“A tarifa poderia ser R$ 3 se não fossem as benesses políticas”

Sócio-diretor da Faol alfineta Johnny Maycon, diz que não veio para ganhar dinheiro, que hoje presta um serviço e confia em um acordo
quarta-feira, 17 de março de 2021
por Adriana Oliveira (aoliveira@avozdaserra.com.br)
Alexandre Colonese na coletiva: “Não sou mais concessionário, sou apenas um prestador de serviço” (Fotos: Henrique Pinheiro)
Alexandre Colonese na coletiva: “Não sou mais concessionário, sou apenas um prestador de serviço” (Fotos: Henrique Pinheiro)

Em três horas de entrevista coletiva nesta quarta-feira, 17, o sócio-diretor da empresa Friburgo Auto Ônibus (Faol), Alexandre Colonese, convocou a imprensa para esclarecer “deturpações e confusões desnecessárias” sobre a operação do transporte público no município. Foi, claramente, uma resposta às críticas desferidas pelo prefeito Johnny Maycon à empresa, em rede social, no último fim de semana.

Erros

Após relembrar suas origens como contador e fazer um histórico de sua entrada na empresa, Colonese admitiu alguns erros. Entre eles, não ter entregue formalmente a operação dos ônibus em setembro de 2018, quando terminou o contrato de concessão. Outro, não ter explicitado melhor, em contrato, o cálculo que leva à composição da tarifa, que é basicamente o valor do custo de operação dividido pelo número real de pagantes. “A prefeitura acha R$ 4,20 uma tarifa altíssima, mas isso não depende de mim”.

Segundo ele, na gestão do ex-prefeito Renato Bravo, a tarifa - hoje fixada em R$ 4,20 - era para ter chegado a R$ 4,41. Mas o então prefeito negociou baixá-la, pagando a diferença à empresa na forma de subsídios. Foram acertados R$ 700 mil, parcelados, que, depois de dois meses, deixaram de ser pagos por orientação do Ministério Público, já que não havia mais contrato.

Gratuidades

Para o equilíbrio econômico-financeiro da operação, Colonese propõe uma tarifa “contratual” de R$ 5,90: se a prefeitura achar por bem baixá-la, deve arcar com os custos dessa redução. “A tarifa poderia ser R$ 3 se não fossem as benesses políticas. Se a prefeitura quer gratuidade, tem que ajudar a pagar. Todo mundo deveria pagar, mesmo pouco, mas pagar. É pagando que se dá valor”, argumenta lembrando que a prefeitura deveria arcar com o vale-transporte dos servidores. Ainda segundo ele, o volume de passageiros caiu pela metade, de 1,2 milhão para 600 mil pagantes, depois da pandemia e das gratuidades. 

Johnny Maycon

Durante a coletiva, Colonese alfinetou a pouca experiência do prefeito Johnny Maycon: “Ele pode fazer pouco que já vai ser muito. Não tem que pensar mais no eleitor, mas na sociedade como um todo. Ele tem a caneta, não adianta sair batendo. Precisa olhar, ver e fazer. Precisa entender como funciona o setor privado, como funciona o setor público. Ele agora tem que servir a 190 mil patrões” (referindo-se à população de Friburgo).

Em janeiro, com a mudança de governo, Colonese abriu as portas da empresa para um grupo da prefeitura, que teve a oportunidade de ver de perto cada detalhe, planilhas e a sala de monitoramento dos ônibus que ele sonha instalar na Estação Livre. Em fevereiro, sugeriu à prefeitura assinar um contrato de prestação de serviços, abrindo mão até da remuneração pessoal: a prefeitura apenas cobriria os custos de operação da empresa. “Não sou mais concessionário, opero sem contrato desde setembro de 2018. Sou apenas um prestador de serviço”.

Amor à cidade

Colonese conta que veio trabalhar em Friburgo, como contador, aos 25 anos. Diz que é a sua segunda cidade, depois de Niterói. “Quero ganhar dinheiro quando disputar e ganhar a licitação. Agora quero apenas prestar o serviço, por amor à cidade. Não vim para ganhar dinheiro, não olho isso aqui como negócio. Nunca devi nada, jamais passei pelo que estou passando hoje”, diz ele, acrescentando que já desembolsou R$ 21 milhões e ainda deve mais de R$ 5 milhões de ISS, apesar de a prefeitura lhe dever R$ 7 milhões. 

Ainda em relação a números, ele reconhece dever à prefeitura R$ 334 mil de outorga, por um erro da antiga direção, e não R$ 4 milhões, como tem sido propalado. Diz que já entrou com ação na Justiça reivindicando mais de R$ 40 milhões por “tarifas políticas”, isto é, perdas com gratuidades.

Edital da licitação

O empresário também criticou duramente o edital por meio do qual o poder concedente já tentou por duas vezes realizar uma nova licitação para a concessão do transporte público. Os dois certames realizados na gestão anterior terminaram desertos e sem propostas. “Do jeito que está, o edital não interessa a empresa nenhuma, só pirangueiras” (interesseiras, aproveitadoras), afirmou. 

Contou ainda que se cansou de aportar recursos próprios. “Minha mulher pergunta quando eu chego em casa: já rasgou quanto de dinheiro hoje?” No fim de dezembro, não tinha como pagar o décimo-terceiro dos cerca de 500 funcionários (eram mil antes da demissão de cobradores). Foi socorrido por um amigo banqueiro, que lhe emprestou R$ 1 milhão. 

Tarifa única x quilômetro rodado

O empresário comentou que chegou a sugerir à prefeitura calcular a tarifa por quilômetro rodado, em vez de aplicar um valor único, “que não satisfaz nem trajetos curtos nem os mais longos: o passageiro prefere ir de Uber”. Ele lembra que a empresa já tem tecnologia para registrar o ponto de entrada e o de saída de cada usuário. Mesmo assim, assinalou, “alguém” vai ter que pagar a diferença para quem fizer o trajeto mais longo, para a passagem não ficar cara demais.

“A atual gestão entendeu ser o Ministério Público o melhor caminho para chegar a um entendimento. Não precisava”, acredita Colonese. Mesmo assim, já encaminhou à 1ª Promotoria de Tutela Coletiva do MP algumas alterações na proposta da prefeitura, como, por exemplo, a previsão de multa também para o poder público caso não cumpra com seus compromissos, como realizar nova licitação em até 180 dias, prazo máximo de vigência do contrato emergencial. O desfecho está previsto para a próxima semana.

Na proposta da Faol, a tarifa de R$ 5,90 refere-se a 745 mil passageiros, e a prefeitura cobriria eventuais diferenças. O cálculo não inclui a variação do preço do diesel, hoje responsável por até 50% dos custos da empresa, segundo ele, sem dissídios.

Deixar Friburgo

Por fim, indagado por A VOZ DA SERRA sobre o tamanho real do fôlego da empresa e quando de fato cogita sair, como ameaçou, disse que está disposto a encerrar a operação, mas acredita que vai se chegar a um consenso. “A prefeitura não vai encontrar outra empresa tão idônea”. E tranquilizou: “Se a Faol sair, todos - funcionários, bancos, fornecedores - serão pagos.

Uma longa viagem que volta sempre ao mesmo ponto

O transporte público de passageiros por ônibus em Nova Friburgo é o maior “abacaxi” que o governo Johnny Maycon herdou da gestão de Renato Bravo. Em outra metáfora pertinente, o impasse entre a municipalidade e a empresa Faol, que opera sem contrato desde setembro de 2018, é como uma longa viagem de ônibus que volta sempre ao mesmo ponto. A assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) intermediado pelo MP é a esperança de um consenso entre as partes. A ideia é assinar um contrato emergencial por pelo menos seis meses, até a realização de nova licitação no setor. 

Afogada em dívidas, a Faol opera cerca de 80 linhas urbanas de ônibus no município. Duas tentativas de licitação, durante a gestão do ex-prefeito Renato Bravo, terminaram desertas. A 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Nova Friburgo está analisando os documentos encaminhados pela Faol e pela Procuradoria Geral do Município (PGM) “com a maior brevidade possível”. A  questão ainda será submetida à 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva,  tendo em vista que o assunto trata de direito do consumidor. 

 

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