A fertilidade floresce junto com a primavera

Pesquisas mostram como a primavera pode, de fato, influenciar a fertilidade humana.
sexta-feira, 19 de setembro de 2025
por Jornal A Voz da Serra
A fertilidade floresce junto com a primavera
Nesta segunda-feira,22, o hemisfério sul dá as boas-vindas à primavera. A estação da abundância, da renovação e da vida também traz consigo uma simbologia ancestral: o Festival de Ostara, celebrado desde os povos celtas como marco do equinócio de primavera. Para aqueles povos agricultores, os dias mais longos e ensolarados eram a promessa de fartura e renascimento da natureza.

Na primavera, o corpo e a mente entram em sintonia com o ciclo natural da vida

Ana Luísa Rocha

Hoje, além de toda a beleza das flores e da vibração cultural da estação, a ciência moderna aponta que a primavera pode, de fato, influenciar a fertilidade humana. Pesquisas mostram que esse período favorece tanto o equilíbrio hormonal feminino quanto o sucesso em tratamentos de reprodução assistida.

Estudo brasileiro revela mais chances de fertilização na primavera

Um estudo brasileiro avaliou a relação entre as estações do ano e os resultados da fertilização in vitro, mais especificamente pela técnica de Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides (ICSI). Foram analisadas 1.932 pacientes submetidas ao tratamento, divididas conforme a época do procedimento: inverno (435), primavera (444), verão (469) e outono (584).

Os resultados chamam a atenção: a taxa de fertilização foi significativamente maior na primavera, chegando a 73,5%, contra 67,9% no inverno, 68,7% no verão e 69% no outono. Em termos práticos, isso representa um aumento de cerca de 50% em relação às demais estações. Além disso, a concentração de estradiol, hormônio sexual produzido pelos folículos ovarianos, foi mais elevada durante a primavera.

A explicação pode estar diretamente relacionada às mudanças ambientais da estação. A luminosidade maior e as temperaturas mais amenas influenciam o funcionamento do cérebro, estimulando o hipotálamo e aumentando a produção de hormônios reprodutivos como o FSH (hormônio folículo-estimulante) e o LH (hormônio luteinizante). Isso resulta em uma resposta mais positiva do organismo feminino ao processo de fertilização.

O papel da natureza: luz, calor e equilíbrio hormonal

A primavera não traz apenas o colorido das flores e a diversidade de aromas. Ela exerce efeitos fisiológicos importantes. A maior incidência de luz solar, por exemplo, estimula a produção de vitamina D no organismo, nutriente essencial para a ovulação e o equilíbrio hormonal feminino.

A endocrinologia já demonstrou que a vitamina D participa da regulação dos hormônios sexuais, influenciando diretamente a fertilidade. Além disso, a luz solar impacta a melatonina, hormônio que regula o sono e atua sobre o sistema nervoso central. A regulação adequada da melatonina tem efeito cascata sobre outros hormônios ligados à reprodução, ampliando as chances de uma gestação bem-sucedida.

Ana Luísa Rocha

A nutrição como aliada da fertilidade

Para a nutricionista Ana Luísa Rocha, a própria estação oferece alimentos que fortalecem a saúde hormonal. Frutas vermelhas como morangos, cerejas e amoras são ricas em antioxidantes, que protegem os óvulos do estresse oxidativo. Verduras como aspargos, rúcula e espinafre fornecem folato, fundamental para a fertilidade e para a saúde do bebê ainda na gestação.

As ervas frescas da estação, como manjericão e hortelã, auxiliam na digestão e no equilíbrio metabólico. Já as frutas cítricas, laranja, limão e tangerina, contribuem com vitamina C, essencial para a absorção do ferro e para a saúde dos vasos sanguíneos, o que favorece a irrigação uterina.

“Assim como a primavera desperta a vida na natureza, a alimentação colorida e rica em nutrientes desperta processos internos importantes para a fertilidade feminina”, afirma a especialista.

Autocuidado: cultivando a “primavera interna”

A primavera também inspira leveza e renovação, e isso pode ser traduzido em práticas de autocuidado que fortalecem corpo e mente para uma possível gestação. Atividades físicas suaves, como caminhadas, ioga ou dança, ajudam na circulação e reduzem o estresse. O sono regulado garante a recuperação do organismo e mantém os ciclos hormonais em equilíbrio.

Além disso, práticas como meditação e respiração consciente têm efeito positivo sobre a saúde reprodutiva, já que diminuem os níveis de cortisol, hormônio do estresse, que pode interferir na ovulação.

Entretanto, alguns hábitos devem ser evitados, especialmente para quem busca engravidar. O consumo excessivo de açúcar aumenta a resistência à insulina e favorece inflamações que dificultam a ovulação. Bebidas alcoólicas afetam a qualidade dos óvulos e reduzem as chances de concepção. Gorduras trans, presentes em ultraprocessados e fast food, prejudicam a função hormonal. O excesso de cafeína também pode comprometer a qualidade dos óvulos e a implantação do embrião.

Outro vilão moderno é o uso exagerado de telas à noite, que desregula a melatonina e interfere no ciclo hormonal. “Cuidar do corpo e da mente é como preparar o solo para que a semente floresça. A fertilidade depende desse equilíbrio”, reforça Ana Luísa.

Fertilidade além do biológico

A primavera não favorece apenas a fertilidade no sentido reprodutivo. A estação é também símbolo de abundância em outras áreas da vida. Muitas mulheres relatam aumento da criatividade, disposição para novos projetos, abertura para relacionamentos e até um florescimento da autoestima.

Esse movimento pode ser explicado tanto pela biologia quanto pela psicologia. O aumento da serotonina, hormônio ligado ao bem-estar, durante os dias mais ensolarados traz mais energia e motivação. Ao mesmo tempo, as cores vivas e a possibilidade de maior contato com a natureza despertam um senso de renovação e novas oportunidades.

“Na primavera, o corpo e a mente entram em sintonia com o ciclo natural da vida. É uma estação que convida à leveza, à esperança e ao florescimento interno e externo”, finaliza a nutricionista.

Um convite à renovação

Seja na agricultura dos antigos celtas, nos laboratórios de reprodução assistida ou nas práticas cotidianas de autocuidado, a primavera mantém sua força simbólica e real como estação da fertilidade. Mais do que o simples brotar das flores, é o período em que o corpo humano também encontra condições ideais para se renovar, gerar vida e abrir caminhos para novos começos. A primavera, afinal, é mais do que uma estação: é um convite para florescer.

Reportagem da estagiária Laís Lima com supervisão de Henrique Amorim

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TAGS: nutrição