O despertar artístico na serra
1 - Sobre a sua infância em Nova Friburgo, quais lembranças desse período mais marcaram a sua formação?
Com certeza o que mais me definiu foi o Taca (Teatro Amador do Colégio Anchieta). Fiz parte do grupo assiduamente do 3º ao 6º ano. O curioso é que eu não amava tanto atuar; o que me fascinava era a pré-produção. O Anchieta tem 11 camarins repletos de figurinos históricos. Eu adorava os detalhes: criar o universo da peça através da roupa, da decoração e da visualização do texto.
2 - Essa experiência no teatro já era então, um ensaio para o que você faz hoje?
Sim! Na época eu não sabia, mas olhando para trás, vejo que a sementinha foi plantada ali. O Taca me trouxe um aprendizado multi dinâmico. Para encenar uma peça sobre o Rio antigo, os professores explicavam o contexto histórico. Isso alimentava uma imaginação visual muito viva em mim. Eu percebi cedo que o que eu mais gostava era coordenar vários elementos para que o resultado final fizesse cada parte brilhar.
O Plano Hollywood: Do PowerPoint à USC
3 - Em que momento você percebeu que o cinema era a sua carreira e como traçou o caminho até a USC?
Foi aos 13 anos, após ver meu primeiro filme legendado em Campinas-SP. Assisti a um mockumentary (falso documentário) e fiquei chocada ao perceber como um filme pôde me "enganar" e gerar tantas emoções. Ali eu decidi: quero mover as pessoas através do cinema. Eu era jovem e queria o mundo. Pesquisei a melhor faculdade de cinema do mundo e apareceu a USC. Não tinha dinheiro para aplicar para uma universidade americana.
Montei um powerpoint para os meus pais mostrando que, em vez de uma escola bilíngue, que eu teria que estudar para aprender o inglês, poderíamos investir em um curso de verão lá primeiramente, assim eu teria a certeza se meu sonho seria possível. Estudei inglês sozinha "como uma condenada" e fui aos 15 anos para testar se aquela vida era para mim. Lá, senti que as pessoas falavam a minha língua. Voltei ao Brasil focada, pois só aceitavam alunos a partir dos 16 anos. Pratiquei inglês sozinha e me joguei no voluntariado para fortalecer meu portfólio. No curso de verão descobri que era o que eu queria fazer. Nesse momento comecei uma jornada de estudos em inglês, várias atividades extra curriculares, portfólio em cinema e após dois anos de preparação, apoio da família e dos professores fui aceita na USC em março de 2020, início da pandemia. As primeiras aulas foram online e só depois de um ano e meio consegui ir presencialmente para a faculdade.
A nova era digital
4. Hoje você trabalha com as chamadas "novelas verticais". Como surgiu essa oportunidade?
A USC tem uma conexão forte com o mercado e muitos alunos internacionais. Tive um mentor que me deu um conselho valioso: ele disse que, se eu focasse apenas em longas-metragens agora, demoraria muito para ver resultados. Ele me sugeriu o mercado das séries verticais, que é a grande tendência e me recomendou para um projeto em março do ano passado. Desde então, já trabalhei em nove produções. Somadas, elas já ultrapassaram a marca de 500 milhões de visualizações em aplicativos. Para um início de carreira, tem sido um aprendizado intenso sobre números e engajamento.
Visão de mercado
5. Como você avalia o momento atual do cinema brasileiro?Fico feliz que o incentivo hoje é maior. O investimento em cultura muda a percepção do mundo sobre um país. Uso o exemplo da Coreia do Sul: eles investiram massivamente e hoje o mundo quer consumir o que eles produzem. Gosto do simbolismo da tâmara: você planta hoje, mas ela pode levar 80 anos para dar o primeiro fruto. É preciso ter esse cuidado e paciência. Espero, em breve, colaborar com produções nacionais. Oscar 2026 6. E para o Oscar deste domingo, quais são seus palpites? Como roteirista, olho para as categorias de texto. Minha aposta para Melhor Filme e Roteiro Original é 'Sinners'. Outro favorito é 'One Battle After Another' para Melhor Direção. E, claro, a torcida é grande para que o talento brasileiro continue abrindo portas, como temos visto nesta temporada. O mais inspirador é ver filmes que realmente conseguem mover o público. 7 - Quais são suas apostas para este Oscar?
Melhor filme: “Pecadores”
Melhor direção: Paul Thomas Anderson (acho que ganha, mas meu coração está com “Chloe Zao”
Melhor ator: Michael B.Jordan
Melhor atriz: Jessie Buckley (100% Umas das melhores atuações nos últimos anos)
Ator coadjuvante: Delroy ou Sean Penn
Atriz coadjuvante: Amy Madigana
Melhor filme internacional: “Agente Secreto” (tem uma campanha forte, mas também vejo valor sentimental como forte concorrente, com elenco de peso)
Melhor doc: ‘The Perfect Neighbor”
Ao descobrir a trajetória de Ana Flávia, A VOZ DA SERRA convidou a também cineasta e friburguense, Janine Bastos, que nos ajudou a produzir essa entrevista. Janine é produtora de vários curtas metragens. Atualmente trabalha como produtora de elenco em longa metragens. Um dos seus mais recentes filmes “Solteira quase surtando”, do diretor Caco Souza, entre tantos outros.

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