Ditadura da beleza

As mulheres acabaram se tornando escravas da indústria da beleza, muitas vezes passando por depressões profundas
sábado, 18 de janeiro de 2020
por Thiago Lima (thiago@avozdaserra.com.br)
Ditadura da beleza

O feminismo é um movimento de organização de mulheres que lutam por condições dignas de existência. É a ampliação dos direitos da mulher dentro da sociedade, integrado por mulheres de todas as idades. De acordo com o Datafolha, hoje 38% das mulheres com 16 anos ou mais se considera feminista no Brasil, e 56% rejeitam se associar ao feminismo, com os demais 6% sem opinião sobre o assunto. As mais jovens se identificam mais como feministas (47%), e as mulheres de 35 a 44 anos, menos (30%).

Atualmente, podemos perceber um verdadeiro bombardeio de críticas da sociedade em relação à mulheres que não se enquadram nos padrões de beleza determinados por ela. As mulheres acabaram se tornando escravas da indústria da beleza, muitas vezes passando por depressões profundas e vivendo paranóias para se encaixar em um determinado tipo que seja “belo” para os outros. 

O fato de não se sentir confiante acaba sendo decorrente também de inúmeros avanços tecnológicos que prometem aprimorar a estética e a forma física. Notamos, todos os dias, o surgimento de produtos de emagrecimento, como pílulas, comidas, aparelhos de ginástica e estética apresentados pelos meios de comunicação, principalmente as redes sociais, disseminando inúmeras campanhas com o objetivo de alcançar o corpo perfeito para o verão.

A empresária e militante Stéphanie Waknin, em entrevista para o Caderno Z / A Voz da Serra, fala sobre feminismo, padrões de beleza e de seu papel dentro da sociedade, como mulher. Confira. 

Caderno Z: As redes sociais influenciam na insatisfação das mulheres com o próprio corpo?

Muito. As redes sociais se tornaram uma grande feira das vaidades, onde o conteúdo compartilhado muitas vezes só serve para reforçar padrões estéticos que antes eram impostos apenas pela mídia. Hoje, quando você abre o Instagram, por exemplo, é uma enxurrada de fotos com corpos “perfeitos”, muitas vezes irreais porque são retocados com aplicativos e assim, ajudando numa opressão absurda da ditadura da beleza. A mulher que consome esse tipo de conteúdo, por mais esclarecida que ela seja, acaba se contaminando com essa estética e se comparando. 

As mulheres estão mais conscientes em relação à não padronização da beleza?

Comparado à década passada, sim. O boom da internet tornou a pressão estética maior, mas ao longo do tempo deu voz àquelas que não mais aceitavam esse tipo de imposição. Com isso, nasceram vários movimentos em prol da aceitação do próprio corpo, da diversidade e amor próprio. Ainda temos um longo caminho, pois todos os dias tem alguém (seja pessoa, marca ou veículo de informação) que reforça e propaga o discurso da beleza padrão. Por isso os movimentos não descansam nunca e são cada vez mais críticos.

Como o machismo influencia as mulheres a buscarem um determinado padrão?

Vivemos numa sociedade machista. Só com essa informação já dá pra saber o que acontece. O meio mais opressor da beleza feminina é o publicitário, que sempre foi controlado por homens. Campanhas de produtos de beleza foram criadas por homens durante muito tempo (e muitas ainda são). Sendo assim, elas expressam a ótica masculina no ideal de beleza feminina, ignorando e excluindo toda a diversidade de corpos, focando apenas naquela aparência específica: branca + magra + loira. Além disso, o “padrão” começou a ser reverberado pelas próprias mulheres, que de forma inconscientemente machista passaram a achar que única forma de beleza possível era essa.

Qual o seu conselho para as mulheres que ainda se sentem inseguras?

Parem de acompanhar pessoas opressoras. Aquelas que disseminam discursos de magreza, dietas mirabolantes, fotos de corpos magros e rostos impecáveis. Nada disso ajuda. Tenham nas suas redes pessoas reais, que se assemelham com seu biotipo, que lutem pelas causas feministas, que lutem contra padrões. Acompanhem todos os tipos de beleza, pois vivemos num mundo múltiplo. Dessa forma, a gente cria uma identificação com novos corpos e passa a se aceitar. Não nos sentimos excluídas. Isso é rede de apoio! Comprem de marcas que façam campanhas inclusivas, não daquelas que te façam se sentir feia. Parece bobeira, mas muito do que a gente acha de nós mesmas é moldado pelo meio em que vivemos. O primeiro passo para uma vida de menos insegurança depende de nós.

*Matéria do estagiário Thiago Lima sob supervisão de Ana Borges

 

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