Desde o último domingo, 26, a Rua General Osório está com o tráfego de veículos em mão dupla e a mudança vem dividindo opiniões de moradores e motoristas que circulam pela via no centro da cidade. A alteração, implantada pela Secretaria Municipal de Mobilidade e Urbanismo (Semu) será pelo período experimental de 60 dias. Se der certo, será mantida em caráter definitivo. No entanto, reclamações sobre o funcionamento dos novos semáforos levaram a prefeitura a realizar ajustes nesta segunda-feira, 27.
Ainda no domingo, primeiro dia da mudança, A VOZ DA SERRA recebeu relatos de leitores sobre o novo semáforo instalado na esquina da Rua General Osório com a Rua Aristão Pinto, no sentido Praça do Suspiro. Segundo as reclamações, o equipamento não reservava um tempo exclusivo para a travessia de pedestres. De acordo com os leitores, quando o sinal da General Osório (sentido Duas Pedras) fechava, o do sentido contrário abria imediatamente para permitir a conversão de veículos em direção à Rua Aristão Pinto, o que poderia colocar em risco quem estivesse atravessando na faixa.
Em nota, a Semu informou que o tempo semafórico do cruzamento foi readequado, ainda na manhã desta segunda-feira, para garantir a travessia segura dos pedestres. A secretaria afirmou ainda que a equipe técnica segue monitorando a fluidez do trânsito e que novos ajustes poderão ser realizados nos próximos dias, principalmente com o retorno das aulas nas escolas particulares, na semana que vem, quando o movimento de tráfego na vida tende a aumentar.
Estacionamento
Outro questionamento feito por moradores e comerciantes diz respeito à proibição de estacionamento ao longo da via. Sobre o assunto, a Semu esclareceu que as vagas permanecem mantidas, conforme previsto em portaria. Segundo a pasta, também foram preservados os espaços destinados às operações de carga e descarga, embarque e desembarque e às vagas de curta duração. “O ordenamento da via continuará sendo acompanhado durante todo o período de testes”, destaca a nota.
Mais alterações
Quem está acostumado a trafegar pela Rua General Osório precisa redobrar a atenção. Além da implantação da mão dupla, outras vias da região também passaram por alterações para adequar o novo fluxo. As ruas Carlos Magno Valle e José Antônio Alves tiveram o sentido de direção invertido, enquanto a Rua Aristão Pinto passou a operar em mão única em direção à Avenida Rui Barbosa e à ponte da Rua Sete de Setembro.
Aumento da frota
De acordo com a prefeitura, a implantação da mão dupla faz parte de um estudo de mobilidade urbana motivado pelo crescimento da frota de veículos em Nova Friburgo. Dados do Detran-RJ, referentes a junho de 2026, apontam que o município possui cerca de 146 mil veículos para uma população aproximada de 203 mil habitantes, uma das maiores proporções entre frota e população do Estado do Rio de Janeiro.
O grande número de veículos, aliado ao intenso fluxo vindo de outros municípios, faz com que os congestionamentos sejam frequentes, principalmente nos horários de pico. Segundo a administração municipal, as mudanças buscam melhorar a circulação e reduzir os pontos de retenção no trânsito.
Apesar da justificativa apresentada pelo prefeito Johnny Maycon (PL), a medida também enfrenta resistência. Na última sexta-feira, 24, o presidente da Comissão de Mobilidade, Ordem Urbana e Paz Social da Câmara Municipal, vereador Maicon Gonçalves (Mobiliza), encaminhou uma representação complementar à 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Nova Friburgo solicitando a suspensão da implantação da mão dupla.
A representação também menciona um manifesto contrário à mudança, assinado por 817 moradores.
A importância de estudos técnicos antes de qualquer mudança
Diante da mudança no tráfego da Rua General Osório e as muitas dúvidas da população, A VOZ DA SERRA procurou, nesta segunda-feira, 27, o engenheiro civil, geotécnico e urbanista, Ivison Macedo, que classifica atualmente a mobilidade urbana como crítica. Ele observa que os elevados índices de acidentes e mortes no trânsito demonstram que as soluções adotadas, até o momento, não têm produzido os resultados esperados.
“Nesse contexto, qualquer alteração significativa no sistema viário deve ser precedida de estudos técnicos abrangentes e transparentes. A proposta de transformar a Rua General Osório em via de mão dupla preocupa por tratar-se de um dos corredores urbanos com maior circulação de pedestres vulneráveis da cidade. Ao longo de sua extensão concentram-se grandes estabelecimentos de ensino, hospitais, clínicas médicas, cursos profissionalizantes e de idiomas, gerando intenso fluxo diário de crianças, adolescentes, idosos e pessoas com mobilidade reduzida”, destaca Ivison, lembrando que a prefeitura não apresentou publicamente estudos técnicos que demonstrem que a Rua General Osório apresente histórico de acidentes capaz de justificar uma intervenção dessa magnitude.
“Da mesma forma, não foram divulgadas simulações de tráfego, avaliações de impacto sobre as vias adjacentes, análises da segurança dos pedestres, estudos dos tempos semafóricos ou estimativas sobre os reflexos no sistema viário do entorno. A engenharia de tráfego demonstra que otimizar isoladamente um trecho da malha urbana pode provocar a pessimização do sistema como um todo, deslocando congestionamentos, aumentando conflitos entre veículos e pedestres e transferindo riscos para outras vias”, frisa o engenheiro.
Na opinião de Ivison Macedo, a mobilidade deve ser tratada como um sistema integrado, e não por intervenções pontuais. Por isso, ele reforça a necessidade da divulgação plena de estudos técnicos antes da implantação das mudanças. Esses estudos devem incluir modelagem de tráfego, análise de segurança viária, avaliação de impactos, alternativas consideradas e medidas mitigadoras, permitindo o controle social e o debate público.
“Caso uma intervenção seja implantada sem o devido embasamento técnico e venha a contribuir para acidentes previsíveis, especialmente envolvendo estudantes, idosos e demais pedestres vulneráveis, a responsabilidade pela decisão administrativa poderá ser objeto de apuração pelos órgãos de controle e, se for o caso, pelo Poder Judiciário A segurança da população deve prevalecer sobre soluções imediatistas. Em mobilidade urbana, decisões técnicas precisam ser fundamentadas em evidências, planejamento sistêmico e avaliação rigorosa de riscos, pois vidas humanas não admitem experimentações”, pondera Ivison.
Números que preocupam
O engenheiro Ivison Macedo fez um levantamento com base em dados oficiais que evidencia índices alarmantes de violência no trânsito de Nova Friburgo. Somente no primeiro semestre de 2026 foram registrados 419 acidentes no município, contra 392 no mesmo período de 2025 (aumento de aproximadamente 6,9%). A Avenida Governador Roberto Silveira, entre Duas Pedras e Conselheiro Paulino, concentra cerca de 30% das ocorrências.

“O próprio Plano de Mobilidade afirma que qualquer mudança de circulação deve ser precedida por modelagem técnica, justamente para prever impactos positivos e negativos decorrentes de alterações no sistema viário”, observa Ivison.
Ele acrescenta ainda que o Plano de Mobilidade reconhece que a região central de Friburgo concentra hospitais, escolas, clínicas e os principais polos geradores de viagens, sendo a área de maior atração de deslocamentos do município. O documento também afirma que as principais vias de acesso ao Centro concentram os maiores volumes de tráfego e apresentam cruzamentos críticos que podem afetar a segurança de motoristas e pedestres.
“Se a Rua General Osório está inserida exatamente na área de maior geração de viagens e de maior circulação de pedestres vulneráveis (escolas, hospitais e clínicas), qualquer alteração do sentido de circulação exige demonstração técnica de que haverá aumento da segurança, e não apenas melhora da fluidez dos veículos”, sintetiza Ivison Macedo.
(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim

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