Isolamento social agrava violência doméstica, diz comissária de Justiça

Psicóloga Cristiana Baptista avalia prolongada convivência familiar imposta pelo confinamento
sábado, 23 de maio de 2020
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
a psicóloga e comissária de Justiça da Infância e Juventude de Nova Friburgo Cristiana Pereira Baptista
a psicóloga e comissária de Justiça da Infância e Juventude de Nova Friburgo Cristiana Pereira Baptista

Ao contrário do que deveria ser, nem sempre o lar é o lugar mais seguro para mulheres e crianças. Não raro, é justo naquele ambiente que muitas sofrem abusos e vivem com medo. Confinamento, distanciamento social, carga-horária de trabalho reduzida ou desemprego e consequente falta de renda, enfim, são inúmeras as situações peculiares a cada família, que acarretam sentimentos de angústia, irritação, impaciência e tensões que acabam se acumulando ao longo de todo esse processo. Para falar dessa complexa questão, entrevistamos a psicóloga e comissária de Justiça da Infância e Juventude de Nova Friburgo, Cristiana Baptista. 


AVS: A prolongada convivência familiar imposta pelo confinamento tem mostrado seus efeitos sobre a vida das mulheres, com aumento dos índices de violência doméstica. Esse quadro era previsível? 

Cristiana Baptista: Podemos considerar que sim, pois à medida em que o isolamento social impôs uma rotina de maior convivência dentro dos lares, as situações pré-existentes de conflitos e violências tenderiam a se intensificar com esta maior proximidade. Os conflitos são inerentes ao convívio humano e eles não necessariamente precisam resultar em violência. Todo conflito traz em si um convite em potencial: vamos construir um novo acordo? Ele traz a possibilidade de reconstrução e transformação de um problema. Entretanto, isso só ocorre se a principal ferramenta para o adequado encaminhamento do conflito estiver disponível: o diálogo. Esta ferramenta requer saber ouvir o outro sem interromper, saber expressar por palavras os sentimentos, saber identificar as próprias necessidades e as necessidades da outra pessoa envolvida no conflito. A falta do diálogo faz com que uma das respostas seja a expressão violenta, seja por palavras, ameaças ou agressão física contra o outro. Com relação à violência doméstica, esta resposta ao conflito é fundamentada em uma lógica de dominação e exploração ainda perpetuada, que atribui uma posição de inferioridade e desvaloriza mulheres e crianças. A ideologia construída ao longo de séculos, cria crenças que “legitimam” no pensamento do agressor a violência por ele perpetrada. 


Como mulheres e crianças podem se defender?

A criança é indefesa, não pode nem consegue se defender. Sofre duplamente, pela violência que testemunha em casa e por ficar desassistida no que diz respeito ao atendimento das suas necessidades: ser protegida, ser cuidada, viver em um ambiente seguro. Numa situação de violência doméstica, é muito comum a criança trazer pra si a tarefa de resolver, de cuidar dos pais, de impedir que a violência ocorra. Isso gera um deslocamento na dinâmica familiar que potencializa seu sofrimento. Crianças precisam ser cuidadas, não cuidam. Já os adultos, precisam exercer com responsabilidade o seu dever parental. Presenciar discussões, brigas e desavenças pode ser muito doloroso para as crianças. Diante de desentendimentos mais acalorados, os pais precisam preservar os filhos. Costuma-se usar o termo “espiral do conflito”, quando ele começa pequeno e a forma de lidar com ele não é adequada, vai crescendo, gerando mais desavença até culminar numa explosão. Os adultos precisam se afastar, enquanto ainda é possível haver um controle emocional. Retomar a questão depois que os ânimos estiverem mais calmos. Com relação à mulher, em situações de risco, é necessário acionar a polícia militar. Se isso não for possível, ela precisa se retirar da situação e se salvaguardar, buscar um abrigo temporário e tão logo seja viável, registrar o boletim de ocorrência. Medidas protetivas, promulgadas pela autoridade judiciária competente, podem resguardar seus direitos e manter o agressor afastado. 


O que pode ser feito para não perder o controle?

Cada um precisa olhar pra si, se observar, ter empatia por si mesmo, por suas dores, suas dificuldades. Conhecer-se, descobrir o que acalma, respeitar seus limites, desenvolver a arte do autocuidado. Não é fácil, mas é possível. Importante criar uma rotina que inclua atividade física, boa qualidade de sono e de alimentação, tomar sol. São cuidados básicos que ajudam o nosso organismo a se regular e a lidar melhor com tantos estressores. Organizar a vida, um dia de cada vez. A regulação emocional também é fundamental neste momento. Aceitar as emoções como angústias e medos como sendo parte natural do que estamos vivendo é o primeiro passo. E saber expressar os sentimentos, conversar com alguém, compartilhar. O ser humano é um ser relacional e o distanciamento social não precisa criar isolamento. Importante criar estratégias para o encontro humano acontecer, pois é nesse encontro que podemos ter acolhimento e compreensão. 


Foram criados serviços extras para atender e proteger a população mais vulnerável?

Desconheço a criação de serviços extras na nossa região. A ONU Mulheres recomendou que as comunidades afetadas pela Covid-19 priorizem os serviços de prevenção e resposta à violência de gênero, pois seu aumento é um fenômeno mundial. Além disso, são necessárias políticas públicas atualizadas, que deem à população o sustentáculo para lidar com tantas incertezas e desafios, que garantam direitos básicos como alimentação, educação e segurança. Sabe-se que a Covid-19 afeta a todos, mas de forma desigual. Seu efeito é atenuado ou avassalador, dependendo do IDH. 


A mulher tende a ficar ilhada em seu próprio sofrimento, pois pedir ajuda nesse momento é muito mais complicado. Como escapar, ir pra onde?

Sair de um relacionamento em que há violência é um processo de mudança que requer uma grande rede de apoio. Muitas vezes, a dependência financeira para manter a família, os filhos, dificulta a libertação da mulher. Há, em geral, muita ambivalência. A relação não se resume aos episódios de violência. A violência é inaceitável, não deve fazer parte de nenhuma relação e não deve ser tolerada. Nenhuma pessoa tem o direito de submeter a outra à humilhação, à degradação emocional ou física. É preciso ter muita clareza sobre isso. Quando sua pergunta inclui a palavra escapar, subentende-se que a situação já chegou no limite extremo, em que a vida da mulher está em risco. Não se pode subestimar esse risco. Segundo matéria divulgada no site do “Tecle Mulher”, as mulheres brasileiras adultas que registraram episódios de violência nos serviços de saúde públicos têm chance 151,5 vezes maior de morrer por homicídio ou suicídio em comparação com a população feminina geral. Em muitos casos, o fenômeno da violência contra a mulher só cessa com a intervenção do Estado, que determina a saída, o afastamento e até a prisão do agressor. Por isso é tão importante que a mulher não se cale, busque ajuda e dê visibilidade ao problema. Infelizmente, ainda são poucos os abrigos destinados às mulheres vítimas de violência. Estes abrigos podem ser a única estratégia para que a mulher encontre apoio e possa fazer uma transição na sua vida, sair de uma relação abusiva e violenta e reconquistar sua liberdade. 

 

Por que raramente falamos dos homens, que também sofrem violência doméstica? Por que não despertam a mesma empatia, compaixão?

É mais difícil termos compaixão em relação a pessoas que agridem, violam leis, desrespeitam, propagam o sofrimento. Além disso, viemos de uma cultura que mistura justiça com vingança. Acredito ser possível fazer justiça, responsabilizar o agressor, mantendo ativos os valores da dignidade da pessoa humana e do respeito. Para além da punição, é preciso criar outras estratégias que ampliem os espaços para o aprendizado, a recuperação, o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. Um exemplo de prática que se dá com esta orientação é o “Grupo reflexivo para homens”, que acontece no Fórum de Nova Friburgo, bimestralmente. 

 

O que mais é relevante acrescentar?
Por fim, ressalto aqui a importância da prevenção, que sempre nos remeterá à educação das crianças e jovens. Uma educação baseada em valores humanos, na ética que se materializa nos comportamentos diários enquanto nos relacionamos uns com os outros. Essa educação vai além do que orientamos, ensinamos, ela é muito eficaz a partir dos exemplos que damos. Pertencer a um relacionamento saudável é uma necessidade humana. Uma relação saudável não é aquela em que os conflitos não existam, mas sim, aquela em que há diálogo, respeito e empatia. 

Onde buscar apoio

  • Deam - Delegacia de Atendimento à Mulher de Nova Friburgo. Avenida Presidente Costa e Silva, 1051, 3º andar, Vila Nova. Tel: (22) 2533-1852 / 2533-1694
  • Centro de Referência da Mulher (Apoio Psicológico e Jurídico). Avenida Alberto Braune, 223, Centro. Tel: (22) 3016-1313
  • Disque 180 // Tecle Mulher: teclemulher@teclemulher.com.br

*Cristiana Pereira Baptista é pedagoga e mestre em psicologia pela UFRJ. Facilitadora do Programa Star (Estratégia para a consciência do trauma e resiliência) da Eastern Mennonite University, formada em Mediação de Conflitos pelo TJRJ e psicoterapeuta certificada pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC).

 

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