Mais que dança, pertencimento: “Na Pista” chega a Nova Friburgo

Há espetáculos que a gente assiste. E há aqueles que nos convidam a lembrar.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
por Jornal A Voz da Serra
Foto: Renato Mangolin
Foto: Renato Mangolin

No próximo dia 30 de abril, às 20h, o palco do Teatro Municipal Laercio Rangel Ventura, na Praça do Suspiro, recebe um desses encontros em que a arte parece menos uma apresentação e mais uma celebração coletiva. A premiada Companhia Urbana de Dança chega a Nova Friburgo com o espetáculo “Na Pista”, uma obra que transforma memória, rua, música e identidade em movimento.

Fundada em 2004, no Rio de Janeiro, pela coreógrafa Sonia Destri Lie, a companhia atravessou fronteiras e conquistou reconhecimento internacional ao unir hip-hop e dança contemporânea com uma assinatura própria, nascida das vivências urbanas e das pulsões do subúrbio carioca. Não por acaso, foi definida pelo jornal The New York Times como “a evolução da dança de rua”.

Mas “Na Pista” não se apoia apenas no prestígio. Ele retorna à origem.

O espetáculo revisita os sons, os gestos e os corpos que formaram esses bailarinos, os bailes, as referências musicais, a pista como espaço de liberdade e pertencimento. O próprio título carrega essa força. “Estar na pista” não é apenas dançar, é existir, ocupar, viver.

Em cena, o público encontrará uma coreografia atravessada por diferentes tempos e ritmos. Ecos de David Bowie, Earth, Wind & Fire, Chaka Khan, Tim Maia, Michael Jackson, Lauryn Hill e Jamiroquai se misturam à dance music, ao olhar contemporâneo e à trilha assinada pelo produtor musical Rodrigo Marçal, que ainda dialoga com referências sofisticadas como Erik Satie e De La Soul.

Sob direção de Sonia Destri e Tiago Sousa, a montagem não busca nostalgia gratuita. Há humor, leveza e afirmação estética. A montagem coloca no centro aquilo que por tanto tempo permaneceu à margem:  visibilidade das vivências periféricas com histórias que agora falam por si.

Quando dançar também é existir

Para Sonia Destri, fundadora e diretora da companhia, a dança nunca foi apenas movimento, sempre foi ferramenta de transformação.

“A dança é uma ferramenta poderosa para o empoderamento individual e coletivo. Através da dança, as pessoas podem expressar suas emoções, superar desafios e ganhar confiança”, afirma.

Segundo ela, o trabalho da Companhia Urbana de Dança nasce justamente desse compromisso com a autoestima, a igualdade de gênero e a inclusão social, especialmente em comunidades marginalizadas.

“A Companhia Urbana de Dança cria, produz e circula com trabalhos sempre pensando em promover a autoestima, a igualdade de gênero e a inclusão social. Para mim, vejo a dança como um caminho transformador. É uma poderosa forma de comunicação e expressão que conecta pessoas, celebra culturas e promove mudanças sociais e pessoais”, destaca.

Essa filosofia atravessa “Na Pista” do início ao fim. O espetáculo não fala apenas sobre dança, ele fala sobre identidade, memória e permanência. Sobre quem dança e, principalmente, sobre quem finalmente passa a ser visto.

A apresentação integra a programação cultural do Sesc RJ no Teatro Municipal, dentro da parceria com a Prefeitura de Nova Friburgo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e o Sincomércio. A proposta é ampliar o acesso à arte e fortalecer a circulação cultural na cidade, ocupando o teatro com atrações mensais que aproximam o público de experiências artísticas diversas.

E há um detalhe bonito nisso tudo. O ingresso é solidário. Basta doar um litro de leite, com retirada uma hora antes do espetáculo. Os alimentos serão destinados, por meio do programa Mesa Brasil, a instituições socioassistenciais do município.

No fim, talvez seja isso: dança também é partilha.

E “Na Pista” parece chegar exatamente assim, como quem acende a música, abre espaço no salão e lembra que, às vezes, estar vivo também é isso, encontrar coragem para entrar em cena.

 

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