Conhecendo o Centro de Memória Martin Nicoulin na Fazenda Santan

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O retorno do historiador suíço Martin Nicoulin a Nova Friburgo na semana passada foi por um motivo nobre. Ele veio para o lançamento do livro “Teia Serrana 2, novos temas, novas abordagens”. Martin Nicoulin é um historiador suíço que escreveu o antológico livro “A gênese de Nova Friburgo” que trata da imigração de colonos suíços para o Brasil, no século 19, cuja obra motivou a produção de outras publicações, algumas partindo de seu livro.

Martin sempre foi um incentivador dos historiadores locais e ambos os volumes de Teia Serrana tiveram o seu apoio, assim como a busca de recursos para a sua publicação. No dia seguinte ao lançamento, o simpático e carismático historiador suíço foi até a Fazenda Santana, em Cantagalo, inaugurar um Centro de Memória em sua homenagem. A iniciativa partiu do atual proprietário da fazenda, o médico Renato Monnerat.

A Fazenda Santana era um latifúndio produtor de café com imensa importância no século 19, pertencente aos Sousa Brandão, os barões de Cantagalo. Médico e produtor rural Augusto de Souza Brandão, o segundo Barão de Cantagalo, plantava na Fazenda Santana café do tipo java, maragojipe, Libéria e marta. Sua propriedade tinha uma dimensão aproximada de 800 alqueires com 1,5 milhão de pés de café.

Durante uma visita de um grupo de suíços à Fazenda Santana, por ocasião do bicentenário de Nova Friburgo, presenciei uma situação interessante. Quando Renato Monnerat explicou que a dimensão dessa propriedade no passado era de 800 alqueires, o prefeito de um dos cantões se espantou e disse, “Era maior que o meu cantão”. Lembrando que cabem 142 Suíças em todo o território brasileiro. Todo o trabalho era realizado por 295 escravos. No entanto, com o fim do trabalho escravo o segundo Barão de Cantagalo se vê diante de uma crise financeira e bem endividado por falta de braços na lavoura.

José Heggendorn Monnerat, dono de diversas propriedades rurais arrematou a Fazenda Santana no ano de 1900, em leilão em praça pública. A família Monnerat era nessa ocasião uma das maiores fortunas da Região Serrana, provavelmente superando os Clemente Pinto, filhos do primeiro Barão de Nova Friburgo. Na sucessão hereditária a Fazenda Santana ficou pertencendo a Sebastião Monnerat Lutterbach que manteve a produção de café, mas diversificou sua atividade econômica com a lavoura branca e a criação de gado leiteiro da raça guzerá.

Introduziu ainda na fazenda uma fábrica de laticínios produzindo manteiga, queijo e requeijão com a marca Santana. O tetraneto de Sebastião Monnerat Lutterbach, o médico Renato Monnerat adquiriu essa fazenda dos herdeiros pois é um apaixonado pela história da diáspora de sua família para Cantagalo. Renato Monnerat descende de um único tronco familiar dos Monnerat.

O patriarca François Xavier Monnerat, sua esposa e sete filhos partiram da Suíça chegando ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1820. Seguiram para a Vila de Nova Friburgo se estabelecendo no distrito colonial. Em 1837, somente 17 anos após a sua chegada, a família adquiriu a Fazenda Rancharia, hoje situada no município de Duas Barras e que na ocasião era Cantagalo.

Além de se dedicarem ao cultivo do café eram igualmente tropeiros. Atualmente a extensão da Fazenda Santana é bem menor do que fora no passado em razão de seu desmembramento. Martin Nicoulin ficou encantado com a propriedade. Estava surpreso com a trajetória dos Monnerat ao longo do século 19, e da aquisição pela família de tantas propriedades na região. Não faltou emoção tanto de Martin Nicoulin quanto de Renato Monnerat ao inaugurarem o Centro de Memória em que criador e criatura se confraternizaram. Martin o criador da história das famílias suíças e Renato a criatura, descendente do patriarca François Xavier.

O Centro de Memória da Fazenda Santana tem dois pavimentos. Em uma das instalações está exibido o antigo maquinário da fazenda como o engenho de fubá, o descaroçador de feijão, as imensas caixas de madeira em que era depositado o açúcar fabricado, os instrumentos de arado, entre outras preciosidades. Martin Nicoulin sempre espirituoso fez questão de tocar nos grãos de café expostos simbolicamente no Cento de Memória exaltando que foi esse o produto que fez a fortuna de alguns colonos suíços.

Uma das perguntas que fiz à ele nessa ocasião foi de como explicava quão os Monnerat haviam amealhado tamanha fortuna algumas décadas depois de sua chegada a Cantagalo. Ele deu uma explicação simples. Foram duas as condições favoráveis. As terras férteis da região e o cultivo do café, o ouro verde, o principal produto de exportação do Brasil Império. 

  • Foto da galeria

    A família Monnerat recebe Martin Nicoulin na Fazenda Santana

  • Foto da galeria

    Martin Nicoulin em momento de descontração na Fazenda-Santana

  • Foto da galeria

    O café proporcionou a riqueza dos Monnerat em Cantagalo

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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