Em 2024, a expectativa de vida da população brasileira chegou aos 76,6 anos, crescendo 2,5 meses em relação a 2023 — 76,4. Para a população masculina passou de 73,1 anos para 73,3 anos, no mesmo período; já para as mulheres o ganho foi um pouco menor: de 79,7 para 79,9 anos, ou mais 2,0 meses.
Brasil envelhece em ritmo acelerado e políticas são insuficientes para a pessoa idosa
Os dados, revelados na chamada Tábua de Mortalidade, em 28 de novembro pelo IBGE, indicaram que a longevidade no Brasil atingiu um novo recorde no ano passado. Esse aumento populacional de idosos gera debates e desafios significativos para o Sistema Único de Saúde (SUS), que busca se adaptar a essa nova realidade demográfica, com foco em doenças crônicas e cuidados integrais.
O ano de 2024 foi marcado pela consolidação de dados que reforçam a urgência de políticas públicas de saúde voltadas para o envelhecimento populacional. A população com mais de 60 anos no Brasil cresceu significativamente na última década, atingindo mais de 31 milhões de pessoas em 2021.
O principal desafio é a lacuna entre viver mais e viver de forma saudável. O aumento da longevidade está associado a uma maior prevalência de doenças crônicas, como obesidade e problemas cardiovasculares, o que exige uma reestruturação do modelo de assistência do SUS, saindo do foco agudo e hospitalar para um modelo de cuidado contínuo e preventivo.
Invisíveis ante políticas públicas
O Brasil e o mundo continuam atrasados na construção e implementação de políticas públicas para a população idosa. Mesmo quando existem, essas ações são pautadas pela medicalização e pelo foco na doença. As conclusões são da especialista Dália Romero, pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Ela ressaltou que nem mesmo órgãos globais, como a OMS e a ONU conseguem contornar a falta de inclusão dessa população nas metas de desenvolvimento sustentável, por exemplo.
"A primeira questão que sofremos é a invisibilidade. Somos invisíveis ante as políticas públicas. Somos invisíveis ante as prioridades da sociedade. Geralmente, somos vistos como portadores de doença e não como sujeitos políticos e sociais. Não estamos preocupados apenas com o preconceito, mas com a discriminação, que pode chegar inclusive a se transformar em crime."
No Brasil, o problema deve se potencializar nos próximos anos com o envelhecimento acelerado na população. Atualmente, a média de idade de brasileiros e brasileiras é de 35 anos. Em 2070, ela deve chegar a 51 anos. Esse processo impõe desafios não só para a saúde pública.
Dália Romero explica que esse movimento tem características específicas no país. "A causa principal do envelhecimento populacional aqui não é o aumento da expectativa de vida. Não é que estamos vivendo mais, mas que as gerações jovens não querem ou não podem, não têm oportunidade de ter filhos."
Segundo ela, esse cenário potencializa o peso da desigualdade estrutural na atenção e nas ações voltadas à população idosa. "Se nós fizemos essa diminuição da fecundidade com desigualdade social enorme, é difícil pensar que teremos um envelhecimento populacional saudável também.”
A pesquisadora também fez um alerta sobre a medicalização excessiva, que ignora capacidades e potencialidades de bem-estar para a população idosa. "A maneira de controlar qualquer sentimento de medo e de solidão em nós, pessoas idosas, é através de um medicamento".
De acordo com Romero, conter esse cenário é um desafio que precisa fazer parte do cotidiano do SUS. "O sistema precisa parar com a medicalização da vida, rapidamente, controlar essa epidemia de drogas psiquiátricas e tratar a vida de outra maneira."
Ela defende que esse processo passa necessariamente pelo fortalecimento das relações sociais e das redes de apoio. Para a pesquisadora, esse papel não pode ser responsabilidade apenas da família. "Em nossa Carta Magna está escrito que o cuidado das pessoas idosas é responsabilidade da família, da sociedade e do estado. Temos que ser coerentes. Se não temos a família, é a sociedade e o Estado que devem assumir. Nós estamos muito atrasados quanto aos dispositivos sociais para cuidado.”
Mulheres vivem mais
A projeção do IBGE mostra que as mulheres, historicamente, têm expectativa de vida maior do que os homens. Em 2024, a esperança delas era de 79,9 anos, enquanto a deles era 73,3 anos. Isso significa que as mulheres têm em média 6,6 anos de vida a mais do que os homens. Em 1940, essa diferença era de 5,4 anos, a menor já registrada. A maior disparidade foi no ano 2000, quando ficou em 7,8 anos.
Em relação à sobremortalidade masculina, que analisa a relação entre as taxas de mortalidade de homens e mulheres, o dado aponta que, em 2024, na faixa etária de 20 a 24 anos, a sobremortalidade masculina era 4,1 vezes o das mulheres. Isso significa que, nesse grupo de idade, um homem de 20 anos tinha 4,1 vezes mais chance de não chegar aos 25 anos, do que uma mulher. No grupo de 15 a 19 anos, a taxa ficou em 3,4; já no grupo de 25 a 29 anos, em 3,5.
Ao apontar que na década de 1940 não havia essa diferença elevada entre os sexos, o órgão explica que o fato de morrerem mais homens está relacionado ao processo de urbanização e metropolização do Brasil. “A partir dos anos 1980, as mortes associadas às causas externas ou não naturais (homicídios, suicídios, acidentes de trânsito etc.) passaram a elevar as taxas de mortalidade da população, particularmente dos adultos jovens do sexo masculino”.
Idosos no trabalho
A população idosa cresceu de 22 milhões para mais de 34 milhões, entre 2012 e 2024, um aumento percentual de 53%. O nível de ocupação desse grupo foi de 24%, sendo de 34% entre os homens e de quase 16% entre as mulheres. Ou seja, cerca de 1 a cada 4 pessoas idosas estavam ocupadas em 2024.
Em 2024, entre 60 e 69 anos, quase metade dos homens (48%) e pouco mais de um quarto das mulheres (26%) estavam ocupados. Com 70 anos ou mais, 15% dos homens e quase 6% das mulheres ainda permaneciam ocupados no mercado de trabalho.
"O aumento da expectativa de vida e as mudanças ocorridas nos arranjos familiares nos últimos anos, somados à alta informalidade no mercado de trabalho brasileiro e à reforma ocorrida em 2019 no Sistema de Previdência Social, são fatores que tendem a levar à permanência das pessoas no mercado de trabalho por mais tempo", explicou Denise Freire, analista do estudo do IBGE.
Preconceito afeta saúde física e mental
O etarismo é o preconceito, a discriminação baseada na idade, principalmente em relação às pessoas idosas, que se manifesta em diferentes contextos da vida cotidiana. Isso se traduz, por exemplo, no trabalho, na exclusão de profissionais mais velhos em processos seletivos e na falta de oportunidade de capacitação.
Esse tipo de situação também acontece na saúde, quando profissionais desautorizam a queixa do idoso ou a associam simplesmente a sintomas da idade, alegando que isso é normal para a faixa etária do paciente e não deve ser valorizado.


A proporção de idosos na população brasileira vem aumentando: de 2000 a 2023, esse percentual quase duplicou, subindo de 8% para 15%. Em números absolutos, o total de idosos no país aumentou de 15 milhões para 33 milhões no período. Segundo projeções, em 2070, os idosos representarão quase 40% dos habitantes do Brasil. Serão mais de 75 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.
Alcançar uma longevidade saudável tem muito a ver com a forma como a pessoa vai envelhecer. Especialistas recomendam atividade física, alimentação saudável e sono adequado em todas as fases da vida. “E começando desde a fase jovem, pois envelhecer tem muito a ver com a forma de viver, desde sempre”.
Outro ponto importante é desmistificar a ideia de que a velhice significa o fim da vida afetiva, do amor, da sexualidade. “A afetividade e o desejo fazem parte de todas as idades. O que muda são as formas de expressão e as prioridades. A gente precisa dessa mudança cultural de valorizar o envelhecimento como parte natural da trajetória humana.”
Para o secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Alexandre da Silva, o enfrentamento ao etarismo passa pelos aspectos cultural e da educação. “A criança que não tem essa visão positiva do envelhecer também vai falar mal do que é uma pessoa idosa”, diz o secretário. “O mesmo vai ocorrer com o adolescente e outras faixas etárias”, completou.
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