Um levantamento nacional com mais de 2,3 milhões de alunos do segundo segmento do ensino fundamental (6º ao 9º ano), divulgado nesta semana, trouxe à tona um dado preocupante para a educação brasileira: menos de 40% dos estudantes afirmam respeitar e valorizar os professores. O resultado acende um alerta para gestores e especialistas, que veem nesse distanciamento entre alunos e docentes um risco para a qualidade da aprendizagem e para a permanência escolar.
Estudo inédito
A pesquisa foi realizada durante a Semana da Escuta das Adolescências nas Escolas, uma mobilização nacional que envolveu 21 mil escolas públicas de redes municipais, estaduais e distrital, atingindo 46% das instituições que oferecem os anos finais do fundamental (6º ao 9º ano).
A iniciativa é fruto de parceria entre o Ministério da Educação (MEC), o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e o Itaú Social. O objetivo é compreender como os adolescentes percebem a escola, os professores e os conteúdos, subsidiando a construção da primeira política nacional voltada para essa etapa.
Adolescência e desafios escolares
Os anos finais do ensino fundamental são considerados uma fase singular, em que os alunos vivem a transição da infância para a adolescência, período marcado por mudanças cognitivas, emocionais e sociais. Esses fatores tornam a etapa ainda mais desafiadora para a escola e para os professores, que precisam lidar com diferentes ritmos e interesses de aprendizagem.
Segundo os organizadores, ouvir os adolescentes permite ao poder público identificar caminhos para tornar a escola mais significativa. “Todos aprendem de um jeito diferente. O que precisamos é preparar professores, currículos e estruturas escolares para atender a essas especificidades”, afirmou a secretária de Educação Básica do MEC, Katia Schweickardt, durante o lançamento do relatório em Brasília.
Relação com professores preocupa
Se, por um lado, mais da metade dos alunos diz se sentir acolhida pela escola, por outro, o respeito e a valorização dos docentes aparecem em baixa. Entre os estudantes mais novos (6º e 7º ano), 39% afirmaram respeitar e valorizar os professores. Já entre os mais velhos (8º e 9º ano), esse índice cai para apenas 26%.
A percepção negativa tende a crescer com a idade, revelando um desafio para a construção de vínculos mais sólidos entre professores e estudantes, especialmente na fase em que muitos começam a questionar o papel da escola em suas vidas.
Sentimento de acolhimento
O relatório também mostra diferenças entre faixas etárias em relação ao acolhimento. Entre os alunos do 6º e 7º anos, 66% afirmaram se sentir acolhidos pela escola, enquanto no 8º e 9º anos esse percentual cai para 54%.
A confiança em adultos da escola também diminui: 75% dos mais jovens dizem confiar em pelo menos um adulto, contra 45% dos mais velhos. Em contrapartida, a socialização com colegas segue em alta, 84% dos alunos dos anos iniciais e 83% dos finais afirmam ter amigos com quem gostam de estar.
Importância dos conteúdos
O estudo investigou ainda quais conteúdos e conhecimentos os adolescentes consideram essenciais para o seu desenvolvimento. Entre os alunos mais novos, as disciplinas tradicionais (Português, Matemática, Ciências, História e Geografia) lideram as respostas, citadas por 48% dos estudantes. Em seguida, aparecem aspectos ligados ao corpo e socioemocional (31%), como esportes, bem-estar e saúde mental, e as habilidades para o futuro (21%), como tecnologia e educação financeira.
Já entre os mais velhos, a valorização das disciplinas tradicionais cai para 38%, enquanto cresce a importância atribuída às habilidades para o futuro (24%). Essa mudança sugere que, à medida que os adolescentes avançam no ensino fundamental, começam a associar a escola mais diretamente à preparação para a vida adulta e para o mundo do trabalho.
Perspectivas para políticas públicas
Para especialistas, os resultados reforçam a urgência de políticas que considerem a diversidade das salas de aula e as especificidades da adolescência. Desde 2023, com o projeto Escola das Adolescências, o MEC passou a ouvir estudantes, gestores, sociedade civil e acadêmicos para construir uma agenda integrada. Essa é a primeira vez que adolescentes são convidados a participar ativamente da formulação de políticas públicas para sua própria etapa escolar.
(Fonte: Educa Mais Brasil)

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