Maternidade tardia: quando as brasileiras adiam os planos de ter filhos

Dados do IBGE mostram que a idade média escolhida para ser mãe agora é 28 anos
quarta-feira, 13 de maio de 2026
por Isabella Rodrigues (*)
Foto: Magnific
Foto: Magnific

As mulheres brasileiras vêm redesenhando o significado da maternidade nas últimas décadas. Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2022, apontam uma mudança clara nesse comportamento: a idade média para ter filhos aumentou e chegou a 28,1 anos. Até então, esse índice girava em torno de 26,3 anos.

A transformação reflete uma nova perspectiva feminina diante da vida pessoal e profissional. Cada vez mais, a maternidade deixa de ser um passo automático na vida adulta e passa a ser uma escolha pensada, muitas vezes adiada. Esse movimento acompanha mudanças sociais mais amplas, como o maior acesso à educação, a inserção no mercado de trabalho e a busca por estabilidade financeira antes de formar uma família.

Outro dado que reforça essa tendência é o aumento no número de mulheres que chegam ao fim da vida reprodutiva sem filhos. Entre mulheres de 50 a 59 anos, esse percentual subiu de 10% até 2010 para 16% em 2022. No Estado do Rio de Janeiro, o índice é ainda maior, cerca de 21% não tiveram filhos.

Recortes por fatores sociais   

A pesquisa também mostra que fatores sociais influenciam diretamente esses números. Entre os recortes por cor ou raça, mulheres brancas apresentam idade média de fecundidade de 29 anos, enquanto mulheres pretas têm média de 27,8 anos e mulheres pardas, 27,6 anos. A diferença evidencia desigualdades estruturais que impactam decisões e possibilidades ao longo da vida.

Já no recorte religioso, a taxa de fecundidade total (TFT) varia. Mulheres espíritas registram a menor taxa (1,01 filho por mulher), seguidas por mulheres da umbanda e candomblé (1,25). Católicas, pessoas sem religião e outros grupos apresentam índices próximos, mas ainda abaixo da média nacional (1,55). O único grupo acima dessa média é o de mulheres evangélicas, com 1,74.

A escolaridade também pesa nessa equação, mulheres sem instrução ou com ensino fundamental incompleto têm, em média, 2,01 filhos, acima da média nacional. Já entre aquelas com ensino superior completo, o número cai para 1,19. O dado reforça a relação entre acesso à educação e o planejamento reprodutivo.

Mudanças na maternidade

A maternidade no Brasil deixou de seguir um padrão único. Hoje, ela acontece mais tarde, com menos filhos ou, em muitos casos, não acontece. Isso está ligado a fatores como carreira, independência financeira, acesso à informação e mudanças culturais. O resultado é um novo perfil de família e de mulher na sociedade brasileira.

Essa transformação pode ser observada na história da administradora Andressa Ribeiro, de 47 anos, que mora em Nova Friburgo. Diferente do que imaginava na juventude, ela acabou não vivendo a maternidade, uma decisão que, segundo ela, foi sendo construída com o tempo, mas também atravessada por circunstâncias inesperadas.

Andressa entrou na menopausa aos 41 anos, considerada precoce. Até então, acreditava que teria tempo para engravidar quando se sentisse pronta. “Para mim, a maternidade seria algo natural, que aconteceria depois que eu conquistasse tudo que eu desejava, como estabilidade financeira, sucesso na carreira e quando eu me sentisse confortável para isso. O tempo foi passando e a maternidade foi se tornando algo distante”, conta.

A experiência reflete uma realidade cada vez mais comum: o adiamento da maternidade pode, em alguns casos, resultar na impossibilidade biológica de gestar. Ainda assim, Andressa afirma que construiu uma vida plena. “Hoje não me imagino com filhos. Minha vida é bem tranquila, faço viagens com meu parceiro e tenho a vida que eu sempre quis”, diz.

Mesmo sem filhos, ela encontra formas de expressar afeto e cuidado. “Tenho dois sobrinhos que praticamente ocupam esse lugar. Meu amor por eles é incondicional e sinto que isso é o suficiente”, relata.

 
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