Como os jovens transformam a forma de se informar

Metade dos brasileiros com 16 anos ou mais prefere acessar em vídeos curtos no celular, misturando notícias com entretenimento
sexta-feira, 24 de abril de 2026
por Laís Lima*
Foto: Freepik
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Enquanto a televisão perde espaço e os portais tradicionais disputam atenção, um novo hábito de consumo de informação avança com força no Brasil: o dos vídeos curtos. Uma pesquisa inédita revela que metade dos brasileiros com 16 anos ou mais já utiliza esse formato diariamente para se manter informada, um dado que evidencia não apenas a mudança de plataforma, mas também de linguagem e comportamento. A notícia, antes consumida com tempo e aprofundamento, agora cabe em poucos segundos e na palma da mão.

“Eu vejo tudo por vídeo. É mais rápido, não preciso ler muito e já entendo o que está acontecendo”, diz um friburguense de 15 anos
Informação em poucos segundos

A preferência por conteúdos rápidos, dinâmicos e acessíveis pelo celular aponta para uma transformação no modo como a informação circula. Em vez de textos longos ou reportagens detalhadas, cresce o interesse por vídeos curtos que sintetizam fatos, opinam e, muitas vezes, misturam entretenimento com conteúdo informativo.

Levantamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) mostra que sete em cada dez brasileiros (72%) acessam informações diariamente pelas redes sociais. Desses, 53% consomem vídeos curtos, enquanto 50% utilizam sites ou aplicativos de vídeo e 46% recorrem a feeds de notícias. Além disso, seis em cada dez brasileiros (60%) afirmam se informar por aplicativos de mensagens, superando os 58% que ainda recorrem a telejornais, rádios e canais de notícias tradicionais.

A rotina conectada

Deitado no sofá, com o celular na mão, o estudante de Nova Friburgo, Lucas Andrade, de 15 anos, percorre a tela com o polegar em movimentos rápidos e quase automáticos. Em poucos minutos, passa por vídeos de humor, dança e, sem perceber, também se atualiza sobre política, trânsito e acontecimentos do dia. “Eu vejo tudo por vídeo. É mais rápido, não preciso ler muito e já entendo o que está acontecendo”, conta.

Embora ainda não esteja incluído na faixa etária da pesquisa, o comportamento do adolescente antecipa uma tendência já consolidada entre os mais jovens. O hábito de consumir conteúdos fragmentados, rápidos e altamente visuais tem redefinido a forma como essa geração se relaciona com a informação.

Digitalização da informação

Dados do Instituto DataSenado reforçam esse cenário de transformação. A pesquisa, realizada entre fevereiro e março de 2025 com mais de cinco mil entrevistados, aponta que 54% dos brasileiros têm nos meios digitais sua principal fonte de notícias. A televisão aparece em segundo lugar, com 37% das menções, enquanto rádio, revistas e jornais impressos somam apenas 8%.

Entre as plataformas digitais, o Instagram se destaca como o principal meio de acesso à informação, citado por 32% dos entrevistados que utilizam a internet como fonte. Em seguida aparecem os portais de notícias (17%), o YouTube (11%) e o Facebook (8%).

O levantamento também evidencia desigualdades no acesso e no consumo de informação. Jovens, pessoas com maior escolaridade, renda mais elevada e moradores de áreas urbanas utilizam mais intensamente os meios digitais. Já idosos, indivíduos com menor escolaridade e residentes em áreas rurais ainda dependem, majoritariamente, da televisão.

Entre oportunidade e desafio

Para especialistas, a popularização dos vídeos curtos representa uma mudança profunda no ecossistema informativo. Por um lado, o formato amplia o alcance das notícias e aproxima o público jovem de temas que antes pareciam distantes. Por outro, impõe desafios ao jornalismo, que precisa se adaptar a novas linguagens sem abrir mão da credibilidade.

A lógica da velocidade e da síntese pode favorecer a superficialidade e dificultar o aprofundamento dos temas. Além disso, o ambiente digital facilita a circulação de conteúdos imprecisos ou fora de contexto, o que exige ainda mais responsabilidade de quem produz e compartilha informação.

Nesse cenário, veículos tradicionais buscam se reinventar, investindo em formatos audiovisuais e estratégias digitais para dialogar com novas audiências. A adaptação, no entanto, não é apenas técnica, mas também editorial: é preciso encontrar o equilíbrio entre rapidez e qualidade.

Impactos no comportamento

O consumo intenso de vídeos curtos também levanta preocupações sobre seus efeitos no comportamento e na cognição. Especialistas alertam que a exposição constante a conteúdos rápidos pode reduzir a capacidade de atenção sustentada, prejudicar a memória e aumentar os níveis de ansiedade.

A dinâmica das plataformas, baseada em recompensas imediatas, estimula a liberação de dopamina, criando uma sensação de satisfação instantânea. Com isso, tarefas que exigem concentração prolongada, como leitura ou estudo, podem se tornar mais difíceis, especialmente entre os mais jovens.

Um caminho em transformação

Apesar dos desafios, o avanço dos vídeos curtos já se consolidou como parte da rotina informativa de milhões de brasileiros. Para muitos, como Lucas, esse formato não é apenas uma alternativa, mas a principal porta de entrada para o mundo das notícias. “Se não estiver no vídeo, eu nem vejo”, admite o estudante, resumindo um comportamento que tende a se expandir nos próximos anos.

Entre a praticidade e a necessidade de qualidade, o futuro da informação aponta para um cenário híbrido, em que diferentes formatos coexistem. Cabe ao jornalismo se adaptar sem perder sua essência, e ao público, desenvolver senso crítico para navegar em um ambiente cada vez mais veloz e dinâmico.

(*) Estagiária com supervisão de Henrique Amorim 
 

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