Friburgo perde o seu último pracinha da Segunda Guerra

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Faleceu no último dia 15 o senhor Célio Mangia. Nascido em 1924, era descendente de imigrantes italianos das famílias Mangia por parte de pai e Rastreli de mãe. Como muitos italianos era morador no bairro das Duas Pedras.  Trabalhou na metalúrgica Ferragens Haga na seção de montagem de fechaduras. Nos fins de semana participava dos campeonatos de futebol jogando pelo time do Vila Nova.

Parecia ser um fim de semana como outro qualquer para Célio Mangia, mais um jogo de futebol no domingo no campeonato entre os bairros, uma forma de sociabilidade dos funcionários das fábricas. Seu time perdera de 1 a 0. Mas o pior ainda estava por vir. Após finalizar a partida, o técnico de seu time, Osvaldo, o chama, bate nas suas costas e mostrando um jornal lhe diz: “Você está na lista dos convocados para lutar na guerra”. Célio Mangia nos seus 19 anos teria que pegar o trem no dia seguinte, às 6h30 e se apresentar em Niterói, em um estabelecimento militar em frente as barcas.

O ano era 1944, quando o Brasil entrou na guerra enviando aproximadamente 25 mil homens, para ficar sob o comando dos norte-americanos. Célio Mangia embarcou no trem pagando sua passagem e chegou em Niterói juntamente com rapazes de Cantagalo, Cordeiro, Sumidouro, entre outros municípios vizinhos. Dali os recrutas foram encaminhados para o município de São Gonçalo. Tudo transcorreu muito rápido. Passou por um treinamento com armamento e instrução mecânica na Quinta da Boa Vista, depois foi para Benfica, Tijuca e finalmente foi encaminhado para a vila militar.

Nesses três meses, os recrutas não tiveram informação sobre nada. Certo dia, às 20h, quando já se preparavam para dormir receberam ordem para ficar em forma. Ficaram assustados. Entraram no trem em um vagão totalmente às escuras e partiram rumo ao porto. Saindo do vagão toparam com um imenso navio de guerra que parecia um edifício. Ficou alguns dias dentro desse navio e a cada dia chegavam mais soldados. Desde o momento do embarque e durante toda a viagem não sabiam para onde iriam. Não tinham informação alguma sobre o seu destino.

“Não adianta ter medo. Se está embarcado, só resta pedir a Deus para te ajudar e mais nada. Você não sabe nada, só recebe ordens, ordens, só ordens”, declarou Célio Mangia à época. Apesar de terem embarcado outros friburguenses, não interagiam muito entre si. Desembarcaram no Porto de Nápolis. Antes de entrarem no campo de batalha tiveram um tempo livre. Célio Mangia foi até Pompéia conhecer a cidade. Comprou uma lembrança, mas não pode levar para o Brasil, pois os norte-americanos impediram que trouxessem qualquer objeto.

Os recrutas recebiam um salário e Mangia optou que a maior parte fosse entregue na residência de seus pais. Nunca perguntou ao seu pai quanto recebeu no período em que serviu como soldado. Sob o comando norte-americano, Célio Mangia informou, na ocasião, que os militares eram muito rigorosos, mas extremamente organizados. Podiam de vez em quando tomar banho, tinham sabonete, roupa limpa, comida enlatada, chiclete e cigarro à vontade. “A gente só recebe ordens, a gente só é mandado, você não sabe de nada, você só sabe a ordem do dia... Na guerra, você não faz o que quer, tudo é esquematizado... você não pode dar um tiro sem autorização, você não pode fazer nada sem o comando... dá os seus contratempos, mas você sabe o que está fazendo”, relatou aos amigos.

Mangia ficava na companhia de manutenção de automóveis. Tinha a infantaria conhecida como os “pés de poeira” que ficam dentro de um “buraco”. Era onde morriam mais soldados, pois ficavam no front da guerra. “Eu fui fazer uma inspeção... entrei lá onde eles estavam presos, um alemão, um garoto como eu e ele disse assim, que ideal é esse que nós estamos defendendo aqui, o ideal dos maiores, nós largamos o nosso pai, a nossa mãe lá na nossa terra. O alemão falou comigo em castelhano: Ô rapazinho, nós estamos defendendo o que?” Os inimigos usavam muito as mulheres e os padres como espiões para pegarem informações com a tropa. Aproximavam-se fazendo perguntas, mas eles já estavam alertados sobre isso. As tropas aliadas faziam o mesmo, se disfarçando de mendigos para obter informações. Os brasileiros foram muito bem recebidos pelos italianos, “faziam camaradagem muito rápido.” Os norte-americanos tinham tropas separadas formadas por homens brancos e negros, que não interagiam. Estranharam que os brasileiros misturavam homens brancos e negros no batalhão. Os italianos nunca tinham visto pessoas negras e tiveram medo”, informou Mangia.

A Segunda Guerra Mundial foi um conflito que durou de 1939 a 1945, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. Após a guerra, o povo friburguense fez uma subscrição para edificar um obelisco com os nomes de todos os ex-combatentes do município. Nova Friburgo enviou 67 soldados para a guerra. Apenas um deles faleceu, Antônio Moraes, e uma homenagem à ele se destaca no obelisco.

Aproveito a oportunidade para fazer um apelo às autoridades para que esse obelisco retorne ao Largo dos Expedicionários, na Praça do Suspiro, saindo das instalações do Tiro de Guerra para que a população tenha acesso a esse monumento. Sem a visibilidade do obelisco, nossos pracinhas ficarão no esquecimento.

Célio Mangia foi o último pracinha friburguense a falecer, aos 96 anos de idade. Tive o privilégio de em duas entrevistas deixar registrado em áudio visual nossa conversa sobre o cotidiano de um soldado durante a guerra. Paz a sua alma.  

  • Foto da galeria

    Célio Mangia aos 19 anos de idade. (Acervo da família)

  • Foto da galeria

    Inauguração do obelisco no Largo dos Expedicionários (Acervo pessoal)

  • Foto da galeria

    Nova Friburgo enviou 67 soldados para a guerra, entre eles Celio Mangia (Acervo pessoal)

  • Foto da galeria

    O obelisco fica nas instalações do Tiro de Guerra (Acervo pessoal)

Publicidade
TAGS:
Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.