitado a Edmo Zarife elaborar um grito de guerra para incentivar a seleção brasileira. A direção da rádio ao ouvir "Brasil-sil-sil!" imediatamente selecionou essa frase. E assim nasceu a vinheta que atravessa vários jogos da Copa do Mundo e ouvida por muitas gerações até os dias de hoje.

Outro libanês que se destacou como comentarista esportivo em Nova Friburgo foi Rodolpho Abud. O nome da Rua Monte Líbano, no centro da cidade, foi provavelmente influência de um libanês. Conforme o levantamento realizado por Leyla Lopes são essas as famílias que se estabeleceram em Nova Friburgo. Abib, Abdo, Abicalil, Abdala, Abinasser, Abirachid, Adip, Abi-Râmia, Aboumurad, Abbud, Abrahão, Alcoury, Alexandre (Skandar), Ailmel, Amim, Assad, Assaf, Assef, Assum, Ayd, Auad, Aucar, Ayub, Aziz, Badin, Barucke, Boutros, Baduhy, Bedran, Bechara, Boechen, Boulos, Buaiz, Beyruth, Calil, Cannan, Carim, Chaloub, Cheade, Chible, Chicre, Chini, Chequer, Caled, Coury, Cury, Daher, Deccache, Dagfal, David, Derzi, Dib, Elias, Estefan, El-Jaick, Fadel, Farah, Feres, Ferreira (o nome original é Haddad, aquele que trabalha com o ferro), Francis, Gandur, Gastim, Gazé, Gazel, Gervásio, El-Haber, Harb, Gibran, Helayel, Haddad, Hissi, Ibrahim, Iunes, Jabour, Jamal, Jana, Japor, Jasbicke, Jorge, Kazan, Keidh, Jadah, Khaled, Kharan, Koury, Lopes (ou Lêpus), Mansur, Mattar, Miled, Miguel, Mussalém, Mussi, Marum, Nacif, Nader, Neder, Name, Namen, Nasser, Noé, Osório, Pedro(o mesmo que Boutros), Quinan, Rafidi, Râmia, Saad, Saade, Sada, Sader, Saleme, Salles, Salomão, Salim, Sarruf, Sayech, Suaid, Simão, Estefan, Santos(ou Acoubb), Tanis, Tanusse, Theme, Tupogi, Tanure, Zarife e Ziede.

Os libaneses também se estabeleceram em outros municípios das regiões Serrana e Centro-Norte fluminense. Em Cantagalo, por herança atávica não se dedicaram a agricultura abrindo estabelecimentos comerciais depois de trabalharem como mascates. Imigraram para esse município as famílias Farah, Nacif, Abrahão, Mansur, Richa, Daher, Fadel, Abi Ramia, Habib, Zarif, Elias, Miguel, Nara, Adib e Yunes. Já em Laranjais, distrito de Itaocara, imigraram as famílias libanesas Elias, Sarruf, Nacif e Nagib.

A Vila Elias Jorge representa como os libaneses foram bem-sucedidos na região. A camisaria El Jaick é o comércio mais antigo de Nova Friburgo, seguido da Casa Libanesa. Mas é a Casa Libanesa que mantém a tradição do comércio como os seus ancestrais, a típica “lojinha de turco”, um túnel do tempo. Atualmente a comunidade libanesa de Nova Friburgo se organiza em torno Associação Cultural Líbano-Friburguense que promove em datas comemorativas uma missa maronita, normalmente na capela de Santo Antônio, em português e em árabe. Fica neste artigo um preito em solidariedade as vítimas da tragédia ocorrida semana passada no Líbano, na região portuária da Beirute.

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    A camisaria El Jaick é o comércio mais antigo de Nova Friburgo (Acervo Fundação D. João VI)

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    A Vila Elias Jorge representa como os libaneses foram bem-sucedidos em Laranjais (Acervo pessoal).

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    Famílias sírias e libanesas que se estabeleceram em Nova Friburgo (Acervo Leyla Lopes)

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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