O julgamento marcado no Supremo Tribunal Federal (STF) para a próxima quarta-feira, 6 de maio, da lei que prevê alteração na distribuição dos recursos dos royalties do petróleo no Estado do Rio de Janeiro vêm mobilizando uma união de forças de políticos e entidades fluminenses. Na terça-feira, 28, a Assembleia Legislativa do estado (Alerj) promoveu uma audiência pública para debater a polêmica e o presidente da casa, o deputado estadual Douglas Ruas (PL) anunciou que vai se encontrar nos próximos dias com o presidente do STF, ministro Edson Fachin, para entregar um manifesto em defesa dos royalties do Rio de Janeiro. A Alerj lidera um movimento para que a lei 12.734/12 seja considerada inconstitucional.
Caso a norma seja validada, o Estado do Rio, que hoje recebe cerca de 40% do valor pago à União pelas empresas produtoras de petróleo, terá que distribuir esses recursos com os demais estados
Ruas observa que essa alteração for aprovada pelo STF, vai gerar um efeito catastrófico com uma perda anual de receita ao Estado do Rio na casa de R$ 22 bilhões; um impacto em torno de R$ 9 bilhões para o Governo do Rio e quase R$ 13 bilhões aos municípios produtores de petróleo.
O documento, produzido pela Comissão de Orçamento da Alerj - que aponta os prejuízos para o Estado e reivindica justiça federativa - foi lido durante o encontro, que contou com a participação e apoio de mais de 20 prefeitos de municípios produtores (e não-produtores) de petróleo, do procurador-geral do Estado, Renan Miguel Saad, e do secretário estadual de Fazenda, Juliano Pasqual, entre outras autoridades. Pasqual classificou a possibilidade de mudança na distribuição dos royalties como uma “sentença de morte” para o Estado do Rio.
“Esse é sem sombra de dúvidas o tema mais urgente para o Estado do Rio de Janeiro no momento e tem causado muita preocupação a todos. Temos que nos unir para defender o que é nosso por direito. E saímos dessa reunião com um discurso alinhado de que essa lei - que modifica a distribuição dos royalties - é inconstitucional, segundo a Procuradoria Geral do Estado", pontuou Douglas Ruas.
O manifesto que será entregue ao ministro Fachin conta com a assinatura dos 92 municípios do Estado, presidentes dos poderes Legislativo e Judiciário, bem como pelo governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto, além dos representantes das federações das Indústrias do Estado (Firjan) e do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-RJ). O presidente da Comissão de Orçamento da Alerj, deputado estadual André Corrêa (PSD), também destacou a grande importância desse manifesto coletivo.
“O objetivo desse comunicado é sinalizar a posição política do Estado para a população e para a União. Essa medida afeta fortemente o custeio do Rio de Janeiro. Independentemente de qualquer corrente partidária, os setores político e produtivo do Rio estão unidos", afirmou Corrêa.
O parlamentar leu o documento que pontua em determinado trecho a principal razão dessa luta em defesa dos royalties do Estado: “O Rio de Janeiro não pleiteia privilégios. Reivindica, tão somente, justiça federativa, coerência constitucional e o reconhecimento de sua contribuição estratégica para o país”, frisou Corrêa.
Entenda o caso
A distribuição dos royalties está prevista na Lei da Partilha (12.351/10), que foi modificada em 2012, transformando-se na lei 12.734/12. No entanto, desde 2013 as novas regras estão suspensas por decisão provisória da ministra Carmen Lúcia, do STF, que manteve o modelo atual de distribuição.
No próximo dia 6 de maio, porém, o STF vai analisar a constitucionalidade dessa lei de 2012 por meio de Ações Diretas de Inconstitucionalidade. Caso a norma seja validada, o Estado do Rio, que hoje recebe cerca de 40% do valor pago à União pelas empresas produtoras como compensação financeira pela exploração do petróleo, terá que distribuir esses recursos com os demais estados, reduzindo drasticamente a sua participação como o maior produtor de petróleo do Brasil.
Aniquilação econômica do estado
O procurador-geral, Renan Miguel Saad, que será o advogado do Estado do Rio no julgamento, também reforçou que se essa medida for sancionada o Estado do Rio será aniquilado e que a norma, além de inconstitucional, não leva em consideração a regra de compensação financeira.
“Foi feito um pacto federativo com muitas falhas no qual o Rio sofreu a maior penalidade. O único produto tributado totalmente no destino foi o petróleo. Só em 2025 deixamos de ganhar R$ 25 bilhões, e em troca disso recebemos uma compensação financeira de R$ 11 bilhões. E isso provoca um problema em uma escala econômica que demonstra a necessidade de uma equalização dessa perda e estamos demonstrando isso na nossa petição", justificou.
Prejuízos acumulados
Segundo a Secretaria Estadual de Fazenda (Sefaz), em quatro anos o Rio perdeu R$ 71 bilhões por não poder realizar a tributação. O secretário Juliano Pasqual demonstrou em números o impacto financeiro da perda de royalties. De acordo com dados apresentados, a estimativa é que o Rioprevidência perca em média R$ 4,6 bilhões, que representa duas folhas mensais de aposentados e pensionistas. Já as áreas essenciais, como saúde, educação e segurança poderiam perder R$ 1,3 bilhão por ano, pois diversos fundos estaduais utilizam recursos dos royalties do petróleo.
“De hoje até 2032, é prevista uma perda acumulada de receita dos royalties em cerca de R$ 50 bilhões, caso a lei seja declarada constitucional. Isso representa um colapso social e operacional”, disse Pasqual.
Mais de 300 mil empregos em risco
O Rio de Janeiro concentra 85% das reservas brasileiras de petróleo e é responsável por cerca de 83% da produção nacional. O número já expressa a movimentação econômica que o setor provoca no Estado. Segundo o presidente da Fecomércio, Antônio Florêncio Queiroz, caso a lei entre em vigor o Rio poderá perder cerca de 311 mil postos de trabalho e consequentemente terá uma baixa no consumo.
“Essa compensação vai muito além do problema da arrecadação do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). No momento que você é um produtor de petróleo, você movimenta a economia, mas tem responsabilidades ambientais e estruturais com a população daquela região e, por consequência, mais gastos.
Esta lei, além de ser inconstitucional, também não resolverá a crise estrutural das finanças municipais e estaduais pelo país afora, mas certamente, vai provocar uma tragédia econômica para o Rio de Janeiro”, declarou.
Queiroz também destacou que o Rio de Janeiro sempre respeitou o pacto federativo, inclusive em momentos em que foi prejudicado por decisões semelhantes. Para ele, a atual proposta compromete não apenas as contas públicas, mas toda a dinâmica econômica do estado.
O prefeito de Resende e presidente da Associação Estadual de Municípios do Rio de Janeiro (Aemerj), Tande Vieira, ressaltou a importância da união de todos os municípios para fortalecer o manifesto: “Os prefeitos assumiram o compromisso também de cada um tentar usar seus canais de comunicação para divulgar boas práticas e o impacto positivo que o uso dos royalties tem na vida das pessoas. Quando a gente fala de royalties parece que é dinheiro usado com luxo, mas na grande maioria dos casos é um dinheiro que faz diferença enorme na vida das pessoas, em projetos importantes e estruturantes”, concluiu.
O que são os royalties do petróleo
Royalties do petróleo são uma compensação financeira paga mensalmente pelas empresas exploradoras aos governos Federal, estaduais e prefeituras, pela extração desse recurso natural não renovável. Os royalties funcionam como um “aluguel” pago à sociedade pela exaustão do recurso, servindo para reduzir impactos socioambientais.
Nesta terça-feira, 28, a Assembleia Legislativa do estado (Alerj) promoveu uma audiência pública para debater a polêmica (Foto: Alex Ramos)
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