Fazenda São Clemente (Parte 1)

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Centenário de aquisição pelo clã Monnerat

Originária de Portugal, da Freguesia de Ovelha do Marão, Santa Maria de Aboadela, a família Clemente Pinto tem como patriarca João Clemente Pinto (1723-1796). Entre os seus sete filhos, seu homônimo, João Clemente Pinto (1752-1819), emigra para o Brasil em data ainda desconhecida e se estabelece em 1803, na capitania de Minas Gerais. Exerce a função de alferes da Companhia de Ordenança do distrito da Capela de São Roque de Canastra, termo da Vila de São Bento de Tamanduá, hoje município de Itapecerica.

A exploração do ouro de aluvião nos córregos dos rios Grande e Negro no Vale do Paraíba fluminense, possivelmente foi o que motivou o alferes a se estabelecer nos sertões do Macacu, na capitania fluminense. João Clemente Pinto, casado com Teresa Joaquina da Silva Pinto obteve no ano de 1809, naqueles sertões, uma concessão de terras denominada de sesmaria doadas pelo vice-rei a homens de cabedais. Essa sesmaria estava localizada nas cabeceiras de um ribeirão no qual João Clemente Pinto batiza de Ribeirão de Nossa Senhora das Areas.

A obtenção da Carta de Ordem de Sesmaria se concretizou em 11 de maio de 1812 e dois anos depois, os sertões do Macacu receberam o predicado de município de São Pedro de Cantagalo. Outros membros da família Clemente Pinto igualmente emigraram para o Brasil. Tudo indica que o sobrinho de João Clemente, Antônio Clemente Pinto, futuro 1º barão com honras de grandeza de Nova Friburgo chegou ao Brasil no ano de 1807, com 12 anos de idade.

Em 1819, no entanto, João Clemente Pinto faleceu, sete anos depois de ter obtido a concessão de sesmaria. O filho do casal, Francisco Clemente Pinto (1803-1872), igualmente alferes, solicitou uma sesmaria nessa região em 1822, ano em que essa modalidade de aquisição de terras foi extinta no país. Os Clemente Pinto, entre 1809 e 1822 já eram proprietários de três sesmarias, pois Dona Teresa Joaquina da Silva Pinto havia igualmente solicitado esse benefício na mesma ocasião que o marido.

Os sesmeiros dessa região, depois de esgotado o ouro de aluvião migraram sua atividade econômica para a produção de alimentos como milho, feijão, cana-de-açúcar, fabricação de toucinho e criação de gado. Exportam os produtos de sua lavoura para o Rio de Janeiro, por meio de tropas de mulas. Paulatinamente, o café migra dos arredores do Rio de Janeiro para o Vale do Paraíba fluminense e as fazendas de Cantagalo se tornaram importantes unidades de produção contribuindo com significativa parcela na exportação para o exterior.

Francisco Clemente Pinto tornou-se um rico cafeicultor e proprietário de dez fazendas. Além da fazenda São Clemente era proprietário de Matta Porcos e Bella Vista, para citar apenas as mais importantes. Francisco Clemente Pinto recebeu o título de comendador da Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e oficial da Imperial Ordem da Rosa. Com o falecimento do comendador, a Fazenda São Clemente foi herdada pelo seu sobrinho homônimo.

Francisco Clemente Pinto nasceu em 11 de setembro de 1843 e fez os seus estudos de engenharia na Bélgica. Casou-se com Eulália Amélia de Oliveira Barcelos, que passou a chamar-se Eulália Clemente Pinto, com quem teve nove filhos. A Fazenda São Clemente, localizada em Boa Sorte, 5º distrito do município de Cantagalo tinha em seu apogeu uma área de 700 alqueires. No ano de 1883, há o registro de que possuía 750.000 pés de café e a força de trabalho de 177 escravos. Era uma das mais importantes unidades de produção de café do município de Cantagalo. Foi visitada pelo Barão Johann Jakob Von Tschudi, pelo imperador D. Pedro II, em 26 de fevereiro de 1876 e pelo dr. Luiz Monteiro Caminhoá.

No último quartel do século 19 teve início a decadência da produção de café no Vale do Paraíba fluminense. Alguns fatores concorreram para esse declínio como o esgotamento do solo, o surgimento de pragas nas lavouras, a abolição da escravidão e a crise do Encilhamento na República. Consequentemente alguns barões do café, ou seus descendentes, foram perdendo suas fazendas por dívida, em leilões.

A Fazenda São Clemente superou a crise produzindo café de boa qualidade, participando da Exposição Universal Colombiana de Chicago, realizada em 1893, tendo sido inclusive premiada. A Exposição de Chicago havia sido idealizada para celebrar o quatrocentésimo aniversário da descoberta da América por Cristóvão Colombo. Entretanto, no ano de 1907, o engenheiro Francisco Clemente Pinto se viu obrigado a recorrer a um empréstimo hipotecário, junto ao Banque Belge de Prêts Fonciers, com sucursal na cidade do Rio de Janeiro. Como não conseguisse honrar com o pagamento do financiamento perdeu a fazenda para o banco, arrematada pelo coronel José Affonso Fontainha Sobrinho. Francisco Clemente Pinto faleceu em 1921.

Fonte: Pesquisa de Marcelo Monnerat. Continua na próxima quinta-feira.

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    A Fazenda São Clemente possuía 750.000 pés de café e a força de trabalho de 177 escravos ( Acervo pessoal)

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    A família Clemente Pinto é originária de Santa Maria de Aboadela, em Portugal ( Acervo pessoal)

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    Casa sede da Fazenda São Clemente, em Cantagalo (Acervo pessoal)

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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