Hanami, a tradicional festa da cerejeira

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 02 de julho de 2020

Na década de 1920, chegou à Nova Friburgo o primeiro imigrante japonês Tohoru Kassuga em busca de terras em clima temperado. Na chácara do Tingly, Kassuga iniciou uma plantação de caqui, fruta muito consumida no Japão. Em Campo do Coelho, terceiro distrito de Nova Friburgo, no passado, a lavoura de tomate e de outros legumes era rasteira, com muita perda em razão do contato direto com o solo que deixa o alimento mais vulnerável às pragas.

Se instalando nessa região, os japoneses ensinaram os agricultores locais a usarem estacas verticalizando a planta e com isso ganharam em produtividade. Igualmente introduziram as estufas, outra técnica da agricultura que ignoravam. No distrito do Campo do Coelho, os japoneses e seus descendentes mantêm suas tradições através de eventos que realizam em sua sede, com música, danças e a gastronomia típica japonesa. Uma forma de sociabilidade em que pode participar qualquer pessoa ainda que não pertença ao grupo.

Já faz parte do calendário de Nova Friburgo a majestosa festa das cerejeiras, o Hanami, promovida pela comunidade nipônica no mês de julho. A flor de laranjeira é símbolo da primavera no Japão. Hanami é como se denomina um costume tradicional japonês de contemplar ou apreciar a beleza das flores de cerejeira ou sakura, como é chamada naquele país. Várias espécies de cerejeiras florescem por todo o Japão geralmente em parques, templos e em outros espaços de sociabilidade. Em razão disso, as pessoas se reúnem nos parques com a família e amigos quando as cerejeiras começam a florescer.

O povo japonês cultiva a tradição do hanami reunindo-se aonde quer que as árvores florescendo sejam encontradas. A prática do hanami existe há milênios. O costume foi originalmente limitado à elite da corte imperial, mas logo foi adotado pelas classes populares.  Sob as árvores de sakura, as pessoas comiam e bebiam em alegres celebrações. A contemplação das flores de cerejeira tinha um simbolismo religioso. As pessoas acreditavam na existência de deuses dentro das árvores de sakura e faziam oferendas na raiz delas para pedir sorte e boas colheitas.

O sakura também foi considerado símbolo do amor onde as moças enfeitavam os cabelos com seu galho ou decoravam o quintal de suas casas com as flores para mostrar que estavam em busca de um amor. Na maior parte das grandes cidades como Tóquio, Quioto e Osaka, a época do florescer da cerejeira normalmente ocorre por volta do fim de março a meados de abril ou maio, dependendo da região.

O momento em que as flores de cerejeira florescem é muito especial para o japonês, pois elas duram apenas de uma semana a dez dias. Por isso, durante o Hanami, os japoneses chegam de manhã e costumam ficar até o anoitecer a fim de aproveitar ao máximo a beleza das flores, pois logo elas cairão das árvores. Existem mais de 100 espécies de sakura no Japão que variam de acordo com a cor das flores, folhas e tempo de floração.

O Festival Hanami com o tradicional piquenique sob as árvores repletas de flores de cerejeira igualmente é um momento de saborear os pratos típicos como o oniguiri, sushi, dango e o bentô, levados de casa, além de bebidas que vão desde chás a bebidas alcoólicas como cerveja e o saquê. O provérbio japonês "bolinhos em vez de flores” é uma ironia às pessoas que preferem comer e beber ao invés de admirar as flores. 

Existem vários significados para o hanami e o mais poético é o simbolismo da flor representando a brevidade da vida, devido à sua efemeridade. Poemas sobre as cerejeiras e as relacionando como uma metáfora para a própria vida, delicada e bela, embora efêmera e transitória, cuja floração dura apenas de dez dias, compara a flor com a brevidade da nossa existência.  Por esse motivo, a flor de cerejeira ganhou um lugar especial na cultura japonesa onde é retratada no artesanato, no origami, em pinturas, nas gravuras, nas estampas de seda dos quimonos, em moedas e até mesmo em insígnias militares.

Em Nova Friburgo, a Festa da Cerejeira é promovida tradicionalmente no mês de julho no Sítio Matsuoka, em Florândia da Serra, Conquista, terceiro distrito. No evento, geralmente são realizadas apresentações de dança tradicional japonesa como o Yosakoi Soran e o Bon-Odori, além de serem vendidos os tradicionais yakisoba, sushi, sashimi e tempurá. No entanto, nesse ano, por conta da pandemia, infelizmente o evento não será realizado. Uma pena!

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    A flor de laranjeira é o símbolo da primavera no Japão (Acervo AVS)

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    Em razão da pandemia não haverá a Festa da Cerejeira (Acervo Sítio Matsuoka)

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    O Hanami é promovido pela comunidade japonesa em julho (Acervo Sítio Matsuoka)

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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