Acidente no bairro Ypu reacende debate sobre alternativas para coibir atentados à vida

A arquitetura segura e a abordagem multifacetada têm se mostrado eficazes nesta prevenção.
sábado, 27 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
Acidente no bairro Ypu reacende debate sobre alternativas para coibir atentados à vida

Em pleno mês da campanha nacional de prevenção ao suicídio, o acidente ocorrido na última quinta-feira, 25, no viaduto Geremias de Mattos Fontes, no bairro Ypu, trouxe novamente à tona a discussão em Nova Friburgo sobre a necessidade de criação de alternativas para coibir atentados contra a vida. Pelo mundo afora, medidas de contenção para evitar suicídios em pontes e viadutos incluem a instalação de barreiras físicas e o uso de estratégias não-físicas, como campanhas de conscientização e intervenção em crises. 

Aumento de guarda-corpos

Perguntamos a Defesa Civil de Nova Friburgo sobre a situação do viaduto do município e um engenheiro de plantão respondeu que “o guarda corpo é realmente muito baixo, podendo proporcionar vários  tipos de acidentes e, certamente, se faz necessário um estudo do corpo técnico da Defesa Civil e outros órgãos para se tentar uma solução que seja eficaz e não agrida a paisagem.” O engenheiro observou ainda que vários prédios públicos e comerciais já optam por aumentar os guarda corpos dos estabelecimentos por conta de acidentes.

Barreiras físicas possíveis

  • Redes  e  telas de proteção: A instalação de telas  redes nas laterais das pontes e viadutos é uma das medidas mais diretas e eficazes para dificultar a ação de pular. A Ponte Golden Gate, na Califórnia (EUA) por exemplo, instalou redes de segurança que resultaram em uma queda de 73% nos suicídios no local.

  • Grades e barreiras: Grades ou barreiras de proteção mais altas e resistentes também são utilizadas para dificultar o acesso às bordas da ponte. Um exemplo disso ocorreu na Terceira Ponte, em Vitória-ES, onde a instalação de barreiras foi determinada pela Justiça como medida de proteção.

  • Envidraçamento de varandas: Embora seja uma medida para sacadas, a tecnologia de proteção com vidro também pode ser adaptada, dependendo do projeto da ponte, para criar uma barreira física mais sólida.

Estratégias não-físicas

  • Sistemas de monitoramento: A instalação de câmeras de vigilância e sensores pode ajudar a identificar pessoas em situação de risco, permitindo uma intervenção rápida por parte de equipes de emergência ou patrulheiros.

  • Telefones de crise: A disponibilização de telefones de emergência ou totens de apoio psicológico, como os do Centro de Valorização da Vida (CVV), podem oferecer um canal imediato de ajuda para quem está em crise. Em Seul, a instalação de um sistema interativo em uma ponte contribuiu para a prevenção.

  • Sinalização e campanhas: Placas com mensagens de esperança e informações de contato para apoio psicológico podem ser instaladas em pontos estratégicos.

  • Patrulhamento: A presença de patrulhamento constante, seja por viaturas ou a pé, pode atuar como um fator de dissuasão e também garantir uma resposta rápida em caso de emergência. 

Abordagem multifacetada

É importante combinar as medidas físicas com as estratégias não-físicas. O investimento em saúde mental, a educação emocional e o suporte em crises são essenciais para combater as causas subjacentes dos pensamentos suicidas. 

Comissão da Câmara dos Deputados aprova obrigatoriedade de telas de proteção em pontes e viadutos
Objetivo é evitar tentativas de suicídio. Proposta continua tramitando 

Em outubro de 2023, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que torna obrigatória a instalação de telas ou redes de proteção ao longo de pontes e viadutos localizados em áreas urbanas no Brasil. A medida foi incluída como um dos objetivos da Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. 

O relator da proposta, deputado federal Luiz Lima (PL-RJ) recomendou a aprovação do texto que define como equipamentos de proteção: grades, malhas e dispositivos similares, capazes de proteger pessoas e evitar tentativas de suicídio. O parlamentar informou com exclusividade para A VOZ DA SERRA, que ainda está aguardando designação de relator da Comissão de Finanças e logo depois,a proposta seguirá para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ). A proposta determina ainda a fixação, nas pontes e viadutos, de placas com o telefone do Centro de Valorização da Vida (CVV) - Disque 188. As ligações são gratuitas para todo o Brasil.

O projeto de lei 611, de 2019, de autoria do deputado federal Eros Biondini (PL-MG), e um apensado foram aprovados na forma de um novo texto (substitutivo), que insere as alterações na lei 13.819, de 2019, que criou a política de prevenção à automutilação e ao suicídio.

 “Medidas como essas já foram utilizadas com sucesso fora do Brasil. Na Coreia do Sul, por exemplo, após uma ação publicitária que colocou mensagens inspiradoras de respeito à vida numa ponte, a taxa de suicídio no local diminuiu em 85%”, observou o deputado Luiz Lima.

Números alarmantes 

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de suicídios no Brasil cresceu 11,8% em 2022 na comparação com 2021, atingindo 16.262 registros, uma média de 44 por dia.

 Em Nova Friburgo, a situação é preocupante. Segundo o Corpo de Bombeiros, de janeiro a setembro deste ano, foram registradas 58 atentados contra a vida em todo o município: em janeiro, sete casos, com uma morte; fevereiro, dez; março, nove; abril, nove, com dois óbitos; maio, três; junho, cinco; julho, três; agosto, seis, e setembro, seis, com um óbito. Média de 6,44 tentativas de suicídio/mês. 

Como pedir ajuda 

Criado em 1962, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma associação civil sem fins lucrativos com 70 postos e cerca de dois mil voluntários espalhados pelo Brasil voluntários que se revezam para o atendimento 24 horas por dia, inclusive aos domingos e feriados. Esse atendimento é prestado gratuitamente por telefone, e-mail, pessoalmente nos postos e via chat. O atendimento é feito pelo Disque 188, com ligação gratuita.

O atendimento no CVV é feito sempre com respeito e anonimato. O voluntário guardará sigilo sobre tudo que for dito. Toda a equipe é treinada para conversar com todas as pessoas que procuram ajuda e apoio emocional. Além do Disque 188, o atendimento também pode ser feito pelo e-mail: [email protected] .

Os horários disponíveis para atendimento no CVV são:

  • Domingos: 15h às 0h

  • Segundas-feiras: 8h às 0h

  • Terças-feiras: 8h às 0h

  • Quartas-feiras: 8h às 0h

  • Quintas-feiras: 8h às 0h

  • Sextas-feiras: 13h às 0h

  • Sábados: 13h às 0h

Alguns sinais de alerta de quem precisa de ajuda

  1. Mudanças de comportamento

  2. Alterações físicas

  3. Sinais verbais

Quando o preconceito e a desinformação atrapalham

A médica da área de psiquiatria, Danielle Vaisman, destaca ainda que a depressão é uma condição de saúde séria e que pode afetar qualquer pessoa, independentemente de idade, profissão ou crença, contribuindo para a tentativa de suicídio. Infelizmente, ainda existe muito preconceito em torno do tema, e frases como “isso é frescura” ou “falta do que fazer” acabam desvalorizando o sofrimento de quem está passando por essa doença. Nessas horas, o apoio da família e dos amigos faz toda a diferença. Ouvir sem julgamentos, oferecer companhia e acolhimento já são passos importantes para que a pessoa não se sinta sozinha em sua luta.

Além do suporte emocional, é fundamental incentivar a busca por ajuda profissional. Psicólogos e psiquiatras são aliados indispensáveis nesse processo, pois oferecem acompanhamento adequado e, quando necessário, indicam o uso de medicação. Reconhecer a depressão como uma doença, e não como fraqueza, é um gesto de cuidado e amor. Estar presente, apoiar e estimular o tratamento são atitudes que podem transformar vidas e ajudar quem sofre a encontrar caminhos para a melhora.

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