Breve história das trocas alimentares

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 06 de agosto de 2020

Os portugueses foram importantes agentes de dispersão, trazendo plantas e animais para o Brasil, assim como exportando dessa colônia para suas outras possessões. Neste artigo vamos nos limitar apenas às frutas, hortaliças, legumes, bulbos e especiarias. Eram nativos do Brasil o caju, o mamão, o maracujá e o abacaxi que foram levados para Goa, na Índia, vindo de lá a manga.

Algumas espécies africanas e asiáticas aclimatadas em Portugal foram enviadas para o Brasil como a laranja, o limão, o gergelim e o arroz. O cacau da América espanhola seria somente introduzido e cultivado no sul da Bahia em 1780, mas levaria mais de um século e meio até se tornar um produto de exportação.

De todos os produtos coloniais o mais valioso era a cana-de-açúcar plantada para render um excedente para exportação. Vieram diretamente do continente africano o inhame, a banana, o coqueiro, o dendê, o gengibre, o quiabo, o feijão-fradinho, a mamona, o caruru e a bertalha. No século 19, a região de Macaé de Cima era conhecida como terras dos inhames, mas também há referência da localidade de Inhames no primeiro distrito de Nova Friburgo.

Essa iguaria que significa “comer” vem de ñame, iñame, igname, yame, yam, yams até chegar a inhame. Do Brasil, poucas espécies foram encaminhadas para a África a exemplo do amendoim, do abacaxi e da mandioca. Este último produto, como no Brasil, se torna um gênero de primeira necessidade no continente africano. Os portugueses também trouxeram para o Brasil o marmelo, o figo, o damasco, o pêssego, o melão, a pera, a tâmara e a romã. No final do século 19 há o registro de cultivo de pera, maçã, nozes, cereja, marmelo, amora e uva nas terras frias, hoje distrito do Campo do Coelho, dando-lhe uma paisagem que se assemelhava às planícies europeias.

 Nossas florestas, contudo, eram prolíficas. Eram frutos da floresta que deixaram de ser comercializados mocuguê, sapucaia, pitomba, araçá, ibacurupari, ibanemixama, imbu, araticum, guri, caía, iapina, audá, ingá, juá, maçaramduba, murici, ibaraé, guabiraba e guabiroba. Da cabreúva e da copaíba se extraíam bálsamos aromáticos.

Dois terços dos nomes das árvores, plantas, animais, rios e topônimos são de origem tupi-guarani. Sapucaia vem do tupi “fruto que faz saltar o olho”. Esses frutos são cápsulas lenhosas, contendo sementes semelhantes a castanhas e são comestíveis. O africanismo era igualmente aplicado a nomes de lugares e acidentes geográficos como murundu e cafundó e de animais como camundongo e marimbondo.

O luso-brasileiro importou do dialeto quimbundo o nome de um alimento proveniente do milho, o fubá, que faz o prato denominado de angu. O milho era muito cultivado em Nova Friburgo e comercializado para alimentar as tropas de muares. Os colonos suíços contribuíam com a economia local principalmente com a cultura do milho e subsidiariamente com o plantio de batata, feijão e a produção de mantas de toucinho, influência da charcuterie portuguesa.

Por falar em fubá, em São Pedro da Serra fazia-se o “brissi”, uma massa de fubá com torresmo e assada no forno. Na década de 1830, o município de Nova Friburgo cultivava café, milho, cana-de-açúcar, feijão, batata, arroz, tabaco, mamona, realizando-se experiências na produção de chá, trigo, centeio e com criação de gado bovino e mulas. D. João VI trouxe o chá contratando especialistas chineses para ensinar o seu plantio.

Um oficial português, Luiz d’Abreu, capturado pelos franceses e preso nas ilhas Maurício, conseguiu fugir e roubar algumas sementes antes de deixar a ilha. Veio para o Rio de Janeiro em 1809 trazendo em sua bagagem sementes de cravo, canela, noz-moscada, damasco, castanha, fruta-pão, cânfora, toranja, abricó, abacate, sagüeiro e cajá-manga. Presenteou D. João VI com a Roystonea oleracea, uma palmeira nobre de altura imponente que passou a ser plantada nas fazendas dos aristocratas do café.

De origem asiática os portugueses trouxeram o chuchu, a jaca, o jambo-rosa e a soja. O nome local para a soja era “amendoim de Angola” sugerindo uma transferência via África. Igualmente recebemos do colonizador hortaliças como mostarda, chicória, couve, acelga, espinafre, alface, salsa, hortelã, cebolinha, legumes como berinjela, abóbora, nabo, cenoura, repolho, pepino e temperos como cominho, cebola, alho, colza, endro, açafrão, coentro, pimenta do reino, canela e rosas para a água medicinal. Não faltaram as uvas e o trigo.

Crisophyllum imperiale ou guapeba imperial era a fruta preferida de D. Pedro I e D. Pedro II. Nativa da Mata Atlântica entre o Rio de Janeiro de Minas Gerais está ameaçada de extinção. Durante o Segundo Império já era rara pelo fato da madeira ser utilizada na construção de navios. Uma árvore que me encantou quando visitei a histórica Fazenda Canteiro foi a de urucum, utilizado como tempero e que os indígenas faziam uso para pintar o corpo.

Na também histórica Fazenda São Clemente tive a oportunidade de experimentar a ameixa-de-madagascar no pomar-parque que possui árvores frutíferas de países africanos e asiáticos, importados no século 19. Nativa da África tropical e de Madagascar são saborosíssimas, com a polpa muito suculenta. Seus frutos são arredondados de cor inicialmente vermelha, depois purpúreo-escura quando maduros. O arbusto era utilizado pelo paisagista Auguste François Marie Glaziou, que servia a Imperador D. Pedro II e que projetou esse pomar-parque.

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    Flor e fruto da sapucaia na Fazenda São Clemente (Acervo: Marcello Monnerat)

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    Na Fazenda Canteiro me encantei com a árvore de urucum (Acervo pessoal)

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    Na Fazenda São Clemente experimentei a ameixa de madagascar no pomar-parque (Acervo pessoal)

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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