O corpo do outro não é de domínio público

"Padrão vem da ideia de repetição. Portanto, a própria existência de um “Padrão de Beleza” já é por si só uma incoerência sem fim"
sábado, 18 de janeiro de 2020
por Por Ninna Oli*
O corpo do outro não é de domínio público

Padrão vem da idéia de repetição. Portanto, a própria existência de um “Padrão de Beleza” já é por si só uma incoerência sem fim. Somos todos seres humanos distintos. Diferentes uns dos outros por natureza. Corpos e mentes. Somos todos compostos de personalidades, características físicas e experiências. E os nossos corpos são apenas uma parte de quem nós somos.

Teria a sociedade esquecido do que se tratam os biotipos? Esquecendo ou não, o fato é que existem pessoas naturalmente magras, naturalmente gordas e pessoas medianas. As últimas citadas sendo talvez as pessoas mais próximas do padrão de beleza. Embora na minha cabecinha isso faça pouco ou quase nenhum sentido. Afinal, não sei se isso é conhecimento geral, mas vocês sabiam que mais de 55% da população é gorda, segundo uma pesquisa recente realizada pelo Ministério da Saúde? E que esse percentual vem crescendo? Então porque o padrão é uma pessoa atlética, sem barriga nenhuma, zero percentual de gordura, zero poros aparentes, cabelo impecável (seja ele liso ou cacheado)?

O mais interessante é que a mesma pesquisa demonstra que houve um aumento expressivo de pessoas nessa porcentagem que se alimentam bem e fazem exercícios regularmente. Ou seja, cai por terra o conto da pessoa gorda desleixada, sedentária que come mal. Pode acontecer, claro. Mas isso pode acontecer também com pessoas magras. Ou vocês acham mesmo que todas as pessoas magras comem bem, se exercitam e são saudáveis? 

E esse padrão imposto socialmente não abrange quase ninguém na realidade. Eu sou publicitária e trabalho com edição de imagem há mais de 12 anos e posso afirmar com certeza que nosso padrão de beleza atual é construído em cima de cirurgia ou photoshop. E isso muito me preocupa. Temos muitas pessoas ficando doentes por conta dessa busca desenfreada pelo “corpo perfeito”. Um corpo que não existe. Eu mesma já fui vítima disso quando adolescente. Já deixei muitas vezes de comer por medo de engordar. Era uma pessoa infeliz. Vivia preocupada com o que iam achar de mim. Queria muito que o meu eu de 2006 viesse bater um papo com o meu eu atual. Ia ser uma baita reviravolta!

A realidade é que hoje pessoas ainda deixam de comer pra entrar em um jeans 38. Mas também vejo que isso tem diminuído. Quero acreditar que estamos um pouco mais conscientes. Estamos aos poucos entendendo que ser pró saúde não é ser pró dieta. Cuidar da saúde também tem que incluir a saúde mental. É se olhar com mais respeito, cuidado e carinho. Avaliar o que nos faz bem e o que nos faz mal. Seja comida, bebida ou aquilo que consumimos nas redes sociais.

Pessoas fora do padrão estão lutando pelo direito de usufruir uma vida social sem medo das piadas cruéis travestidas de preocupação com a saúde. E isso tem feito muitas pessoas olharem as coisas por outro ponto de vista. Tenho amigos magros que me acompanham no instagram e já me disseram que têm aprendido muito sobre autocuidado, respeito e empatia. Sobre se olhar com menos cobranças. 

As pessoas estão lentamente se libertando. Se preocupando mais consigo mesmas. E cada vez menos com o que as pessoas pensam sobre elas. E isso é uma lição importantíssima para todos nós como sociedade. O corpo do outro não é de domínio público. Cada um cuida do seu, combinado?

Com isso, cresce o movimento body positive, que é a favor do corpo livre. Sem padronização. Sem julgamentos. Onde o único padrão, é ser feliz na própria pele.

*Ninna Oli é publicitária e ilustradora

 

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